OPINIÃO

A solidão da mulher negra não é um disfarce. Ela é real

21/12/2016 08:51 -02 | Atualizado 21/12/2016 08:51 -02
Pixland via Getty Images
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Texto escrito por Thayse Lopes e publicado originalmente no Superela.

Vamos começar esse texto sobre a solidão da mulher negra contando algumas histórias para nos fazer pensar, abrir o cérebro e entender o que está por vir.

Antigamente, na época da escravidão, os senhores de engenho tinham as negras e as índias como escravas sexuais, que eram tidas para o sexo consentido ou não (estupro). Eram consideradas sangue quente, boas de cama porque toleravam todas as orgias deles (óbvio, não tinham como recusar). Elas eram para as trepadas, já as moças brancas e de família, eram as esposas. Os donos dessas mulheres as abusavam, as estupravam, as obrigavam a realizar todos os seus fetiches e isso é refletido até os dias de hoje.

Seja por estereótipos ou falta de representatividade, a supersexualização da mulher negra é evidente. Daí também ainda ouvimos que mulher preta é mulher boa de cama, é mulher boa para uma foda. O que não pensamos é que mulher pode gostar de sexo, umas mais outras menos e isso independe da cor da pele. Porém, estamos tão acostumados com o perfil racista que nem nos damos conta de como continuamos reproduzindo isso.

Pois bem, a dificuldade de relacionar-se faz com que, muitas de nós, desista do amor (se é que isso é possível). Nesse ato de desistência, nos vemos solitárias, carentes e aceitando o que nos é oferecido. Ou seja, acabamos aceitando estar com homens que não nos tratam bem por medo de encarar a solidão. Isso acontece com todas as mulheres, mas com as negras isso vem com o peso do racismo.

Imagine a cena: uma mulher negra está naquele famoso "rolo" com um cara legal e também preto. Está tudo fluindo muito bem, mas ele não quer assumir uma relação mais séria e ela sim. Os motivos dele para a recusa? São vários, mas um deles é que não está preparado para isso. Ok! Eles estão ficando e está legal. Certo dia, assim do nada, ele termina a relação ou simplesmente desaparece mesmo e, dias depois, aparece namorando com outra. E a outra é de pele branca. É claro que a cabeça da moça dá um nó. "Como assim ele está namorado? Ele dizia que não estava preparado". É, amiga. Ele não estava preparado para te assumir perante a sociedade, mas estava para assumir outra moça e ela é branca.

Para explicar essa cena descrita acima, vamos voltar novamente ao tempo da escravidão. Naquela época, muitas sinhás (nome dado às donas dos escravos) se sentiam solitárias, deixadas de lado por seus maridos e com isso algumas encontravam "conforto" nos braços dos seus escravos. Para eles, ser escolhido pela sinhá para uma trepada, era incrível. Imagina, minha dona me escolheu para foder com ela. Uau! Isso era motivo para se vangloriar perante a senzala.

Daí você consegue entender porque a maioria dos homens negros estão casados com loiraças? O racismo é reproduzido pelos negros, muitas vezes inconscientemente, nesse caso. Já reparou os jogadores de futebol - negros e que se originam das comunidades periféricas - que estão casados com mulheres brancas e de corpos esculturais? Pois é, né? Por que sempre esse perfil? Vamos pensar sobre.

Quantos homens de poder estão numa relação séria - não falo de casualidade - com uma mulher negra? Raramente você vê. Não pode ser apenas coincidência, quando a maioria da população brasileira é constituída por pessoas de pele negra (pardos e pretos).

Em 2010, um senso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que 52% das mulheres não viviam uma união estável e que esse número tende a ser maior para as mulheres pretas. Você pode dar uma olhada aqui. Mulheres negras ainda são hipersexualizadas. A preterição da mulher preta é algo latente, que vem de anos e anos de submissão aos senhores e começou desde quando fomos colonizadas.

Para entender mais sobre o assunto, fiz um post no meu Facebook para que as mulheres negras contassem suas histórias.

