OPINIÃO

A primeira vez que eu fiz Adho Mukha Vrksasana (e o que a prática de ioga me ensinou)

19/06/2015 18:12 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

handstand

Era uma briga ímpar: eu contra mim. Jogo a perna para cima. Caio. Jogo de novo. Caio. Mais uma vez. Caio. Nem chego perto da parede. Fico frustrada. Tento a outra perna. Pior ainda. Olho para o lado e vejo que alguns praticantes já conseguiram: eles estão na invertida sobre as mãos, o Adho Mukha Vrksasana, ou, se você preferir, a parada de mão. Tento de novo. Minha performance, que já era ruim, ficou pior. Desisto. Volto para a postura da criança, resignada, respiração ofegante. "Eu nunca vou conseguir fazer essa postura."

Eu repeti esse "eu nunca vou conseguir fazer essa postura" por muitas e muitas vezes nestes nove anos de iyengar yoga. E, para mim, a parada de mãos sempre foi a postura mais desafiadora. O meu professor falava: Adho Mukha Vrksasana e eu já pensava "ah, não, de novo, não". Sempre me frustrava.

Eu me lembro que praticava há mais ou menos três anos. Desenvolvi uma ótima flexibilidade e consciência corporal. O problema, para mim, não era a invertida em si - eu sempre amei fazer Sarvangasana (minha postura favorita), Sirsasana (parada de cabeça), até Pincha Mayurasana eu conseguia fazer, com o apoio da parede. Mas a parada de mãos... nada. Nem na parede. Ficava apoiada sobre as mãos, jogando meus pés para o alto, inúmeras vezes, sempre em vão. E terminava frustrada após conseguir fazer a postura com o auxílio do professor.

Não é exagero dizer que a ioga mudou a minha vida. Nunca fui fã de esportes - nunca fui boa de bola nem soube dar estrelas -, então a prática, que eu comecei aos 20 anos, foi o que me fez conhecer o meu corpo. Descobri que eu era muito mais forte e resistente do que eu pensava. E que a nossa mente é aprendiz do nosso corpo. O método de Iyengar é focado no alinhamento e consciência corporal, tem muita permanência nas posturas e também o uso de acessórios, como cinto e blocos, para conseguir o alinhamento perfeito. Desta forma, qualquer postura pode ser adaptada para qualquer pessoa. E todos podem sentir os mesmos benefícios.

Quando se está em uma postura, é preciso que a atenção se volte a ela. Do dedo do pé ao topo da cabeça, todos os músculos do corpo devem estar atentos e vivos. Se concentrar no corpo esvazia a mente e é a maneira mais fácil, para mim, de aprender de verdade o que é viver o aqui e o agora. Quando se está em uma postura, nada mais importa: só o aprimoramento e a permanência nela. Dói. Mas a dor é boa. A dor é o sinal que seu corpo está se abrindo e reagindo. Também dá prazer. Mas o prazer é temporário. Para mim, a prática me ensinou a observar esses dois extremos - a dor e o prazer - e ver que eles não fazem parte de mim. São só sensações, e não precisamos nos apegar a elas.

Eu sou competitiva e perfeccionista. Reconhecer os meus limites e ver que havia outras pessoas mais avançadas na sala era difícil. Ver que tinha pessoas mais iniciantes do que eu que já conseguiam fazer a parada de mãos me deixava ansiosa. É muito difícil encontrar o limite entre aprimoramento pessoal, sem comparação, e o aprimoramento "para fazer igual ou melhor do aquela pessoa". Se, por um lado essas minhas características me ajudaram a ter disciplina e a evoluir na prática, eu acho que foi isso que me fez travar na parada de mão.

Eu sabia que eu era capaz. Que meus braços sustentavam o meu corpo. Que minhas pernas eram capazes de subir e ir até a parede. Mas por que eu não conseguia?

Eu não sei quantas milhares de tentativas foram necessárias. Lembro que o meu professor sempre nos fazia tentar, tentar e tentar, vivendo o processo, sem se apegar ao resultado final. Eu odiava aquilo. Eu queria chegar no final. Eu queria conseguir.

Não lembro bem como foi o dia. Lembro que chegou a hora do Adho Mukha Vrksasana. Eu só lembro de pensar: "hoje eu vou fazer isso". Respirei, me foquei, me arrumei no tapete. Joguei a primeira perna para cima. Errei. Respirei fundo. Pensei na parede. Na sensação de encostar nela. Pensei na força da minha perna. Joguei a perna de novo. Pá. Parede! A outra perna foi junto e de repente eu estava lá, de ponta cabeça, tentando entender o que tinha sido aquilo. Eu tinha conseguido! Fiquei tão animada que fiquei lá, ensaiando uma permanência, com medo de descer e não conseguir mais subir. E então eu desci. E tentei subir de novo. E consegui!

Eu fiquei muito empolgada. Eu rompi uma barreira que parecia imensa para mim. Pode parecer patético, mas para mim foi enorme. Ali caiu um paradigma.

Eu não virei uma ás da parada de mão depois disso. Quase sempre conseguia, mas às vezes eu falhava. O que mudou foi a minha frustração. Eu comecei a me perdoar quando não conseguia. Ou eu não estava em um dia bom, ou eu estava pensando em outra coisa - não importa o motivo, não deu certo naquele dia. E tudo bem. Em outro daria. Comecei a aceitar que eu tinha mais facilidade em algumas posturas, em outras não. Como em tudo na vida, né?

Resolvi contar essa história porque, neste Dia da Ioga, me emocionei ao lembrar o que a prática já me trouxe. Pratique e tudo acontecerá: é nela que você vê os seus medos, os seus fantasmas, os seus defeitos e também a sua força. Ter aprendido a ficar em parada de mãos, aqui, foi o menos importante.