OPINIÃO

Dylan Farrow e Woody Allen: o perverso caminho do julgamento sem provas

08/02/2014 12:08 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
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WESTWOOD, CA - DECEMBER 23: Woody Allen and his New Orleans Jazz Band perform at Royce Hall, UCLA on December 23, 2013 in Westwood, California. (Photo by Gabriel Olsen/FilmMagic)

Dias atrás assisti um filme que mexeu comigo: "A Caça", um filme dinamarquês que conta a história de um homem que é acusado (injustamente) de ter abusado sexualmente de uma criança. Tudo se passa em uma vila pequenina no interior da Dinamarca. Todos se conhecem, todos estão sempre juntos em festas, nas missas, nas casas um dos outros.

O acusado é professor do jardim de infância e é adorado pelas crianças, em especial, pela garotinha, filha do seu melhor amigo, a qual ele é acusado de molestar, que, por sua vez, fantasia uma situação, aparentemente baseada no que ouve dentro da própria casa pelos irmãos mais velhos e projeta no professor.

O desenrolar é revoltante. Assistir os bastidores de histórias como a contada no filme, de pessoas que são equivocadamente condenadas e 'caçadas' por todos ao redor, tendo suas vidas destruídas pela leviandade e falta de precaução daqueles que se baseiam unicamente em um lado da história, no próprio 'bom senso' e em 'achismos', é de arrasar e de fazer pensar.

A diretora da escola, respeitada e dócil senhora, ao ouvir a menina, sem qualquer cautela diante da seriedade do fato, reporta aos pais dos alunos da escola o que ouvira da criança, com um discurso já enviesado para o veredicto contra o suposto agressor. Toda a população da vila inicia, então, uma verdadeira caça a esse homem, que nunca mais consegue recuperar a sua vida de antes. Perde o emprego, é proibido de ir à escola, é espancado na rua e no supermercado.

O problema é que essa história - com diferentes desdobramentos, peculiaridades e graus de gravidade - pode estar mais presente nas nossas vidas do que imaginamos. Quantas vezes damos veredictos imutáveis sobre aquilo que não temos condições de saber com absoluta certeza?

No caso, absolutamente ninguém ali considerou que aquela menininha podia estar falando algo proveniente da imaginação dela, mesmo quando ela própria, espontaneamente, desmente a história aos seus pais quando percebe que seu querido professor começa a ser alvo de ataques e duras represálias por toda a comunidade e é afastado da escola.

O filme mexeu comigo porque percebi que de fato é bastante fácil e corriqueiro emitirmos veredictos em situações que podem não ser bem aquilo que estamos ouvindo ou lendo nos jornais, nas revistas, nas redes sociais, na rádio, da nossa vizinha, nas mesas de bar, nos almoços de família. Somos implacáveis no ato de condenar sem considerar hipóteses. E essa aptidão agrava quando estamos em bando.

Li a carta de Dylan Farrow (filha do Woody Allen) abordando o suposto abuso sexual que sofrera na infância. Em dado momento me vi convencida daquelas palavras cheias de emoção e detalhes. Depois da leitura, me vi obrigada a revisitar alguns impactos que o aludido filme me proporcionou há uns dias atrás, o que me fez parar. De repente, na minha concepção, aquela história podia comportar outras hipóteses e podia ser controversa.

Tão grave quanto saber que um ser humano cometeu um crime sexual contra a própria filha, é dar um veredicto final condenando-o, com base no que não temos condições de saber com absoluta certeza, quiçá um dia conseguiremos.

ETC: