OPINIÃO

Como o crowdfunding pode ajudar a contornar os juros e a burocracia dos bancos

25/06/2015 15:12 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02
Rocío Lara/Flickr

O crowdfunding (ou financiamento coletivo) tem se tornado um grande aliado de empresários de todos os setores para resolver o problema do aporte inicial e também para viabilizar produtos ou projetos inovadores que a empresa queira lançar no mercado. Muitas empresas optam por esta nova forma de financiamento após tomar conhecimento da burocracia em solicitar investimento financeiro ou até do mesmo ser negado por investidores anjo. Soma-se a isso as altas taxas de juros aplicadas no Brasil e a grande burocracia exigida pelos bancos para liberar financiamento para projetos em fase inicial.

Para as empresários iniciantes e que não possuem exímio conhecimento em plano de negócios, análise de riscos e marketing, outra vantagem das plataformas de financiamento coletivo é que dispensam a necessidade destes documentos. Ao criar sua campanha de arrecadação em plataformas de financiamento coletivo como a Kickante, o empresário precisa somente explicar sobre o seu projeto, dizer porque merece receber cada contribuição e o que fará com o dinheiro arrecadado. É quase um mini plano de negócios, algo bem mais resumido do que o habitual mas, neste caso, você convencerá seus futuros clientes (contribuidores) e não um banco ou um investidor.

Através da campanha de crowdfunding, é possível saber se um determinado serviço ou produto fará sucesso entre os consumidores. Muitas empresas, inclusive, já utilizam o financiamento coletivo para analisar itens como:

• comportamento do consumidor: quantos acessos, compartilhamentos, em qual canal minha campanha obteve melhor desempenho?

• preferências: variações de produtos e quais obtêm melhor aceitação.

• e também logística: quantos itens posso produzir sem haver desperdício?

Em apenas 1 ou 2 meses, enquanto sua campanha arrecada, já é possível avaliar os itens acima e chegar à conclusão se você deve ou não seguir em frente com o seu projeto, se deve fazer alterações ou simplesmente desistir da ideia.

As plataformas de crowdfunding também ajudam os empresários a compreender realmente o seu negócio para que eles possam apresentá-lo da melhor forma (sendo ainda mais convincentes e firmes) para capitalistas de risco, investidores anjo ou outro tipo de investidor.

Crowdfunding para Produtos Inovadores

Quando falamos de produtos inovadores é que as campanhas de crowdfunding, geralmente, obtêm mais sucesso. Quem contribui com as campanhas, prefere colaborar com algo que não se encontre em lojas ou pela internet e que tenha algum fator de exclusividade.

Até a Sony está utilizando crowdfunding para alguns de seus produtos. A multinacional já criou três campanhas e, com isso, espera obter o feedback dos usuários em relação aos produtos e validar se é viável ou não produzi-lo em larga escala. Ela espera validar a aceitação e avançar com ideias de produtos que não são tão convencionais, diferente dos outros diversos produtos que ela possui. Desta forma, só lançará aqueles produtos que tiverem uma boa aceitação e popularidade. Diminuindo os custos com produção e logística para estes "testes".

"Captação de fundos não é o ponto aqui", disse um porta-voz da Sony. "Crowdfunding nos ajuda a recolher o feedback dos early adopters antes dos produtos irem para o mercado (early adopters são usuários que gostam de testar novidades assim que são lançadas, pode ser uma rede social ou produto de tecnologia, por exemplo)."

No Brasil, um dos criadores da campanha "1º box de beleza, com produtos cruelty free!" - empresa que produz kits de produtos cosméticos voltados para veganos -, Andrew Pedro, contou que eles não tinham como financiar o projeto se não recorressem à uma plataforma de crowdfunding. Segundo ele, a ideia não chamou a atenção de investidores do setor, mas fez sucesso entre o público alvo. Para o empresário, o modelo é uma forma não só de levantar a ideia, mas também de testar se a ideia faz realmente sentido. E, com o sucesso de arrecadação de R$ 18 mil, eles resolveram usar a campanha de crowdfunding como vitrine para buscar investidores maiores e continuar o processo de produção (e já foram contatados por alguns investidores!).

Investidores estão atentos e aplicando em campanhas de crowdfunding

Lentamente, os investidores estão reconhecendo que crowdfunding pode ser uma ótima opção para avaliar se um produto ou serviço será aceito ou não pelo mercado e, enfim, investir ainda mais na empresa. Afinal, uma campanha de crowdfunding bem sucedida mostra que o mercado quer o seu produto! Por isso o entusiasmo dos investidores em buscar estas campanhas e colocar capital em algo que já foi previamente aceito pelo público e, provavelmente, será um sucesso quando lançado em larga escala.

10% das campanhas de financiamento coletivo que captaram acima de 100 mil dólares receberam investimento de venture capital. No Brasil também já há diversos casos de empresas que só conseguiram grandes investidores após obterem sucesso em crowdfunding. Muitos investidores estão de olho nas plataformas de crowdfunding para verificar quais empresas ou produtos estão fazendo sucesso e merecem um investimento maior.

Foi o que aconteceu com a campanha do Oculus VR, uma empresa de óculos virtual que iniciou suas atividades em 2012, na garagem de um dos sócios, viu no crowdfunding a possibilidade de finalmente lançar seu produto no mercado. A empresa foi capaz de levantar US$ 2,4 milhão via crowdfunding - praticamente 10x o valor da sua meta inicial que era de $ 250 mil. Com este grande sucesso, foi possível entrar em contato com investidores para uma nova rodada de investimentos e arrecadaram US$ 75 milhões. E mais, em 2014, de olho no mercado, o Facebook adquiriu a empresa por US$ 2 bilhões e planeja expandir a área de atuação da Oculus VR e levá-lo para outras áreas de comunicação, mídia, entretenimento e educação - além da ideia inicial da empresa que era focar somente em games.

"Eu acredito que a democratização da captação de recursos através de crowdfunding é um avanço incrível para os empresários e entidades sem fins lucrativos, disse Wayne Kimmel, sócio-gerente da SeventySix Capital, que já investiu em projetos inseridos em plataformas de financiamento coletivo.