OPINIÃO

Por que não me senti empoderada por 'Mulher Maravilha'

Se as mulheres no filme se enxergam através de uma ótica masculina, podemos mesmo dizer que isso é progresso?

21/06/2017 18:43 -03 | Atualizado 21/06/2017 18:46 -03
Gal Gadot é a atriz que interpreta a 'Mulher Maravilha' em novo filme inspirado na personagem da DC Comics.

Vou deixar claro desde já: não sou alguém que tenha o hábito de ir ao cinema para assistir a filmes de grande orçamento sobre super-heróis. Por que? Porque não gosto da violência glorificada ou dos estereótipos de gênero que geralmente encontramos nesses filmes: o homem como herói, a mulher como seu par romântico.

Assim, quando fiquei sabendo do lançamento de "Mulher Maravilha", não me interessei especialmente em assistir ao filme. Eu era cética em relação à fórmula do super-herói. Mas sabia que "devia" ficar empolgada com o filme pelo fato de ser o primeiro filme tendo uma super-heroína como personagem principal e dirigido por uma mulher. Era evidentemente um avanço para a indústria do cinema, algo que merecia ser festejado pelas mulheres de Hollywood.

Uma semana antes da estreia de "Mulher Maravilha", recebi vários e-mails de cineastas mulheres e listas feministas que assino, todas me incentivando a assistir ao filme no fim de semana de sua estreia, para mostrar a Hollywood que um filme liderado por mulheres pode ser grande sucesso de bilheteria.

Decidi aderir. Eu queria apoiar a irmandade feminina.

Não pude ir à estreia do filme, mas fui ver "Mulher Maravilha" no último fim de semana com cinco amigas minhas. Nenhuma de nós usava fantasia de Mulher Maravilha, nem sequer uma tiara, mas estávamos animadas para assistir ao "maior filme sobre empoderamento feminino".

As luzes se apagaram e o filme começou com uma cena em uma ilha mediterrânea belíssima, com guerreiras fazendo treinos de equitação, uso de lanças e combate com espadas. As mulheres eram fortes, focadas e poderosas. Sua força interior e exterior era palpável. Eram mulheres em pleno exercício de seu poder.

Conhecida como Themyscira, a ilha era o lar de Diana (ou Mulher Maravilha, representada por Gal Gadot) e sua mãe, Hipólita (Connie Nielsen), além de centenas de outras mulheres guerreiras conhecidas como Amazonas. Não havia homens à vista. A ilha era povoada exclusivamente por mulheres, numa sociedade inteiramente feminina -uma nação protetora, uma irmandade de mulheres. Assistindo a esse trecho inicial, me senti feliz, revigorada e inspirada.

Mas então alguma coisa mudou. Um piloto americano, Steve Trevor (Chris Pine), sofre um acidente de avião perto da ilha, que então é exposta ao mundo externo. Pouco depois, ela é penetrada pela Marinha alemã. Ocorre uma cena de batalha violenta. Nesse processo, Diana toma conhecimento da "guerra para acabar com todas as guerras" que está em curso no mundo exterior. Ela não entende essa carnificina e destruição da humanidade e sente-se inspirada para acabar com ela. Diana deixa a ilha com Steve, partindo em uma missão de paz.

Adeus, irmandade feminina.

Chegando a Londres, Diana ingressa no "Mundo dos Homens", que, à primeira vista, considera "horrendo". É nesse ponto que a história descreve uma virada grande. Não estamos mais assistindo à história de um coletivo de mulheres poderosas. Passamos a ver uma protagonista mulher em meio a centenas de homens, sem nenhuma irmandade feminina à vista.

Assistindo ao filme, senti não apenas que eu tinha ingressado no "Mundo dos Homens" fictício do filme, mas que ingressara oficialmente no mundo masculino da Hollywood, onde a história de uma protagonista mulher é relatada sob a ótica masculina.

Nas duas horas seguintes do filme, vemos apenas três mulheres de destaque – Mulher Maravilha, uma cientista louca e uma secretária – em meio a multidões de homens, incluindo políticos, comandantes, tenentes, generais, capitães, soldados, espiões e pilotos. Senti que qualquer empoderamento que eu pudesse ter experimentado na cena inicial na ilha acabara de ter sua bolha furada, ou, possivelmente, tinha sido levado embora de vez.

Senti que qualquer empoderamento que eu pudesse ter experimentado na cena inicial na ilha acabara de ter sua bolha furada, ou, possivelmente, tinha sido levado embora de vez.

