OPINIÃO

Quer parir como uma princesa? Entre na briga pela humanização aqui no Brasil

04/05/2015 18:14 BRT | Atualizado 26/01/2017 22:02 BRST
Reuters

Ninguém sabe ao certo os detalhes do parto de Kate Middleton. O que sabemos é que Kate estava com 41 semanas de gestação, teve um parto normal pouco mais de duas horas após sua chegada ao hospital, que ela não foi assistida por médicos - e sim por parteiras - e que ela foi para casa linda e impecável dez horas depois de dar à luz.

Por que todo mundo ficou impressionado com ela? O Kate tem que nós, meras plebeias, não temos?

Assistência adequada.

Só isso.

Kate tinha um plano de parto bem detalhado. Um plano de parto, para quem não sabe, é um documento em que a grávida diz exatamente como quer que seja sua assistência na hora. Segundo esse documento, a princesa optou por ser assistida pelas parteiras acompanhada por William - e tanto ela quando ele pediram que nenhum outro atendimento naquele hospital fosse interrompido por causa do trabalho de parto real.

Enquanto Kate era monitorada pelas parteiras, sua equipe médica aguardava do lado de fora. Porque a equipe médica só entra em ação se houver emergência médica. O parto, em si, não é um evento médico. E não foi: a princesinha nasceu em 154 minutos, sem intercorrências.

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O parto real não foi em um hospital público, como alguns lugares publicaram. Mas a princesa nasceu da mesma maneira como a maioria dos plebeus de seu país: assistida por uma equipe de parteiras. No sistema público inglês, a grávida é acompanhada por uma parteira de sua confiança desde o início da gestação. E é ela que acompanhará o parto - que pode ser feito em casa ou no hospital. Se a opção for por hospital, a alta leva cerca de seis horas. E a mesma parteira visitará a puérpera três vezes após o parto, em casa, para acompanhar a amamentação e o desenvolvimento do bebê. Simples assim.

(Este texto explica como funciona o sistema lá)

Aqui no Brasil, para parir como uma princesa e sair andando, é preciso... ser uma espécie de princesa. Porque um parto do tipo, com um profissional que siga o plano de parto à risca e não faça intervenções desnecessáreas, pode custar 5, 7, 10, 12 ou 20 mil reais. No Sistema Único de Saúde há algumas opções para plebeias. Mas são poucas.

Embora a taxa de partos normais no SUS seja superior à de cesarianas, é muito difícil que uma gestante consiga um parto de sua vontade, sem intervenções, com os profissionais seguindo seu plano de parto e não seguindo protocolos violentos como a episiotomia ou a manobra de Kisteller. No sistema particular, as taxas de cesarianas chegam a quase 90%. Nos dois casos, com intervenções ou cirurgia, não dá para ter o filho e sair divando do hospital poucas horas depois.

A briga da humanização é para que todas as mulheres tenham esse direito. Porque o movimento da humanização está crescendo, mas ainda é insuficiente. Você consegue contar nos dedos das mãos os profissionais que realmente evitam intervenções e seguem a vontade da gestante em cada cidade. A humanização - pode chamar de assistência adequada, se preferir - é para poucas. É preciso correr atrás, se informar, conhecer as pessoas certas... e pagar caro.

Já temos um projeto de lei, no estado de São Paulo, para levar isso ao sistema público. Precisamos de muito mais.

Kate Middleton é uma mulher como eu e você. E ela mostra que divar no pós-parto não só é possível, mas deveria ser muito mais comum do que nós estamos acostumados. Mas precisamos comprar a briga. E essa briga precisa considerar o sistema público - porque um parto de princesa deveria ser a regra, e não a exceção.

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