OPINIÃO

Parem de relacionar a morte da professora da UFSCar ao parto humanizado

27/07/2015 17:49 BRT | Atualizado 26/01/2017 22:53 BRST
Kingray/Flickr
My wife's belly, 34 weeks pregnant.

Você deve ter ouvido falar da história da enfermeira Mariana de Oliveira Fonseca Machado, 30, Professora Doutora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, que morreu após dar à luz sua filha. A primeira notícia que saiu sobre o tema destacava: a professora teria morrido após "tentar parto em casa por 48 horas" com "ajuda de uma doula".

Quando li essa notícia, achei ela de cara muito mal contada. E lamentei: ela certamente cairia nas mãos dos críticos do movimento para embasar os supostos perigos do parto humanizado e do parto domiciliar.

Foi o que aconteceu.

A notícia começou a repercutir em outros veículos. É normal. Os jornalistas online se alimentam da internet e a alimentam: usam a fonte original para recontar a história para o próprio veículo. Mas, em geral, buscam-se outras fontes. Entrevistam-se pessoas. Se faz uma apuração própria e uma curadoria.

Não foi o que aconteceu.

A manchete sensacionalista que relaciona a morte ao "parto em casa" foi repercutida sem crítica e sem apuração. E espalhou uma mentira que me ofendeu em dobro: primeiro, como jornalista; depois, como mulher e mãe preocupada com a realidade do sistema obstétrico em nosso País.

A falsa notícia começou a ser desmontada pela nota oficial que a própria universidade soltou:

Assim, a Prof.a Mariana entrou em trabalho de parto no sábado, dia 11 de julho, estando acompanhada por profissional capacitado durante todo o processo. Para continuidade do trabalho de parto, encaminhou-se ao hospital no início da noite do mesmo dia, chegando ao local em perfeito estado de saúde. Algumas horas depois, Mariana foi submetida à cesariana, tendo a oportunidade de pegar sua filha no colo e amamentá-la. Posteriormente, foi encaminhada ao quarto junto com sua filha e, poucas horas depois, iniciou um quadro de complicações, que resultou no trágico desfecho. Infelizmente, preconceitos em relação ao parto natural e a "cultura de cesariana" brasileira, associados à falta de responsabilidade no compartilhamento de informações nas redes sociais e na mídia, levaram a divulgações equivocadas sobre o caso.

Felizmente, o próprio Estadão publicou a história verdadeira, no ótimo blog de Rita Lisauskas: Mariana morreu após uma cesárea.

Vivemos tempos de polarização. Em uma sociedade em que o Facebook é responsável por formar opiniões - e, ao mesmo tempo, nos fecha a opiniões contrárias às nossas -, perdemos a capacidade de dialogar e discutir. É assim com política, é assim também com a falsa dicotomia entre cesárea e parto humanizado. Infelizmente, na ânsia de emplacar uma história potencialmente viralizável, jornalistas que trabalham na internet acabam puxando pela polêmica e entrando no jogo da polarização. Foi exatamente o que aconteceu com a triste história da Mariana.

"Cada vez que uma mulher morre depois de tentar um parto em casa, o status quo comemora", Rita escreveu. E é verdade.

A enfermeira Mariana era ativista pelo movimento da humanização. Como a parteira Ana Cristina Duarte contou, ela sabia dos benefícios do trabalho de parto. Passou uma noite e um dia acompanhada da doula (profissional contratada para dar apoio físico e emocional à mulher) e de suas enfermeiras-obstetras (as que assistiriam o parto). Durante todo o tempo, ela passou bem e a bebê também. Depois de horas, ela foi ao hospital procurando por analgesia (esta é a maior causa de transferência de partos domiciliares: um desejo da mulher). O pedido foi negado pela equipe de plantão, como conta Ana Cris:

Chegou bem com seu companheiro, os batimentos cardíacos da bebê perfeitos, mas não conseguiu a ajuda que desejava. Não havia a possibilidade, como para a maioria das brasileiras, de alívio para a dor. Naquele momento da noite suas opções seriam continuar sem medicamentos ou aceitar uma cesariana. Ela optou pela cirurgia. Três horas após chegar ao hospital foi operada, sua filha nasceu bem, a cirurgia terminou bem, ela amamentou na sala de parto e com a filha no colo foi de maca para o quarto. Durante a madrugada algo aconteceu. Ela passou mal, entrou em choque e após algumas horas voltou a ser operada. Foi para a UTI, foi transferida para outro hospital e após 11 dias veio a falecer.

O hospital não divulgou a causa do choque que a levou à morte. Mas não, não foi o fato dela ter tentado o parto em casa, não foi fato dela ter tido parteiras ou doulas ou ela ser do movimento que levaram a esse trágico desfecho. Durante todo o trabalho de parto suas condições físicas - e as da bebê - estavam perfeitas. O quadro todo aconteceu após a cirurgia. E não após a "tentativa de parto humanizado".

Por que este caso não está sendo usado para discutirmos a assistência à gestante em trabalho de parto? A negativa do pedido de analgesia? Por que ela não recebeu alívio para a dor?

Por que este caso não está sendo usado para discutirmos os riscos da cesariana?

Por que alguns doutores compartilharam a trágica notícia para tentar justificar as suas taxas de 80% ou 100% de cesarianas, e também não contam que a mortalidade materna é de 0,9% nos partos vaginais e 2,7% nas cesarianas? Por que não mencionam que a cesariana é um fator de risco para a hemorragia pós-parto, que leva ao choque?

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Reprodução/Facebook Melania Amorim

Em País em que, no setor privado, 88% das crianças nascem por cesárea (quando a recomendação da OMS é 15%), fazer manchetes sensacionalistas é, no mínimo, uma irresponsabilidade. E não se trata de um retrocesso, da negação dos avanços da medicina, mas de seguir as evidências científicas: a cesárea traz riscos para a mãe e para o bebê. Riscos que culminaram no trágico desfecho no caso da professora da UFSCar, e podem acontecer com outras mulheres.

Nós, jornalistas, precisamos ter responsabilidade. Sim, precisamos dar audiência e garantir cliques dos leitores. Mas isso não pode custar uma manchete sensacionalista, que tenta colocar em xeque um movimento que tem como único fim garantir às mulheres assistência adequada e cumprimento às normas da Organização Mundial da Saúde. Ao alimentar este Fla x Flu, quem perde é a saúde pública.

Quando a morte materna chega à nossa porta, levando uma colega que militava pela melhor assistência obstétrica, e foi ví...

Posted by Carla Andreucci Polido on Thursday, July 23, 2015

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