OPINIÃO

#FicaQuerida: Dilma, estou com você até o fim

20/04/2016 14:42 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Oswaldo Corneti/ Fotos Públicas

Antes do último domingo, 17 de abril de 2016, eu considerava muito radical a concepção de que o PT tinha feito um "pacto com o diabo" para assumir o governo e conseguir governar.

Depois desse dia, assistindo às falas do deputados em apoio ao impeachment eu não só tive certeza, como chorei por Dilma. Eu chorei por imaginar o terror psicológico e a humilhação pública que ela vive no atual contexto político.

O nosso Congresso Nacional é conservador, elitista, misógino, LGBTfóbico, racista.

Mas o grande problema é que o brasileiro elegeu essas pessoas (diretamente ou indiretamente votando na legenda). No domingo nós vimos do que é feito o nosso Congresso Nacional. No domingo, o ódio nacional por pessoas como eu ficou mais do que evidente: ele foi televisionado.

Quem não vive na minha pele negra acha que existe algum tipo de possibilidade de transitar entre o muro que foi concretizado em Brasília, mas que existe simbolicamente desde que o Brasil é Brasil.

Já fui da opinião de que somos a geração dos desinformados. Há anos atrás seria um fato difícil de contestar. Porém, atualmente essa é uma escolha que muitos fazem. A realidade é cruel e alguns preferem manter os olhos fechados para ela e abertos para si.

Essa escolha permite que fique na mão dos mesmos a política nacional, e isso não assusta. Vivemos um cenário de ascensão reacionária, pois o brasileiro é reacionário.

Para mim, essa escolha não é só desinformação, é ódio. É ódio histórico, estrutural e institucionalizado, refletido e personificado naqueles homens, que foram eleitos e são dignos para muitos de serem seus representantes.

Como dizer que esse é o País das diferenças e da democracia racial quando temos deputados votando e citando hinos estaduais racistas? Quando deputados homenagearam aqueles "homens honrosos que descobriram" o Brasil, os mesmo que dizimaram milhares de índios e que na minha história familiar estupraram minha tataravó?

Deputados que votaram "sim" pela Polícia Militar brasileira, que mata mais civis - em sua maioria negros - do que países em guerra civil declarada? Quando deputados votam em nome do Golpe de 64 que matou, sequestrou e perseguiu pessoas por seus pensamentos políticos?

Como dormir em paz sabendo que a gente não só é representado por eles, mas que quem os colocou naquele lugar muitas vezes são nossos pais, irmãos, amigos, colegas, amantes? E essas pessoas dormem em paz sabendo disso? Como beijar a pessoa do outro lado do muro, se enquanto te beija ela apoia o genocídio dos que são como você ou que pode te atingir?

Repito: não é só desinformação, é ódio. É pelo ódio de serem governados por uma mulher, que os deputados votaram "sim". É pelo discurso de ódio que eles têm, que muitos confirmaram o voto neles e em seus partidos. Precisamos dar o peso real a essa situação.

O deputado Valmir Assunção em seu voto disse: "em homenagem à população negra, a quem vive na favela, em homenagem à Dandara, a Zumbi, eu voto não". E foi vaiado pelo Plenário. Clarissa Garotinho, grávida de 8 meses, está de licença maternidade e foi vaiada.

E, por fim, os aplausos vieram para Jair Bolsonaro ao defender um torturador. Carlos Alberto Brilhante Ustra chefiou o DOI-CODI e foi um dos coronéis mais temidos nos anos de chumbo. O Dossiê Ditadura, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, relaciona este homem com 50 casos de mortes e desaparecimentos em São Paulo.

Assista ao discurso:


Mais do que um torturador. Um assassino foi aplaudido. Ele cometia torturas como colocar ratos na vagina de mulheres por meio de canos de PVC. A prática era comum em torturas, feita principalmente quando as mulheres estavam menstruadas. Era constante o uso de baratas. Umas das vítimas de torturadores foi Dilma Roussef.

Jair Bolsonaro votou "sim", homenageando esse homem e seus atos. Ele votou sabendo que teria apoio para dizer o que disse. Ele votou "sim", sabendo que o ódio dele é embasado por muitos. Ele votou "sim" pois ele é amado e aplaudido por muitos. Ele votou "sim" pois tem avós, mães, pais, irmãos, tios que idolatram figuras como Bolsonaro no almoço de domingo da "família tradicional brasileira".

Entenda o que isso significa: deputados e seguidores escutaram o que ele disse e gostaram. Diante disso, eu repito: não é só desinformação do brasileiro, é ódio. As pessoas não acreditam na empatia, pois desconsideram e odeiam o outro, o diferente. Os argumentos foram em sua maioria individualistas: minha família, meu estado, minha neta, meu marido, eu acho, eu voto sim, eu.

E nós? O que será que será de nós? No Brasil que se gaba de suas diversidade, não existe um "nós". Nunca existiu pois aceitamos a invisibilidade e silenciamento sobre o outro lado da nossa história, o lado que matou e ainda mata índios, negros e mulheres.

O que chamamos de "opinião" é, na verdade, uma constante reafirmação de opressões que matam inocentes todos os dias. Não devemos respeitar as instituições que não respeitam nossos votos, muito menos aceitar opiniões que oprimem.