O que pude ver é que é unânime, todas nós, negras, já fomos "trocadas" por mulheres brancas ou, então, nunca conseguimos viver um relacionamento que não seja casual.

solidão da mulher negra 2

"Qual estereótipo de beleza? Onde nos inspiramos para segui-lo? Quais são os meios de comunicação que ditam os padrões? TV, revistas e cinema. O padrão europeu tomou conta. A branca de cabelo liso (quiçá ondulado, mas a la Gisele) é maravilhosa. Com seus olhos verdes/azuis e sua pele clara como a neve. Você bem sabe, né preta? Como foi lá na sua infância? Quais eram as meninas pelas quais os meninos se apaixonavam? É, a sociedade não perdoa quando você coloca um acessório em seus cabelos e ele não escorrega. Aí vem a adolescência e seus traços negroides aparecem. A famosa mulata exportação. Lábios carnudos, curvas exuberantes. Ah, a melanina! A supersexualização da mulher negra faz com que ela seja incrível para transas enlouquecedoras e inesquecíveis. Mas como apresenta-la aos amigos/familiares que esperavam a padrão como minha namorada?"

(Vanessa Aquino - Designer de Moda)

"Comecei a fazer Publicidade e me interessei por um carinha da minha turma. A gente mora próximo e fomos estreitando laços, a gente ficava com frequência, vivíamos um na casa do outro, mas nunca virava namoro, porque ele dizia não saber mais se apegar às pessoas por causa da ex. Descobri que ele havia voltado a ficar com ela, que é super padrão (branca, traços europeus), mas a família dele a detesta, então ele dizia estar comigo quando estava com ela. Rompi e falei que não dava mais. Voltamos a ficar depois de um tempo e essa brincadeirinha de ficar parecendo um namoro durou um ano e meio, até que num são joão, eu falei que não dava mais, porque estava amando ele e não conseguia mais ficar nessa bagunça. PEDI O CARA EM NAMORO e ele disse que não tava pronto pra isso. Um mês depois ele começou a namorar uma menina branca e apresentar ela para todos os amigos, coisa que nunca fez comigo."

(Simone Bispo - Publicitária)

"Tive um relacionamento por uns longos anos, e o carinha sempre com o mesmo papo, não tava preparado, a vida corrida com o trabalho, e num sei quê! Fotos? Nem pensar! "Não exponho minha vida pessoal, sou um artista!" Mas eu lutei muito por ele, tentei. Eu o amava. Eu achava que o problema sempre era eu. Até que uma época ele resolveu me "assumir". Planejamos uma família e tudo mais, tivemos uma filha e o que ele fez? Deu no pé! E eu ainda grávida. Tentei terminar várias vezes, mas ele sempre alegava que era pra gente esperar a criança nascer. Fez muita merda, quase perdi minha filha... enfim.  Porém, não aceitava eu ir viver minha vida. Se eu conhecesse alguém me perturbava até eu desistir. Me fazia acreditar que eu só seria feliz com ele. E eu boba por muito tempo vivi dependente desse sentimento. Até que no meu resguardo descobri que ele tinha até engravidado uma outra guria, que perdeu o filho ainda com 8 semanas. Aí, eu definitivamente dei um basta naquela situação. Eu estava me destruindo como mulher, pessoa, e ser humano por causa de um cara que não valia à pena. Achei que não aguentaria. Sofri muito! Meses depois, ele assumiu uma branca, rica, e etc. Já terminaram, mas tudo que planejei e que ele dizia que faria por nós fez por ela."

(Christina Santos - Cantora)

Sempre fui 'convidada' a estar com alguém porque tal pessoa nunca tinha ficado com uma negra, se baseando num estereótipo de que ha algo de diferente no envolvimento com alguém de uma raça diferente. Bem triste.

(Nurya Logman - Gerente de Vendas)

A real é que, sejam homens brancos ou negros, muitos veem a negra para uma noite de sexo intensa a viver um relacionamento como qualquer outro casal. O racismo é velado, é consentido e disfarçado. A solidão da mulher negra é real! Elas estão solitárias, aceitando o pouco que lhes é oferecido e precisamos olhar, aprender, respeitar e falar sobre isso.

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