OPINIÃO

Os amigos sem filhos

A educação dos filhos é papel dos pais -- tarefa já bem difícil para eles.

08/01/2018 19:34 -02 | Atualizado 08/01/2018 19:34 -02
Imgorthand via Getty Images
Quando estiver passeando com crianças, tente apenas brincar, se divertir e deixar memórias de grandes aventuras.

Outro dia, resolvi passear no shopping e estava aproveitando uma meia hora de liberdade, enquanto as crianças ficavam no brinquedo de bolinhas com o pai, para ver as promoções e passar um tempo tranquila.

Eu estava na minha loja favorita de olho em uma calça pela metade do preço, que eu sabia que não iria comprar. Comecei a escutar uns gritos vindos de um cara de short caqui, camisa polo, sapato mocassim e uma mochilinha de joaninha no braço que insistia em escapar do ombro. "Júlia, Júlia, Juuuuulia, Júlia, aí não, volta aqui". E ele gritava aquele nome sem parar.

Júlia não tinha descanso. Era o tempo todo "Júlia, Júlia, Júlia, Juuuulia". Era alto, mas Júlia, no auge dos seus quase dois anos, não escutava, é claro. Só o resto todo da loja que estava incomodado com aqueles gritos.

Não demorou muito para eu descobrir o óbvio. Ele não era o pai, e sim o tio, como ele mesmo se autodenominou. E estava na loja com a mulher, que era chamada por ele de "dinda". O tio da Júlia não parava e me fez pensar em quem estava mais agitado: ele, um homem de quase 30 anos, ou ela, que passeava com pessoas diferentes naquele domingo, talvez para descanso dos pais.

Além disso, o tio estava disposto a ensinar coisas para Júlia, em especial, diferenciar o belo do imperfeito. "Júlia, não se joga no chão que é isso é muito feio." "Não, Júlia, feio, isso é feio." "Olha, Júlia, esse sapato que a dinda tá pegando, feio, né?".

Eu não queria pensar na Júlia e no tio dela, queria continuar olhando pra roupas que eu não ia comprar. Mas era impossível. Ele gritava, e aí me peguei pensando o que os pais da Júlia achariam daquilo tudo. "Isso é feio." Sério que você vai nesse método, amigo?

Me peguei pensando nessa necessidade de alguns amigos que não têm filhos e tendem a querer educar o filho do outro. Como se eles soubessem de tudo. Como se aquelas horinhas no shopping fossem ensinar uma lição de vida valiosa para Júlia.

Por que não apenas brincar, se divertir, deixar memórias de grandes aventuras pra aquela criança? Me deu vontade de chegar perto dele e dizer: "Amigo, não queira criar ou educar. Esse papel é dos pais e é bem difícil para eles, viu?".

Mas o pior ainda estava por vir. Depois de um tempo, o tom dele mudou. O "Júlia, Júlia, Júlia" se tornou mais suave, porém mais firme e dessa vez a dinda também chamava pelo nome dela. Sim, o impensável aconteceu. Júlia tinha sumido em uma fração de segundos, como qualquer criança de dois anos tem a habilidade de fazer.

Todo mundo da loja parou e procurou por ela e, por sorte, acharam atrás de alguma arara de roupa bem perto da entrada. A dinda, preocupadíssima, abraçava a menina. O tio, aliviado, ajeitava a mochilinha nas costas e dizia "calma, ela tá aqui viva, não morreu não, relaxa".

Em poucos minutos, tudo voltou ao normal. "Júlia, Júlia, Júlia". "Volta aqui, não vai fugir de novo não, olha que isso é feio", enquanto a dinda entrou no provador para experimentar as roupas que tinha escolhido.

Depois de um tempo, vi-o sentar suspirando de cansaço em um banco em frente ao provador enquanto Júlia corria em volta do espelho. Sorri com o canto da boca com vontade de falar "é, amigo, ter filhos não é fácil não, tem certeza que vai encarar?". Mas acho que, no fundo, ele se fazia a mesma pergunta.

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