OPINIÃO

'Meus Dias de Weeds': Como funcionam os Clubs Cannábicos uruguaios

18/01/2017 17:45 -02
Montagem/Tanira Lebedeff

Foi como se eu estivesse num cenário de Weeds, a série da TV americana em que a viúva Nancy Botwin (personagem de Mary-Louise Parker) vende maconha para sustentar a família. Passei, como diriam os uruguayos, um "par de tardes" num Club Cannábico numa cidade de fronteira entre o Brasil e o Uruguai.

Enquanto progressistas nos Estados Unidos tentam enxergar um copo meio-cheio no resultado das eleições presidenciais com a aprovação da liberação do consumo de maconha recreativa ou medicinal em 7 estados, o Uruguai completa 3 anos de um experimento pioneiro na América do Sul.

A lei 19.172, de dezembro de 2013, delega ao Estado o controle e a regulação da importação, produção, aquisição, armazenamento, comercialização e distribuição da maconha e seus derivados.

A regulação defendida pelo presidente da época, José Mujica, tem como principal objetivo combater o narcotráfico, no entanto, segue na esteira de medidas revolucionárias que pincelam a História do país. Foi no Uruguai que as mulheres latino-americanas votaram pela primeira vez, em 1927. Em 2007 o país aprovou o casamento homossexual. Em 2012 descriminalizou o aborto.

Segundo a lei 19.172, o cidadão uruguaio maior de 18 anos pode obter a cannabis de três maneiras: sendo um cultivador autônomo, como sócio de um clube de cultivadores (os clubs de membresía) ou comprando na farmácia como consumidor cadastrado. A terceira é a etapa mais morosa. Farmácias ainda estudam como será o transporte e o armazenamento seguro da erva, e o cadastro dos consumidores ainda não foi liberado pelo governo.

Para cultivar em casa ou por meio do clube é necessário se cadastrar no programa, e isso é feito em agências dos correios. Para o cultivador autônomo basta apresentar identidade e comprovante de residência.

As exigências para os clubs de membresía são maiores; é preciso, por exemplo, formar uma sociedade civil, apresentar planos de cultivo e de distribuição da cannabis entre os associados, e garantir todo um esquema de segurança para as plantas. Segundo o IRCCA, Instituto de Regulação e Controle da Cannabis criado pela lei 19.172, há 5.864 cultivadores autônomos e 33 clubes cadastrados no Uruguai (dados de dezembro/2016).

Cogollos y manicuradas

O clube que visitei funciona num sobrado de dois andares no centro de Rivera, cidade que faz fronteira com Santana do Livramento, no oeste do Rio Grande do Sul.

Essa é a "Fronteira da Paz", totalmente aberta, onde moradores e turistas circulam livremente.

Aqui são comuns os doble-chapa, gente que tem cidadania uruguaia e brasileira (o nome faz alusão a uma época em que carros circulavam com as placas dos dois países). É também é comum tirar fotografia com um pé em cada lado da linha divisória que é apenas imaginária, sinalizada por marcos ao longo da fronteira.

Camilo é o encarregado pelo cultivo Club Cannábico de Rivera (o único da cidade). É um trabalho "quase voluntário", como ele diz. Cabe a ele podar e armazenar as plantas para garantir que cada associado tenha sua "ração" - 10 gramas de cannabis por semana, não mais que 40 gramas por mês.

São 15 associados, entre eles duas mulheres. A joia para entrar nesse clube custa 300 dólares. A mensalidade equivale a 240 reais. A ideia é selecionar bem os associados, atrair somente quem esteja interessado na erva para consumo próprio e assim evitar a venda - que é ilegal.

Numa peça do tamanho de um quarto ficam os vasos com a cannabis cultivada indoors. Camilo conta que o IRCCA é rigoroso na fiscalização e que tem controle do número de plantas armazenadas no clube - 99 no máximo. Todas as peças da casa têm sensores e câmeras de segurança, que Camilo monitora pelo celular.

Como um jardineiro cuidadoso, Camilo passou horas de uma tarde úmida e quente da fronteira podando as plantas, que já chegavam a um metro de altura. As folhas maiores, aquelas que são símbolo da cannabis, são descartadas.

Para chegar ao cogollo ou camarão, o filé da cannabis e o que realmente interessa para o consumo recreativo pela concentração de THC, a poda é mais detalhada. As folhas menores próximas ao cogollo são ricas em óleo. Essas são as chamadas "manicuradas", que podem ser consumidas para fins medicinais como chá, ou utilizadas para fazer tintura e óleo. É o mate, o chimarrão uruguaio, com "manicuradas", que alivia a dor de cabeça crônica que acompanha Camilo desde a infância.

