OPINIÃO

Dia da Mulher pra quem?

Até onde a mulher que todo dia acorda, cuida da casa, educa os filhos, trabalha, e ainda tenta tirar um tempo pra ela mesma, percebe o quanto falar sobre o feminismo é importante?

08/03/2017 10:53 -03 | Atualizado 08/03/2017 21:53 -03
Getty Images/iStockphoto
Colunista questiona como o feminismo pode ser disseminado.

Passei o dia pensando em um texto para escrever sobre o Dia Internacional da Mulher, fiquei pensando no que poderia dizer que já não foi dito ou já teria sido postado na minha linha do tempo do Facebook num dia tão especial como hoje e que merece sim ser comentado, publicado, discutido, protestado.

Pensei em escrever sobre como tento criar minhas filhas cheias de encorajamento e amor pra que elas acreditem na força delas, pra que elas saibam que mulheres são capazes de tudo, que elas podem fazer o que quiserem e que elas têm escolhas.

Falar sobre igualdade, sobre como aqui em casa não existe coisa de menino ou de menina, em como devemos criar nossos meninos também dentro de uma esfera de respeito pela mulher. Mas tudo pareceu meio óbvio. Tudo parecia já ter sido dito. Mas enquanto eu pensava, uma cena que aconteceu comigo há uns dois dias ficava voltando na minha cabeça. Assim como outras que eu vivi nos últimos meses, então decidi escrever sobre ela. Porque não, não é tão obvio quanto a gente acredita que seja.

Estava numa livraria dessas grandes de shopping comprando envelopes e, enquanto uma vendedora fazia a nota, outras três funcionárias conversavam no balcão, uma delas dizia "essa coisa de feminismo me revolta, viu? A pessoa tá lutando só pra eu poder pegar quem eu quiser e ninguém falar mal de mim? Eu não suporto estas mulheres, sinceramente. Dia da mulher pra quê?".

Eu respirei fundo nesse momento e vi que as duas outras mulheres não pareciam ligar pra aquele comentário. Eu já ia dizer alguma coisa, já ia falar "querida, espera um pouco, vamos conversar aqui" quando um outro funcionário chamou uma delas pra arrumar uma prateleira e cada uma foi pro seu canto.

Eu saí de lá transtornada pensando que talvez as pessoas não saibam tanto sobre essa luta das mulheres, que em pleno 2017 com tanto texto maravilhoso sendo compartilhado no Facebook ainda não chegamos nem na metade. Não importa quantas frases de Maya Angelou, Simone de Bevouir ou Frida Khalo você compartilhe, é bem provável que a mensagem não chegue para quem precisa, mas pra quem já sabe que ela existe.

Divulgação/Glau Macedo
Divulgação/Glau Macedo

Sim, é ótimo que hoje esteja todo mundo falando sobre isso, que você receba mensagens ou artes bonitas com frases encorajadoras nos seus grupos de WhatsApp, que estranhos te parem na rua e digam "feliz Dia das Mulheres", que a academia esteja toda enfeitada de rosa e que uma rosa vermelha venha parar nas suas mãos naquela ida despretensiosa ao mercado.

Mas até onde a mensagem chega?

Até onde a mulher que todo dia acorda, cuida da casa, educa os filhos, trabalha, e ainda tenta tirar um tempo pra ela mesma, percebe o quanto falar sobre o feminismo é importante? Que não é sobre mostrar os peitos, pegar quem quiser ou falar o que quer. Como a gente muda isso? Como a gente vai além? Pra quem é o Dia das Mulheres então?

Foi então que eu percebi que a gente pode fazer o que nós mulheres sabemos fazer de melhor: a gente pode semear, criar, ajudar a crescer.

Olhei pra Maria e Isabella depois do café da manhã e falei: "vocês sabiam que hoje é o Dia da Mulher?".

"Dia da mulher? Dia de nós, meninas também?", elas me olharam confusas.

E então comecei a explicar pra elas o que significava esse dia, que antes das mulheres não tinham escolha, que não eram tratadas como os homens.

E elas foram ficando empolgadas, a Bella chegou a dar pulinhos no ar falando: "sim, mulheres podem fazer o que quiserem".

Aquela reação me deu uma esperança de elas entenderam a mensagem e que continuem a buscar explicações, assim como eu e todas nós deveríamos fazer diariamente.

Entender que é uma luta, que ela resiste não só quando quando a gente conta história pros nossos filhos de mulheres importantes na História, mas também quando a gente diz que eles podem ser o que quiserem, que somos pessoas e somos iguais.

E que Francisco, Maria e Isabella saibam disso sempre.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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