OPINIÃO

Angélica, Augusta, Consolação, dois anos depois

12/06/2015 18:22 BRT | Atualizado 26/01/2017 22:31 BRST
elipe Paiva/Frame/Estadão Conteúdo

Eu nunca respirei tanto gás lacrimogêneo quanto naquela quinta-feira, 13 de junho de 2013.

Também nunca tive tanto medo de estar na rua quanto naquele dia. Lembro da sensação de estar encurralada na Rua da Consolação, com a Tropa de Choque de um lado e a Cavalaria de outro, e não ter nada a fazer senão sentar no chão. Éramos umas dez pessoas, que por alguma infelicidade calharam de ficar encurraladas no mesmo ponto, e decidimos espontaneamente (os barulhos de tiros e bombas não deixavam ninguém falar) no abaixar. Pensávamos que, deste jeito, a polícia veria que estávamos totalmente desprotegidos e rendidos.

Ainda assim, tomamos bomba na cabeça.

Lembro que coloquei um lenço na cara e saí correndo para alguma rua aleatória do bairro, sem conseguir abrir os olhos e entender direito o que estava acontecendo.

Era a parte final do 4º Grande Ato Contra o Aumento das Passagens, organizado pelo Movimento Passe Livre. Os protestos anteriores, menores, já haviam sido recebidos pela PM com a truculência habitual. A violência do terceiro ato foi o que levou mais gente para a rua naquela quinta-feira. Eu acompanho o MPL desde quando acompanhava o movimento estudantil, em 2005, mas nunca tinha ido nos protestos. Decidi ir naquela quinta-feira por alguns motivos: eu já estaria no centro da cidade naquele horário e eu queria ver de perto o que aconteceria. Eu sentia que seria grande. E depois daqueles editoriais dos jornais - vocês lembram do "Retomar a Paulista"? - eu sabia exatamente de que lado eu queria estar.

Na concentração, na Praça Ramos de Azevedo, o clima era sossegado. Eu fui sozinha, mas encontrei o meu irmão e um amigo por lá. Também vi o Elio Gaspari, que circulava tranquilamente. O MPL puxou a marcha e o clima era tranquilo: gritos de "vem pra rua", muitos acenos de apoio nas janelas e instrumentos musicais. Até chegarmos na Praça Roosevelt.

Aí começou (vou colar as minhas postagens no Facebook, que foram feitas na hora - até quando eu não consegui mais usar o celular):

Choque chegou por tras. Tava todo mundo numa boa. Foi ridiculamente desproporcional.

tava todo mundo andando numa boa de novo ate chegar o choque soltando bomba. de novo. ninguem me contou.

tropa de choque cercou todo mundo na consolacao. por cima e por baixo. todo mundo ta sentandk no chao pra mostrar q o lance eh pacifico. e as bombas rolando...

A policia jogou bomba na galera sentada, inclusive na gente. Eu nunca vi nada parecido. Nem pensei q isso fosse possivel.

Acabei de respirar uma quantidade absurda de gas. Policia cercou todo mundo. Nao da nem pra ir embora. Eu nunca vi um absurdo assim.

Os olhos começam a lacrimejar sem parar, a boca saliva e o nariz começa a escorrer descontroladamente. Eu tentava manter a calma, respirar e não me perder. Não enxergávamos nada; só corríamos e pedíamos vinagre para os primeiros que aparecessem; todo mundo parava para ajudar. Eu só pensava "não tô acreditando que isso tá acontecendo".

Eu vi manifestantes revoltados colocando fogo em lixeiras e jogando pedras. Mas nada, nada, nada que se compare à brutalidade da polícia. Há dezenas de vídeos no YouTube que mostram a truculência e o despreparo dos policiais. Ninguém atacou a polícia. As pessoas só queriam ficar na rua.

Depois de muito tempo, conseguimos pegar o metrô (ouvindo bombas e helicópteros durante todo o caminho, feito a pé, pelo centro). Enquanto caminhávamos, a mensagem era passada no boca-a-boca (e, às vezes, no megafone): "segunda-feira, 17h, Largo da Batata!".

Cheguei em casa eufórica. O que tinha sido aquilo?

Todo mundo estava preocupado comigo. Viram as notícias sobre a repórter da Folha que havia sido atingida no rosto.

E, no dia seguinte:

bom dia. tá tudo bem, gente. segunda vai ser maior!

Começaram alguns dias de euforia e empolgação. Peguei um táxi no sábado, eu e o taxista conversamos sobre política e, quando eu contei que estava no protesto na quinta-feira, o taxista se recusou a cobrar os R$ 10 da corrida. Fiquei emocionada. O Quarto Ato foi o ponto de mudança nas Jornadas de Junho. De repente, a sociedade que estava dividida - e ainda classificando os protestantes como baderneiros - se uniu e resolveu tomar as ruas.

Começaram a surgir um monte de manuais na internet ensinando a se organizar em protestos e a lidar com o desconforto do gás lacrimogêneo. Todo mundo se preparou para aquele dia. Não precisou. O 5o Grande Ato foi enorme e pacífico - vi pessoas andando com cachorro e muitas crianças -, mas foi ali que a proposta inicial começou a ser diluída. Comecei o ato empolgada, terminei melancólica.

Porque daquela mobilização surgiu uma polarização violenta na sociedade, porque a violência policial ainda acontece sistematicamente no País - nas ruas contra protestantes e no dia a dia nas periferias -, porque o discurso dos governos estaduais continua sempre o mesmo para justificar abusos na repressão a protestos. Porque as passagens aumentaram. Porque um fotógrafo ficou cego.

Porque a Justiça proibiu balas de borracha em manifestações, os deputados paulistas também aprovaram a proibição, mas o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, optou por vetá-la.

Porque até hoje, depois de vários recursos, a polícia e o governo paulista se recusam a revelar quem deu a ordem daquela ação policial desatrosa.

Dois anos depois, a sensação de melancolia permanece.

VEJA TAMBÉM:

O grande ato de 13 de junho de 2013