OPINIÃO

Uma carta aberta para qualquer mulher recentemente diagnosticada com câncer de mama

‘Você tem câncer de mama’, são as únicas palavras que escuta no consultório. O resto é um borrão.

10/04/2017 17:43 -03 | Atualizado 10/04/2017 18:00 -03
Você precisará descansar depois da cirurgia, mas vai se recuperar.

Somos 1 em cada 8 que ouvimos, em algum momento de nossas vidas, que temos câncer de mama. Como você, cruzamos esse limiar invisível para um lugar que nenhuma pessoa comum pode seguir. Isso é o que queremos que qualquer pessoa seguindo nossos passos escute:

'Você tem câncer de mama', são as únicas palavras que escuta no consultório. O resto é um borrão. Você está em estado de choque e, nessas primeiras semanas, apenas irá querer que alguém sente ao seu lado e te dê espaço — para escutar, para ter medo e esperança ao mesmo tempo.

Ouvirá trivialidades vazias de pessoas que se preocupam com você e que oferecerão as mesmas frases sem graça: 'você vai ficar bem'; 'você é forte'; 'olha a situação da fulana e da sicrana, estão bem agora'.

É uma verdade universalmente reconhecida que o estado de 'não saber' (é agressivo? se espalhou?), seguido de perto pela angústia de 'esperar' (pelos resultados) causa uma grande confusão. Quando você tiver o plano de tratamento, irá se fortalecer e, embora com medo, conhecer os fatos sobre a quimioterapia e a radioterapia ajudará você a se sentir mais preparada e no controle. Esses tratamentos são difíceis, mas, dentro de cada uma de nós, estão a coragem e a força para suportá-los.

Não compare os tipos de câncer de mama. Existem vários tipos que crescem em diferentes partes do seio e em ritmos diversos. Algumas mulheres se submetem à mastectomia, e outras à lumpectomia. Nem todo mundo vai precisar de quimioterapia, mas, nós que fizemos, gostaríamos de ter sabido o que poderíamos ter feito para aliviar os efeitos colaterais, ao mesmo tempo lembrando que todo mundo é diferente e algumas pessoas sofrem diferentes, ou mais, efeitos colaterais do que outras. (Da mesma forma, não se compare desfavoravelmente com aquela conhecida que trabalhou e que correu uma maratona durante a quimioterapia e tal.)

Você precisará descansar depois da cirurgia, mas vai se recuperar. A radioterapia, que nem todo mundo precisa, às vezes leva a uma fadiga que dura muitos meses. Algumas, nem todas as mulheres, passam por tratamentos hormonais. Não sabíamos sobre as muitas mudanças físicas pelas quais passaríamos, ou que poderiam existir efeitos colaterais de longo prazo, como o linfodema, e algumas mulheres, mas nem todas, têm dificuldade em se ajustar.

Muitas pessoas dirão que você é 'forte' e 'corajosa', que 'deve reagir e dar um pontapé na bunda do câncer'. Mas, por trás de toda essa conversa de batalha, você pode estar simplesmente assustada. Queremos que saiba que não nos sentíamos corajosas. Sentíamos que nunca havia outra possibilidade a não ser seguir em frente.

Nunca diremos que você tem sorte. Seu câncer pode ter sido descoberto cedo, pode ser tratável, mas ter câncer nunca te faz sortuda. Não existe isso de câncer 'bom'.

Este é um momento no qual seus amigos e familiares se unirão ao seu redor, e você descobrirá que amor é um verbo — você precisa de amigos que apareçam com uma panela, levem seus filhos ao parque para que você possa descansar ou deem caronas ao hospital e se sentem ao seu lado na sala de espera. Alguns de seus amigos podem abandoná-la completamente — talvez tenham um membro da família que teve câncer ou têm medo da palavra 'câncer'. Também encontrará gentileza nos lugares mais inesperados, frequentemente de estranhos.

Inicialmente, se sentirá sufocada com as ofertas de apoio, mas, no prazo de um ano, precisará se lembrar de pedir ajuda. Isso é 'fadiga da simpatia'. Vamos então lembrar de tocar a campainha quando você estiver em seu momento mais para baixo, mesmo quando você disse que queria estar sozinha. Não vamos tentar consertar tudo. Vamos abraçá-la e dizer: 'Isto realmente é uma merda'.

Muitas vezes se sentirá satisfeita quando aparentar estar bem melhor do que se sente, porque não vai querer ser definida por essa doença, mas também pode significar que as pessoas à sua volta pensarão que você está bem, superestimando suas capacidades quando na realidade você se sente exausta e indisposta.

Não vamos dar conselho sobre como lidar com o câncer, porque aprendemos que não há forma 'certa ou 'errada' de lidar com a doença. Gostaríamos que alguém tivesse falado: 'Seja gentil consigo mesma', 'seja sua melhor amiga'. Porque tivemos dificuldade em desacelerar e precisávamos nos lembrar que não há problema em descansar, em nos colocarmos em primeiro lugar, de vez em quando.

Sabemos que você não quer conselhos sobre o que comer e beber ou como viver sua vida mais saudavelmente (com a implicação de que você, de alguma forma, causou isso). Você já se sente péssima e não precisa ficar se perguntando 'o que fiz para causar meu câncer', quando está acordada às 4h da manhã.

Agora você mal consegue imaginar 'o futuro', que parece tão nebuloso e incerto, mas chegará o dia em que finalizará seu tratamento 'ativo'. Embora seja um momento para comemoração, também é um momento em que se sentirá perdida e para baixo. Se puder, tire um período de convalescença para se recuperar.

Queremos que você termine seu tratamento com esperança e otimismo. A maioria de nós tem a sorte de passar o primeiro ano com os exames sem indícios de câncer. Então, você começará a esperar as marcos dos cinco e dez anos. Não terá conhecimento ainda sobre o câncer secundário, mas, em algum momento, descobrirá a coragem de olhar para os becos mais escuros de sua mente e enfrentar o medo que a assombra.

Vamos ser claras — este diagnóstico vai mudar você fundamentalmente. Não estamos exagerando quando dizemos que você pode estar traumatizada por suas experiências. Mas suas perdas serão amenizadas por uma profunda gratidão pelo maravilhoso milagre que é sua vida. Descobrirá alegria em lugares e pessoas que anteriormente negligenciava. Encontrará força e resiliência. Isto é crescimento pós-traumático.

Você pode não querer falar ainda, mas, quando estiver pronta, há muitas redes de apoio disponíveis em organizações como Breast Cancer Care, Macmillan, Maggie's e grupos on-line. Você nunca está sozinha.

Gostaríamos de agradecer a Anita Traynor por sua vital colaboração e às mulheres do Centro para Construção da Resiliência Psicológica em Câncer de Mama, no Reino Unido.

Este texto foi originalmente publicado pelo HuffPost UK e traduzido do inglês.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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