OPINIÃO

A autocompaixão é mais importante que a autoestima?

19/06/2015 17:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02
Hernan Piñera/Flickr

É importante amar a si mesmo?

Parece que depende de como você se ama.

Poucos conceitos da psicologia popular receberam mais atenção nas últimas década que a autoestima e a sua importância para o sucesso na vida e a saúde mental de longo prazo. É claro que muito dessa discussão se concentra nos jovens e como famílias, pais, professores, técnicos e mentores podem oferecer o ambiente psicológico adequado para ajudá-los a se tornar adultos funcionais, maduros e mentalmente estáveis.

As pesquisas mostram que uma baixa autoestima está associada a problemas de saúde mental, maior probabilidade de tentativas de suicídio e dificuldade de desenvolver relacionamentos sociais de apoio. As pesquisas também indicam que tentar melhorar a autoestima artificialmente traz seus problemas, incluindo tendências de narcisismo, comportamento antissocial e fuga das atividades que possam ameaçar o autoconceito.

Essa divisão nas pesquisas levou a uma divisão entre os psicólogos sobre a importância da autoestima, se ela é útil ou não no que diz respeito a ajudar as pessoas a melhorar a autoestima e quais são as melhores práticas para atingir esse objetivo.

De um lado, você tem pessoas que acreditam que melhorar a autoestima é de fundamental importância. Do outro, estão aqueles que acham que o conceito de autoestima é exagerado e que é mais crítico desenvolver percepções realistas acerca de si mesmo.

Mas e se tivermos passado esse tempo fazendo as perguntas erradas? E se a discussão sobre autoestima for o proverbial dedo apontando para a lua?

Novas pesquisas sugerem que pode ser esse o caso e que um novo conceito - autocompaixão - poderia ser muito mais importante que a autoestima quando se trata de sucesso e saúde mental de longo prazo.

Por que o modelo da autoestima tem erros

A raiz do problema do modelo da autoestima está em certas realidades fundamentais sobre linguagem e cognição. A Acceptance and Commitment Therapy (terapia da aceitação e do comprometimento, ou ACT, na sigla em inglês) foi criada para lidar com essas realidades.

Os psicólogos classicamente tratam questões de autoestima pedindo que seus clientes acompanhem seus diálogos internos - especialmente o discurso negativo - e então empreguem várias táticas para combater essas declarações negativas com afirmações positivas (ou pelo menos mais realistas). Outros tentam impedir os pensamentos, buscar distrações ou recomendam técnicas para que o paciente se acalme.

Sendo direto, essas técnicas não funcionam direito. A comunidade de pesquisa ACT mostrou isso repetidas vezes. Há muitos motivos pelos quais técnicas como distração tendem a não funcionar - tantos motivos que não há espaço para discuti-los aqui. Para uma discussão completa, você pode procurar meus livros Acceptance and Commitment Therapy ou Get Out of Your Mind and Into Your Life (Saia da sua cabeça e entre na sua vida, em tradução livre). Para o propósito da nossa discussão aqui, vamos olhar para um aspecto: como lutar contra um pensamento aumenta a credibilidade dele.

Imagine que um jovem pense: "Tem algo errado comigo". A retórica clássica da autoestima força essa pessoa a levar o pensamento a sério. O jovem, afinal de contas, provavelmente aprendeu que ter boa autoestima é importante e essencial para ter sucesso na vida. Se a pessoa combater o pensamento, entretanto, isso significa que o pensamento foi confirmado. O pensamento em si é algo que está errado com o indivíduo e tem de mudar. Sempre que a pessoa lutar contra esse pensamento, o nó da forca vai ficar mais apertado, pois o pensamento está sendo confirmado. Quanto mais se luta contra o pensamento, mais poder se dá a ele.

Esse é um exemplo clássico que explica por que na ACT dizemos: "Se você não quer, você tem."

O fato é que nem sempre podemos impedir que os jovens tenham inseguranças ou baixa autoestima. Não conseguimos eliminar esses sentimentos nem sequer em nós mesmos. Todo mundo se sente inadequado ou imperfeito de vez em quando. E, num mundo em constante evolução e cada vez mais complexo, simplesmente não há como proteger nossos jovens de eventos que ameaçam a autoestima - eventos como rejeição social, problemas familiares, fracassos pessoais e outros.

