OPINIÃO

Amamentar não é só amor e produção de leite. É apoio, persistência e informação

31/07/2015 17:56 BRT | Atualizado 27/01/2017 00:31 BRST
Dana Brushette/500px
A beautiful moment with mom and baby

Amamentar é 90% determinação e 10% de produção de leite.

Eu via esse slogan de um grupo de apoio à amamentação e tentava transformá-lo em um mantra. Minha filha, como todos os recém-nascidos, passava horas e horas plugada no meu peito, enquanto eu suava frio e chorava baixinho de dor. Eu olhava as fotos das mulheres felizes e relaxadas amamentando e pensava que aquilo nunca aconteceria comigo. Quando amamentar deixaria de ser um sofrimento?

Eu lembro perfeitamente que, na Semana Mundial de Aleitamento Materno do ano passado, minha filha tinha um mês e meio e eu sofria rigorosamente em TODAS as mamadas. Mesmo assim, repetia o mantra para permanecer firme: eu queria muito amamentar, queria muito completar os seis meses de amamentação exclusiva, queria muito que ela mamasse o quanto quisesse, por quanto tempo quisesse. Calculava o tempo das mamadas com um app e, cada vez que ela dormia, torcia para que ela não acordasse. Quando acordava, eu repetia o mantra:

Amamentar é 90% determinação e 10% de produção de leite.

Eu conheci muitas mulheres que tinham bebês da mesma idade que a minha. Vi vários tipos de problemas: mulheres lutando para tirar o complemento que foi dado para o bebê ainda na maternidade (sem real necessidade), sofrendo com candidíase, mastite recorrente (inflamação nos seios). Vi muitas, mas muitas mesmo, sofrendo com desmame precoce após introduzirem mamadeira para o bebê (sim, mamadeira pode provocar desmame).

Também vi muitas lutando contra a família (que repetia que o leite delas não era "forte") e contra os próprios pediatras, que receitam suco para bebês de quatro meses (o que contraria recomendações da Organização Mundial de Saúde). Depois, vi várias na luta para conseguir manter a amamentação mesmo com a ridícula licença-maternidade brasileira de quatro meses (e muitas que não conseguiram). Se fosse fácil, a média de amamentação brasileira não seria de apenas 54 dias. E a culpa não é das mulheres: é da sociedade que não está preparada para apoiar e incentivar a mulher neste período tão delicado.

Vi muitas mulheres que têm vegonha de amamentar em público. Vi outras serem constrangidas publicamente. Olha... não é fácil.

Amamentar é 90% determinação e 10% de produção de leite.

Hoje, 13 meses depois, eu não concordo totalmente com essa conta. Há outras variáveis nesta equação. Na minha conta entrou o apoio e incentivo da minha família; o apoio e incentivo do pediatra; a minha resistência em não permitir nenhum tipo de bico artificial (nem chupeta, nem mamadeira); grupos de apoio (presenciais e virtuais); o apoio dos meus empregadores; trocar experiências com mães mais experientes do que eu.

Acho que os 10% de produção de leite estão corretos - muitos especialistas em amamentação concordam que a maioria absoluta das mulheres tem condições de alimentar seus filhos. Mas, nos 90% restantes, além da determinação da mãe, está seu entorno - o pai, a família, os médicos, o poder público, os empregadores.

É o amor e a determinação, sim, que fazem as mães enfrentarem dor, cansaço, exaustão, olhares reprovadores e a acordarem de madrugada para tirar leite para dar para o filho enquanto estiverem fora no trabalho. Mas isso não é justo. Muito mais justo seria uma sociedade que a apoiasse e oferecesse condições para que amamentar não fosse tão difícil.

Uma amiga comentou que as campanhas de incentivo que associam a amamentação ao amor culpabilizam as mulheres que, por um motivo ou outro, não conseguiram ou não puderam manter a amamentação. Eu concordo. Mas acho que, com todas as circunstâncias que atrapalham este processo, todo incentivo é válido.

Vamos passar essa semana lembrando quanto amor há no ato de amamentar e quanto isso é lindo, mas vamos também brigar por um aumento da licença-maternidade. Por um sistema de saúde que incentive a amamentação, para além das campanhas do Ministério de Saúde. Por mais consultores de amamentação em postos de saúde, e por menos pediatras formados em congresso de fabricantes de leite artificial. Vamos brigar por poder amamentar em público sem constrangimento.

Vamos lutar para que os próximos bebês brasileiros que estão para nascer consigam ser amamentados por mais tempo do que os 54 dias da média. E que o mundo ao redor deles acolha melhor as suas mães.

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