OPINIÃO

Sexo depois da maternidade

Nosso corpo, que acabou de gerar e nutrir um ser, nunca mais será o mesmo.

10/03/2017 09:51 -03 | Atualizado 05/04/2017 15:07 -03

Sem sal, inexplorada, pouco criativa, rara, sem surpresas, nula.

Entre muitas definições escritas em papéis brancos espalhados pelo chão, essas foram as escolhidas num exercício entre mulheres em um encontro sobre sexo após a maternidade para definir a própria vida sexual.

Quando sequer comentávamos sobre essa roda de conversa com outras mães as reações eram quase sempre as mesmas e as piadas também. "Sexo? Isso existe? É de comer?".

Estava aí um assunto que a maioria das mães nem sequer queria comentar; no máximo colocar uma brincadeira vazia ou outra, é claro.

Mas como pensar naquilo, como tantos outros (em especial, eles, os filhos) vinham tão na frente na nossa fila de prioridades?

Parece que depois da maternidade o tal do "prazer" vira utopia, pensar em si então, problema restrito apenas para sonhadores incuráveis. Por que depois que nos tornamos mães esquecemos disso?

O sexo muda tudo, já diziam os bons conselheiros de plantão. E com a maternidade ele muda muito.

Bem, pra começo de conversa, a gente muda. Nosso corpo que acabou de gerar e nutrir um ser nunca mais será o mesmo. Mesmo tendo passado por um parto, uma experiência carregada de sexualidade, a gente precisa de um tempo para processar, para separar e voltar a pensar como ser único de novo.

Além disso, existe o óbvio: a barriga flácida, os seios cheio de leite, um períneo diferente. Um corpo novo, que a gente só conhece depois de ser mãe.

Então, o processo de voltar àquela vida sexual ativa de antes já começa cheio de nuances quase sempre difíceis de ultrapassar.

Depois vêm as noites maldormidas, o cansaço, a falta de ânimo ou tempo, e sexo vai ficando lá atrás.

Nos conformamos com as noites de sábado reservadas para esses encontros amorosos mais trabalhados, nas rapidinhas pós um dia exaustivo, e nas ocasiões especiais.

Sexo matinal? Tá mais fácil acordar cedo e correr uma maratona do que conseguir acordar juntos e antes das crianças, sem serem interrompidos.

Na lista de prioridades, o sexo mais parece uma daquelas coisas que a gente tem que fazer, tem que lidar, para as coisas fluírem. Porque se a gente não faz, vixe, aí sim, vira um problema.

Passado o óbvio e todas esses contras para deixar o sexo fluir tem uma variável muito importante nessa história: não somos mais as mesmas... Talvez a gente não goste mais das mesmas coisas, estamos nos redescobrindo, revendo nosso corpo, o que a gente gosta e o que não gosta.

A maternidade também traz um novo olhar sobre tudo na vida; de repente a gente não quer gastar mais tempo com besteiras, só faz o que vale a pena, nossas horas são preciosas. E vamos ser sinceras: o sexo precisa ser maravilhoso também, a gente não pode ir lá, fazer e pronto. Tem que valer a pena. E se a gente não conversar isso com quem está do nosso lado, a coisa desanda.

Comunicação é fundamental, dizer "não" é preciso. Não tá a fim? Não faz.

Mas dizer "sim" também ajuda e pode trazer mais oportunidades de descoberta e, não contem a ninguém, aquela coisa que tá lá longe daquela nossa lista de prioridades depois das milhões de coisas que temos que fazer no nosso dia a dia: prazer.

Mas, onde estamos indo com isso? Calma, tudo bem, isso não é regra, há exceções, é claro.

Um viva para as mulheres que já se conhecem tanto, já foram lá fundo nelas mesmas que depois da maternidade se encontraram ainda mais.

Mas o fato é que não há como sair ilesa dessas transformações, elas acontecem e devem ser bem-vindas.

Ajuda se a gente falar sobre sexo, sobre como a gente quer que ele seja, como ele é, especialmente, com o parceiro ou parceira.

Melhora se a gente tem mais consciência desse novo corpo e o quanto ele é poderoso, pode ser que ele nunca seja o mesmo, mas ele sente de forma intensa e libertadora.

Sexo é só sexo, pronto. Não precisa de muita coisa, vai lá e se joga.

Se a gente se entrega e se descobre, o sexo depois da maternidade também pode ser intenso, libertador, criativo, frequente, surpreendente, constante.

E aí você vai poder escolher outras definições entre todas aquelas jogadas no chão naquele encontro.

Divulgação/Carolina Carvalho

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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