Eu tenho absoluta vergonha e nojo de saber que temos o Congresso mais conservador desde 1964. Mas nunca tive vergonha de ser representada por Dilma. Discordo e condeno muita coisa feita por ela. Ainda mais sabendo da sua história de luta pela democracia, eu sempre admirei e respeitei Dilma enquanto pessoa.

Eles são donos de terras, empresários, filhos de políticos, homens em sua maioria brancos e que simbolizam os "bons homens" do Brasil Colônia: é devido a esse tipo de gente que a minha única herança familiar concreta é um açoite de escravos que meu avô sempre me mostrava para contar as histórias da família. A herança familiar dessas pessoas que estão no poder é o pensamento que fez gente como eu ser vista como eu um número, um animal, um objeto de trabalho e de exploração sexual.

É por conta dessa gente que hoje eu me pergunto: como é possível fazer diferente em um país se o sentimento de vergonha por ter um Jair Bolsonaro eleito por um estado inteiro não é coletivo? Como não ter medo de andar nas ruas? Como não ter medo de sentar na mesa de bar e falar o que você pensa o que você é? Como ainda tem pessoas que negam o genocídio da população negra, mulheres e LGBTs em pleno século XXI?

Os números, os fatos e as falas não negam. O Brasil odeia mulheres, negros, LGBTs e pobres. Não há duvida que houve um golpe, e está havendo há muito tempo. O ódio aqui é permitido e aplaudido.

No domingo eu chorei por mim, e chorei por Dilma que, mais uma vez, foi humilhada e de alguma forma torturada. Eu peço desculpas para ela e para todos, assumo minha culpa por toda vez que eu me calei quando minha família fez piadas sobre ela, seu jeito de falar, seu peso e sua capacidade mental. Hoje eu prefiro romper com todos eles. E esse texto, por sinal, é mais pessoal do que político.

Quem está do lado de quem persegue, mata e apoia essas práticas, não pode mais ter meu aval. As pessoas precisam entender a gravidade do que elas defendem. O silêncio é um posicionamento, e ele é pior do que imaginamos. Não existe da minha parte nenhuma forma de conciliação e convivência digna de quem está do outro lado do "muro" defendendo e apoiando homens genocidas, torturadores, misóginos e racistas.

Hitler, sozinho, não faria o que fez. É por isso que alemães têm tanta vergonha. Eles assumem a culpa que eles têm pelo nazismo. O brasileiro não assume a culpa dele na escravidão, na ditadura e no ódio a minorias. É sempre o outro. Nunca nós. Bolsonaros não se elegem sozinhos.

Foi na base do ódio e da mentira que chegamos até aqui. Eu vou ficar com Dilma até o fim. Para derrubar Dilma, vão ter que me derrubar também. Chamem de governismo, de feminismo, de terrorismo, de mimimi. Mas eu vou ficar com Dilma até o fim. A gente não perdeu em 2016 como Bolsonaro disse. É agora que, mesmo com todas as críticas que faço ao PT, vamos ver as boas sementes do seu governo.

E são pessoas como eu, mulheres, negros, cotistas, bolsistas, filhos das mães solteiras, pobres, que eles vão ter que derrubar. Essa é a hora de sermos radicais nos nossos posicionamentos e ações, com pessoas que são radicais na negação de direitos para minorias.

É hora de expor o quanto o lado que alguns defendem ferem a nossa existência. É Hora de assumir que, diferente do que todos os cientistas políticos de redes sociais acham, é mais difícil fazer política em um País que ainda pensa como há três séculos do que imaginamos.

A roupagem é moderna, mas o pensamento é o mesmo. As pessoas que encabeçam o Congresso, assim como as que foram às ruas de verde e amarelo, têm acesso a livros de história, internet e pesquisas, mas elas assumem essa postura de "não saber", ou de "não querer saber", porque o ódio é a zona de conforto delas. No muro que está posto, ficar em cima diante do cenário de injustiça é aceitar isso. Eu não aceito.

A nossa conta não fecha, a costura não bate, a gente tenta forçar uma solução fácil e rIdÍcula para problemas estruturais e sistêmicos. Queremos resolver sem nos aprofundarmos. Não resolve o problema do País se não mudarmos as estruturas impostas. É preciso destruir para construir o novo. E isso não está nas mãos daquelas pessoas.

Não se enganem: não foi pela corrupção que votaram, não foi pelas pedaladas fiscais que votaram -- já que isso quase nem foi citado --. Foi pelo medo de mudanças e do protagonismo de pessoas como eu que aqueles homens votaram "sim" ao impeachment de Dilma.

Somos mais fortes do que vocês queriam que fôssemos. Dilma foi torturada perdendo os dentes, levando choques nos seios, vagina e boca, além de isolada por dias em espaços só com suas fezes e sangue. Lula passou fome, venceu a seca e miséria. Se tornaram presidentes. Isso assusta.

Hoje, os netos dos escravizados, dos espancados, dos torturados, dos sequestrados, dos mutilados, dos explorados, dos dizimados, dos assassinados, dos perseguidos, dos presos injustamente, de 1531 até 2016 podem ir além e chegar a presidência de um País.

Isso aterroriza, tira o sono, cria conchavos e se transforma em ódio. Por isso eu estou com Dilma até o fim. Estar com ela é estar do lado justo. Mesmo com críticas, erros e problemas, o lado certo é esse quando o outro é a raiz do ódio. Por fim, só quero lembrar que vai ser cada vez mais difícil derrubar quem nunca parou de lutar.

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