Depois de limpos os galhos com cogollos são armazenados numa pequena peça climatizada para secagem. Cinco dias depois eles já poderão ser distribuídos aos sócios (que podem optar entre consumir em seguida ou deixá-los maturando por mais tempo para um sabor mais apurado).

A naturalidade com que conversamos sobre maconha naquele ambiente é surpreendente. Aprendi tanto que poderia iniciar minha própria produção, acho. Aprendi que apenas as plantas fêmeas dão cogollos e que a cannabis indica e a sativa têm efeitos distintos - uma acalma, a outra agita.

Aprendi que nosso organismo tem n receptores canabinóides, por isso a planta pode ser consumida de diversas formas, dependendo do que se quer dela.

Para uma amiga insone, Camilo recomendou tintura no chá antes de dormir. Outra que sofre de fibromialgia passou a tomar mate com as manicuradas.

Os rapazes no comando do Club Cannábico de Rivera também administram uma growshop, loja que vende artigos para consumo e dá assistência para cultivadores autônomos. O movimento de uruguaios é bem intenso: desde adultos desavisados querendo comprar baseado a jovens em busca de sementes ou seda.

Pergunto a Emiliano, um desses jovens, se ele conta que cultiva maconha em casa. "Não dá, pois tenho medo que roubem minhas plantas", ele explica.

A loja também atrai turistas tentando levar a cannabis do Mujica para o Brasil. Nos sábados, dia de maior movimento nas lojas do free shop de Rivera, cinco em cada dez pessoas que entram na loja são brasileiros querendo comprar maconha, calcula Camilo. Ao menos duas vezes por mês aparece alguém pedindo para "fazer uma mão", ou comprar o cogollo ilegalmente.

Impacto nas cidades de fronteira

A possibilidade da maconha que é produzida legalmente no Uruguai entrar clandestinamente no Brasil foi o objeto de uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) entre março e julho do ano passado.

Foram entrevistados agentes de segurança e de justiça das cidades brasileiras de Santana do Livramento, Quaraí, Jaguarão, Chuí e Santa Vitória do Palmar - todas na fronteira com o Uruguai.

Os resultados foram apresentados num seminário em Livramento e mostram que por enquanto não há grandes alterações perceptíveis na dinâmica do consumo de drogas ou nas condições de segurança da fronteira. Entre os possíveis efeitos visíveis da nova política uruguaia não aparece ainda nem o que seria o esperado resultado positivo - a redução do tráfico. Também não há indícios ou previsão de que a droga produzida no Uruguai chegue ao Brasil.

Em parceria com o Ipea, pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas monitoraram os efeitos no aspecto comportamental de moradores das zonas de fronteira. Os brasileiros entrevistados demonstram estar cientes da dificuldade de conseguir a maconha uruguaia e só a consomem quando convidados por amigos do país vizinho. O maior impacto da nova política apontado pelos entrevistados é o aumento do consumo de maconha em ambientes públicos - o que não é liberado pela lei 19.172.

Essa é uma grande preocupação de quem vive no lado uruguaio da Fronteira da Paz.

Enquanto brincava com a filha num balanço da Plaza Artigas, bem no centro da cidade, Diego de los Santos comentou que já se acostumou com os fumantes de maconha e que apenas trata de se afastar deles.

Dono de uma banca de jornais na mesma praça, Alejandro Gonzales acha que já não é uma questão de ser a favor ou contra a regulação da cannabis. "O problema é que pensam que podem fumar em lugares públicos. Mas sou a favor de despenalizar o consumo e que o Estado seja responsável pela venda. Isso tira o negócio dos traficantes. A equação é muito simples", argumenta.

Para Ana Recoba, é preciso que as pessoas se eduquem mais sobre o assunto: "Tem muito programa na TV sobre isso. Entre todas as drogas essa é a menos nociva e convivemos com isso todo o dia. Se liberam ou não dá na mesma".

Educação também é uma das bandeiras do Camilo. Enquanto ele poda um vultuoso pé de cannabis, pergunto se já se pode se falar abertamente sobre o tema no Uruguai. "Devemos falar abertamente", responde com firmeza. "Há muitos leigos no assunto, e não apenas entre quem fuma. É preciso descobrir a cannabis como opção para tratamento médico. O desconhecimento ainda é grande e geral."

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