OPINIÃO

Sobre criar meninos

Se a gente não consegue mudar o mundo, comecemos primeiro mudando o nosso mundo através dos nossos filhos.

09/06/2017 15:42 -03 | Atualizado 09/06/2017 15:42 -03

Tenho duas meninas e um menino. E sinto que, ultimamente, estamos sempre em busca de informações para criar meninas fortes, seguras de si, feministas. E como mulher e mãe acho isso maravilhoso, sinto um baita orgulho de todo mundo estar falando sobre isso.

Mas, me pergunto, e os meninos? Quando vamos começar a falar sobre como criar meninos que tenham um bom caráter, respeitem as minas, sejam gentis, honestos, que queiram igualdade e um mundo melhor para todos? Queridas mães, pais, amigos, amigas e todo mundo que está comigo neste caminho: precisamos falar mais sobre isso.

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Eu sempre soube que seria mãe de menina. Quando eu tinha 15 anos, e aprontava todas com a minha mãe, ela me disse uma frase daquelas que ecoam pro resto da vida: "quando você crescer e tiver seus filhos, você vai ter uma filha e ela vai fazer o dobro de tudo o que você faz comigo". Então eu tive gêmeas, né? Olá, universo. E aí me lembrei dessa frase e ela não me pareceu nem um pouco trágica.

Quando decidi engravidar de novo, jurava que teria outra menina, enquanto todo o resto do mundo apostava em um menino. E era. Lá estava o Francisco, o homem que eu mais vou amar na vida.

Como bebê, ele foi o easy going total. Mamava, dormia, brincava, era feliz que só. Depois veio um, dois e agora estamos nos três anos. Ele sempre foi um menino livre. Como um bom terceirinho, se aventurava mais, comia areia sem ter uma mãe desesperada pra tirar tudo da boca, corria sem medo ao lado das irmãs como se tivesse a mesma idade.

Ele foi crescendo e veio uma energia junto, claro. Às vezes saía correndo para me dar um abraço e quase me derrubava no chão. E o que eu mais escutava era "menino é assim mesmo, né? É bruto, tem mais força".

E a partir daí começaram uma série de frases bem parecidas com essas que têm me atormentado nos últimos meses. "Menino gosta de brincar é de lutinha mesmo, não tem jeito". "Menino bate mesmo, faz parte da natureza dele". "Que choro é esse? Menino não pode ter medo não!". E não me venham nem falar que agressividade faz parte do sexo masculino, por favor, ainda que já tenha escutado essa frase.

Tudo isso ficou latejando na minha cabeça. Não é possível que seja assim. Não podemos cruzar os braços e achar que meninos são assim e pronto. Estamos ou não em 2017? Não estamos todos falando de feminismo, de ser contra o machismo? E aqui estamos repetindo padrões, reafirmando frases que sequer fazem sentido.

Não vou mentir que fiquei frustada e até com raiva. Então era assim que eu tinha que criar o Francisco? Deixando que essa tal força florescesse? Permitindo que ele brincasse de luta e machucasse os outros? Estamos falando para as crianças que não existe brinquedo de menino e de menina, mas continuamos a colocar-los em caixinhas separadas o tempo todo?

Depois que eu percebi todo esse cenário, comecei a ver que perpetuamos o machismo sem perceber. Ele está lá quando dizemos "mas eu vou fazer o quê? Deixar baterem no meu filho? Ele tem que bater a aprender a se defender".

Que tal ensinarmos os meninos a resolver as coisas com diálogo? É claro que não vivemos em um bolha e eles vão enfrentar essa situação um dia, mas a resposta é tratar violência com violência? Prefiro acreditar que não. Quero e preciso ensinar ao meu filho o que é respeitar o outro. Que ele saiba que é hora de sair e deixar quem quer que seja seguir seu caminho quando ele não conseguir resolver algo com conversa.

Se não conseguimos mudar o mundo, comecemos primeiro mudando o nosso mundo através dos nossos filhos. É uma batalha árdua. Todos os dias tento explicar para o Francisco que ele precisa ser um cara legal, que bater não é brincadeira e que existem outras formas de brincar. Tento entender que essa energia dele pode usada para em subir em árvores, inventar histórias com as irmãs, construir algo com as mãos, correr pra cima e pra baixo do morro até cansar. Que existem outras fantasias além daquelas em que os super-heróis resolvem tudo no braço. Não tenho ideia se estou no caminho certo, mas estou aprendendo com meu filho a quebrar velhos conceitos, a ir além, a ver mais amor.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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