O filme começou inspirador e promissor para as mulheres, mas depois se transformou em uma típica jornada de herói masculino.

Segundo o Instituto Geena Davis sobre Gêneros na Mídia, a sub-representação de mulheres e meninas no cinema e na televisão exerce efeito duradouro sobre a psique das mulheres e meninas. Ela lhes dá uma visão estreita do que é possível para elas e exerce influência poderosa na geração e perpetuação de vieses inconscientes em mulheres e homens.

Podem ocorrer efeitos nocivos adicionais quando as mulheres mostradas no cinema e na televisão são retratadas na forma de estereótipos de gênero negativos, mostradas como hiperssexualizadas, unidimensionais ou antipáticas. Por exemplo, a cientista em "Mulher Maravilha" foi mostrada como sendo perversa, sendo descrita em certo momento como "bruxa". Para mim, isso perpetuou o estereótipo negativo segundo o qual mulheres inteligentes utilizam seu poder para fins nefandos e que cientistas mulheres não são dignas de confiança. Como você imagina que esse retrato se traduz para meninas e mulheres jovens nas áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática?

Não estou sugerindo que todas as mulheres mostradas no cinema devam ser figuras inspiradoras ou maravilhosas, mas estou sugerindo que, quando há tão poucas personagens femininas, seria preciso mais cuidado para imbuir essas personagens de algumas qualidades que as redimam.

Para voltar à própria Mulher Maravilha: para surpresa minha, ela era uma guerreira presa em um paradigma de guerreiro homem. A heroína solitária que recorre a seus poderes especiais para combater a injustiça.

Descobrimos que foi o deus grego Zeus quem conferiu os poderes especiais a Diana, ou Mulher Maravilha. Essa informação não é nem um pouco empoderadora. Ela perpetua um sistema em que os homens são vistos como as autoridades máximas que possuem o poder de conferir dádivas especiais a algumas de nós (talvez sob a forma de uma promoção, um aumento de salário, etc.).

Na realidade, Diana é descrita no filme como um "deus", e em nenhum momento como "deusa". Achei isso espantoso. Como é possível que esse simples reconhecimento do feminino seja deixado de lado neste filme, que supostamente trata do empoderamento feminino?

A jornada de Diana para descobrir seus plenos poderes em última análise tinha a ver com força e com combater um "mundo de homens" (é verdade que o combustível que a moveu veio do amor –o amor romântico e o amor pela humanidade). Mas será esse realmente o destino final de uma mulher?

Não acredito que seja.

Acredito que a jornada da heroína é diferente da jornada do herói. Embora existam muitos elementos comuns, acredito que um elemento crucial à jornada na qual uma mulher toma consciência de seu poder é o elemento da irmandade feminina.

Para explicar em termos simples, o caminho feminino ao poder não é um caminho solitário, é coletivo.

Inúmeras mulheres já tentaram avançar sozinhas no mundo de orientação masculina, buscando sucesso acadêmicos, profissional e financeiro. Pelo fato de fazerem isso sozinhas, acabaram sobrecarregadas, exaustas e sofrendo doenças relacionadas ao estresse, como fadiga adrenal e depressão.

Está claro que esse modelo é problemático para as mulheres. Se as mulheres se enxergam através de uma ótica masculina e se medem continuamente pelos padrões de uma cultura definida pelos homens, podemos mesmo dizer que isso é progresso?

Quero honrar e aplaudir Patty Jenkins por seu trabalho excelente como diretora e Gal Gadot pelo trabalho maravilhoso no papel de Mulher Maravilha, mas quero também propor uma pergunta: como podemos avançar para o próximo nível e criar histórias e filmes que mostrem a jornada da heroína, em lugar de uma protagonista mulher vivendo um paradigma masculino?

Já conversei com muitas mulheres desde que assisti ao filme, e todas falaram de como adoraram a cena na ilha e que teriam gostado de passar boa parte do filme lá. Foi na ilha que elas se sentiram mais vivas, revigoradas e empoderadas. Como eu, elas atribuem essa sensação à presença da irmandade feminina forte.

Para que Mulher Maravilha fosse de fato um filme sobre empoderamento feminino, seria útil para o público saber mais sobre a cultura da ilha. Além do treinamento físico das guerreiras, quais eram as lições interiores ensinadas a elas? Como as decisões eram tomadas? Como funcionava o sistema político? Ouvi uma das Amazonas ser tratada como "senadora". Fiquei com vontade de saber mais sobre isso.

