OPINIÃO

Ei, deputados: TUDO deveria estar no rótulo. Até os transgênicos

29/04/2015 15:24 BRT | Atualizado 26/01/2017 22:02 BRST
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Já estamos ficando acostumados: quase todos os dias a sociedade sofre alguma derrota na Câmara dos Deputados. A desta vez é a aprovação, na noite de terça-feira, 28, do fim da identificação de alimentos transgênicos. O projeto, apresentado pela bancada ruralista - mais especificamente por Luiz Carlos Heinze, deputado pelo PP-RS - , argumenta que o símbolo (aquele "T" com um triângulo amarelo) afugenta os consumidores.

Eu não quero me aprofundar na discussão se transgênicos fazem mal à saúde ou não. Segundo Dráuzio Varella, "até hoje jamais foi descrito qualquer agravo à saúde provocado pela ingestão de transgênicos". Porém estudos do tipo - de prova negativa - são difíceis de ser elaborados:

Explico melhor: provar que sardinha enlatada faz mal é fácil; basta saber se quem comeu ficou doente (estudo positivo). Agora, provar que não faz mal (estudo negativo) é outra história. Quantos precisarão comê-la? Milhares ou milhões? Deverão ser acompanhados por quantos anos para ficarmos tranquilos? Será seguro comê-las diariamente, ou apenas uma vez por semana, ou uma vez por mês? Quantas dúvidas persistirão no final de um estudo desses?

Transgênicos podem ter um impacto muito positivo na sociedade (Varella explica isso no texto dele, linkado acima). Mas ainda não sabemos, ao certo, que tipo de impacto eles podem ter na nossa saúde.

Por isso eu defendo que as pessoas têm o direito de saber - de forma clara - se o alimento que elas estão comprando têm componentes transgênicos ou não. Assim como elas têm o direito de saber se tem proteína de leite, glúten, soja, castanhas ou qualquer outro alimento potencialmente alergênico.

A retirada do "T" era uma bandeira antiga da indústria alimentícia. Claro: não interessa a ela que o consumidor saiba exatamente o que está comprando - até porque isso dá a ele mais poder sobre a compra (e sobre a decisão de não comprar).

Digo isso porque, como mãe de uma bebê alérgica, eu acompanho a jornada de outras mães que lutam todos os dias para saber do que são feitos os alimentos que estão no mercado. Porque, ao ler um rótulo, você encontra um monte de nomes estranhos e não há nenhuma identificação clara se tem leite, se tem traços de leite ou castanhas. E essa informação pode custar a vida de uma criança alérgica.

Cansadas de terem de ligar para SACs para confirmar sobre os componentes de cada alimento, mães de alérgicos criaram o movimento Põe no rótulo, que luta justamente para abrir os componentes e informar as pessoas exatamente o que elas estão consumindo. O tema chegou à Anvisa - na semana que vem, a agência realizará uma audiência para discutir a questão da rotulagem.

Eles se manifestaram sobre a aprovação na Câmara:

SE O BRASIL PEDE PÕE NO RÓTULO, POR QUE QUEREM TIRAR?Ontem, a Câmara dos Deputados aprovou a retirada da...

Posted by Poe no Rotulo on Wednesday, April 29, 2015

Outra iniciativa interessante, no esquema da ação direta, é o Open Food Facts, uma iniciativa para abrir os dados dos alimentos de forma colaborativa. É uma espécie de Wikipedia com informações nutricionais dos alimentos vendidos em cada pais, alimentada por colaboradores. Aqui no Brasil, por exemplo, já há quase 300 alimentos catalogados. A proposta deles é criar um arquivos para ajudar pessoas a decifrar rótulos, comparar os produtos e encontrar alternativas melhores (com menos sal, menos gordura, sem alergênicos, por exemplo). Veja aqui, por exemplo, a quantidade de sal de um pacote de Club Social Integral.

É fácil entender porque, para a indústria, não interessa falar de forma clara e didática na embalagem que seu produto tem aditivos químicos estranhos ou sal em uma quantidade elevada. E não interessa estampar um T em amarelo que grita ao consumidor que há componentes transgênicos.

Mas a nós, como consumidores, é fundamental saber exatamente que tipo de produto estamos consumindo e oferecendo para nossos filhos. Porque podemos confiar na Embrapa, nos fabricantes e na bancada ruralista e optar por consumir transgênicos - afinal, os maleficios à saúde ainda não foram provados. Mas isso deve ser uma escolha consciente e não cega, como alguns parecem querer.

Nós temos o direito de saber.

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As loucuras da Câmara em 2015