O que podemos fazer é ajudar o jovens a responder a essas situações difíceis e a duvidar de si mesmos com autocompaixão. Alguns estudos interessantes recém-publicados mostram que essa abordagem pode ser uma resposta melhor não só para os jovens, mas para todos nós.

O que é autocompaixão?

Antes de olhar os estudos, vamos definir autocompaixão.

Kristin Neff, uma das mais importantes pesquisadoras dessa área, define a autocompaixão como algo composto por três componentes chave em épocas de sofrimento e fracasso:

. Tratar a si mesmo com bondade.

. Reconhecer as dificuldades como parte da experiência humana.

. Manter os pensamentos e sentimentos dolorosos nas consciência.

Nesse contexto, a negatividade ou positividade de seus pensamentos não é o que importa. É como você responde a eles que conta. Voltando para o exemplo acima - "Tem algo errado comigo" --, em vez de combater esse pensamento ou tentar se distrair, você poderia observar esse pensamento sem se apegar a ele, entender que ele é comum a todos os humanos e parte de nossa experiência compartilhada como pessoas, e tratar a si mesmo com bondade, em vez de se castigar.

Será que essa abordagem realmente funciona melhor que simplesmente melhorar a autoestima?

Aparentemente, sim.

Um estudo longitudinal recém-publicado acompanhou 2 448 jovens do nono ano durante um ano e descobriu que a baixa autoestima tinha poucos efeitos na saúde mental daqueles que tinham os maiores níveis de autocompaixão. Isso significa que, mesmo que eles tivessem pensamentos negativos, esses pensamentos tinham impacto mínimo nos seus sensos de bem estar ao longo do tempo, em comparação com pares que não tinham habilidades de autocompaixão.

Isso sugere que ensinar autocompaixão para crianças que têm baixa autoestima pode ter mais benefícios que simplesmente tentar aumentar a autoestima.

A pergunta é: como fazer isso?

Aí entra em cena a ACT.

Usar a ACT para aumentar a autocompaixão

Sabendo que aumentar a autocompaixão não só mitiga problemas de autoestima, como tem impacto em outras condições, como estresse pós-traumático, um estudante meu, Jamie Yadavaia, decidiu conferir em seu projeto de doutorado se podemos aumentar a autocompaixão usando ACT.

Os resultados são promissores.

Pegamos um grupo de 78 estudantes de 18 anos ou mais e os dividimos aleatoriamente em dois grupos. O primeiro grupo foi colocado em uma "lista de espera", ou seja, eles basicamente não receberam tratamento. O outro grupo recebeu seis horas de treinamento em ACT.

Como esperávamos, a intervenção da ACT levou a um aumento substancial da autocompaixão em comparação com o grupo de controle, imediatamente depois do tratamento e dois meses depois da intervenção. Neste grupo, a autocompaixão aumentou 106% -- um efeito comparável a tratamentos de duração muito mais longa. Não só isso como o tratamento de ACT reduziu angústia psicológica, depressão, ansiedade e estresse.

No coração de todas essas mudanças estava a flexibilidade psicológica. Essa habilidade parece ser o fator mediador chave, o que faz sentido. Afinal, aprender a ser menos apegado a seus pensamentos, mantê-los na consciência, e responder a eles com um repertório mais amplo de habilidades -- como autobondade, por exemplo -- não só é postulado na literatura da autocompaixão como uma característica fundamental da saúde mental, mas comprovado repetidas vezes na pesquisa ACT como algo essencial.

Em conjunto, esses estudos têm uma importante lição a ensinar a todos nós.

É hora de nos descartar a ideia de que temos de pensar bem de nós mesmos o tempo todo para sermos indivíduos maduros, bem sucedidos, funcionais e mentalmente saudáveis. Na verdade, essa idéia tóxica pode promover uma espécie de auto-história baseada no ego e no narcisismo, que vai acabar explodindo. Em vez de aumentar o conteúdo da autoestima, o que temos de fazer é aumentar a autocompaixão como o contexto de tudo o que fazemos. Isso esvazia as autohistórias baseadas no ego. Humildemente aceitamos nosso lugar como um entre nossos companheiros seres humanos, conscientemente reconhecendo que todos nós temos dúvidas, todos nós sofremos, nós todos fracassamos de vez em quando. Mas nada disso significa que não podemos viver uma vida de significado, propósito e compaixão por nós mesmos e pelos outros.

Ensine isso aos nossos jovens, e teremos fornecido uma habilidade real, que eles podem usar no mundo real por todas as suas vidas.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.