OPINIÃO

6 rótulos provam que o Brasil é bom de espumante

12/01/2016 13:36 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
PhotoAlto/Isabelle Rozenbaum via Getty Images
Droplets of condensation on glass of chilled white wine

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O Brasil faz ótimos espumantes há anos. Não são os melhores do mundo, como apregoam alguns ufanistas, mas são muito bons. Quando falamos de espumante brasileiro, no entanto, costumamos falar de rótulos da região de Bento Gonçalves, Pinto Bandeira, Garibaldi, da Serra Gaúcha. Será que só por lá se fazem bons espuantes? Será que a qualidade dos espumantes brasileiros está associada ao terroir da Serra Gaúcha? Não seria resultado do domínio das técnicas de produção que nossos enólogos adquiriram nos últimos anos? Difícil dizer. Tudo em Bento e arredores parece ajudar na ótima acidez das uvas (o que é fundamental para um bom espumante). O clima é úmido, a uva custa a amadurecer, o solo é ácido...

No entanto, o fato de a Chandon, uma das mais conceituadas produtoras de champanhe, ter se instalado no Rio Grande do Sul nos anos 70 também tem um peso enorme nessa qualidade. Houve transferência e geração de tecnologia. Tanto que hoje se produz espumantes razoáveis em várias partes do país, como o Nordeste e Santa Catarina. E, no próprio Rio Grande do Sul, agora estão surgindo grandes rótulos em regiões não tão chuvosas quanto Bento, como a Campanha Gaúcha, Campos de Cima da Serra e a Serra do Sudeste. Neste verão provei alguns deles (veja a seguir). O mais interessante é que são bem diferentes dos da Serra Gaúcha.

A diferença, eu diria, menos do que ao fator climático, se deve ao fator humano do terroir. A região de Bento Gonçalves é uma colônia italiana, habitada por gringos, como se auto-denominam os descendentes dos imigrantes italianos, pequenos proprietários de terras, loiros de olhos azuis que até hoje falam dialeto trentino e comem comidas típicas, como a polenta e as massas. De gaúchos, têm muito pouco. São parecidos com os camponeses da Europa e seus melhores e mais autênticos vinhos também lembram os do velho mundo.

Mapas regiões vinícolas e clonização

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Nada disso vale para três regiões que estão despontando no momento: a Campanha Gaúcha, a Serra do Sudeste e a região de Campos de Cima da Serra. Por lá, as tradições gaúchas são fortes. As fazendas são grandes. Come-se churrasco. Ainda se vê fazendeiros e peões de bombacha, chapelão, sobre cavalos. Os vinhos, como o povo, tem personalidade bastante forte.

1. Campanha gaúcha, terra dos brutos

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Vários espumantes que bebi tinham menos açúcar do que o comum, eram mais brutos, como diriam os portugueses. Gosto bastante dos tintos da Routhier & Darricarrèr, mas não tinha tomado seus espumantes. Por não serem da Serra Gaúcha, eu não estava apostando neles. Feito na campanha Gaúcha, pelo método tradicional, com 100% de uvas chardonnay, o Província de São Pedro Extra-Brut foi uma boa supresa. Bastante fresco e frutado no nariz, tem boa estrutura na boca.

2. Onde os bravos vencem

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Com vinhas na Candiota, onde em 1836 os revolucionários de Farroupilha venceram as tropas do imperador durante a Batalha do Seival, a Vinícola Batalha tem feito vinhos bastante interessantes. Este espumante nature, 100% chardonnay, é totalmente seco, como são os nature. Com 18 meses sur lies, seu nariz tem complexidade: frutas-secas, brioches, figo, mas conserva algo do abacaxi fresco da chardonnay. Na boca é bastante encorpado. Pede pratos de certo peso, como um bobó, por exemplo, ou um churrasco de cordeiro.

3. Peculiar em tudo

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Também da Routhier & Darricarrere, o espumante Salamaca do Jarau é peculiar em tudo. É um espumante de cabernet sauvignon. Coisa meio rara. Não é feito nem pelo método charmat nem pelo tradicional. É produzido pelo método ancestral. Ou seja, uma única fermentação, de leveduras indígenas, que começa fora e termina dentro da garrafa. É um rosé quase laranja. Muito bom, equilibrado. Bastante original nos aromas e textura.

4. Ousadia de sucesso

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Fazer espumante de Gewurztraminer é mais que ousadia. É rebeldia. Na Alsácia, onde essa uva se dá super bem, é proibido usá-la para esse fim. Já que a uva seria aromática demais. Concordo. Em geral, a gerwurz me embrulha o estômago de tão perfumada. No Guatambu Natural Rosé, no entanto, ela aparece bastante equilibrada e elegante. Aí tem a mão do enólogo uruguaio Alejandro Cardozo.

5. Campos de Cima da Serra: seco como a comida dos tropeiros

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Conheço a maior parte das regiões vinícolas do Brasil. Mas nunca estive em Campos de Cima da Serra, perto de Vacaria. Outro dia, no lançamento do livro da Borgonha encontrei o produtor dos vinhos Sozo e ele me deu este Sozo Imagination para provar. Um vinho de altitude, nature (sem qualquer adição de açúcar), de longo contato com as lias, tem complexidade de aromas, uma ótima espuma e nada de amargor. Muito bom. Custa R$ 45, nas lojas da região.

6. Serra do Sudeste: crueza que conquista

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Localizada na Serra do Sudeste, no meio do caminho entre Bento Gonçalves e a Campanha a vinícola Hermann tem produzido bons espumantes de preço bastante razoáveis. Tomo sempre o Bossa Brut. A linha Lírica é mais elaborada. Lançamento do segundo semestre, o Lírica Crua é original em tudo a começar do corte: Chardonnay, Gouveio (godello ou verdelho) e Pinot Noir. Vendido com tampinha de cerveja e com todas as suas lias, sem nenhuma filtragem, chega a ser didático. Suas borras não filtradas explicitam os aromas de panificação, tão comuns aos espumantes, mas não tão simples a ponto de serem percebidos por um nariz destreinado. Adoro. É um dos poucos dessa turma que pode ser encontrado com facilidade em várias praças do Brasil, pois é distribuído pela importadora Decanter, do mesmo grupo da vinícola. Está em oferta por R$ 64.

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