Eu também teria gostado de ver mais personagens femininas empoderadas no roteiro. Talvez uma pilota, uma dona de loja. E, especialmente, mais personagens femininas que dessem apoio à Mulher Maravilha. Para ser justa, sei que a época em que a história acontece não era muito propícia a isso.

O que é mais importante é que eu gostaria de ter visto mais sobre como fica a vida depois de se ter acabado a guerra no "Mundo dos Homens". Como é a vida nesse momento? E as outras Amazonas? Como fica a vida quando elas se integram à sociedade? Em outras palavras, como fica a vida com mais círculos de mulheres dando apoio umas às outras?

Depois de todo o trabalho árduo da Mulher Maravilha, o que foi conquistado? Como ela foi transformada? Como o mundo foi transformado?

Talvez isso tenha que ficar para uma sequência.

O gibi original Mulher Maravilha foi criado e escrito por um homem, William Moulston Marston. A história revela claramente uma apreciação e celebração das mulheres, mas se limita a uma ótica masculina e a um ideal masculino da mulher. A versão 2017 de Mulher Maravilha também foi criada por homens. Por três homens: Allan Heinberg, Zack Snyder e Jason Fuchs, sendo o roteiro também de Allan Heinberg.

Sinto orgulho do trabalho de diretora de Patty Jenkins. Mas, para que ocorram transformações reais e duradouras para as mulheres, precisamos de mais mulheres em papéis executivos nos estúdios de cinema e em todo o processo criativo, onde ocorre o desenvolvimento principal das histórias.

É hora de termos uma nova geração de histórias contadas desde uma perspectiva feminina e que sejam verdadeiramente inspiradoras para as mulheres e meninas. Quero ver roteiristas e diretoras que possam contar essas histórias a um público de massa. E mais mulheres precisam engrossar as fileiras dos diretores de elenco, diretores de fotografia e produtores, para que decisões sensíveis com relação a gênero possam ser tomadas na contratação e apresentação das atrizes de filmes.

O entusiasmo por "Mulher Maravilha" é compreensível. Nós, mulheres, estamos ansiosas por assistir a filmes de viés feminino. Ansiamos por nos enxergarmos como as heroínas, em vez de sermos as vítimas. Ansiamos por ter uma voz em nossas vidas e na visão que a sociedade tem de nós.

"Mulher Maravilha" arrecadou estimados US$103,1 milhões nos EUA e Canadá em seu fim de semana de lançamento. Para um filme dirigido por uma mulher, foi a melhor estreia da história.

Isso é motivo para festejar, mas meu medo é que Hollywood adote uma atitude de "fiquem gratas e calem a boca". Em outras palavras, vocês ganharam seu filme dirigido por uma mulher e estrelado por uma mulher. Agora vamos voltar para a realidade de sempre.

O primeiro super-herói de quadrinhos a chegar ao cinema foi Superman, em 1951. Foram precisos 66 anos para colocar uma mulher nesse papel. Não devemos esperar mais 66 anos para criar uma heroína mulher que seja realmente inspiradora, nascida de uma perspectiva feminina.

O empoderamento feminino não se resume a sermos fortes ou exercermos poder sobre outras pessoas. Diz respeito a acessar nosso próprio poder, participar de uma irmandade feminina e descobrir o que podemos criar juntas.

No final de Mulher Maravilha, não me senti empoderada, infelizmente. Me senti desorientada, decepcionada e, francamente, indignada. "Por que todo o mundo está dizendo que este é um filme que empodera as mulheres e meninas?", perguntei à minha amiga sentada ao meu lado. "Eu estava me fazendo a mesma pergunta", ela respondeu.

Sim, meu nível de testosterona subiu. Mas isso não me deixou empoderada, apenas me deixou agressiva.

*Tabby Biddle, M.S. Ed., é coach de liderança feminina e Embaixadora de Liderança da ONG Take The Lead, engajada em promover a paridade de gêneros na liderança de todos os setores até 2025. No momento ela está trabalhando no lançamento de '50 Women Can Change the World' ("50 Mulheres Podem Mudar o Mundo), uma iniciativa da Take The Lead Califórnia para lideranças mulheres e líderes emergentes nos setores de mídia e entretenimento. Saiba mais: tabbybiddle.com.