OPINIÃO

Vamos conectar a mamãe: um presente de dia das mães inesquecível

24/04/2014 15:48 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02
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Em 1996, meu presente de Dia das Mães foi um fax modem para meu bom e velho (velho mesmo) computador. Até então, só conhecia Internet de ouvir falar. Mas tinha muita curiosidade. E expressava esse meu interesse. Sempre. Insistentemente.

Então, meus filhos, 17, 20 e 22 anos à época, tiveram a grande ideia: vamos conectar a mamãe.

A instalação do tal modem foi um parto.

A conexão, um evento.

As primeiras incursões, uma aventura.

E lá estava eu diante daquela tela preta com letrinhas verdes. Só os mais antigos vão saber do que estou falando. Companheiros de geração Baby Boomer.

Bem... Mas, passados os primeiros momentos de puro deslumbramento, o olhar inocente deu lugar ao pedagógico. Inevitável. E uma pergunta começou a me atormentar: como aproveitar aquela novidade na minha prática já sedimentada numa experiência de mais de 25 anos? Sim, lecionava já desde 1970.

A questão foi se transformando em desafio: passar de uma usuária comum e primária do computador a uma profissional de ensino que fizesse uso educativo da Internet.

Não apenas de maneira instrumental, mas de uma maneira positiva e crítica.

Meu feelling me alertava que, para isso acontecer, seria necessário desenvolver uma visão bem fundamentada de procedimentos pedagógicos que favorecessem a assimilação e multiplicação dos efeitos e das ações de um recurso como a Internet no processo ensino-aprendizagem.

Essa visão eu não tinha naquele momento e nem sabia bem como e onde buscá-la. Só sentia.

Ainda nessa época, 96, 97, assisti a acalorados debates sobre o uso da Internet na Educação. As opiniões divergiam em vários aspectos. Como divergem até hoje.

Porém, uma ideia predominava: Internet é uma ferramenta. Só isso ou tudo isso, como argumentavam seus mais ardorosos defensores.

Percebi, então, que para nós, educadores, surgia um novo recurso - uma nova linguagem, na verdade - com características que precisavam ser conhecidas, analisadas e exploradas com propriedade e exaustivamente. Essa foi minha tarefa durante aqueles primeiros anos. E continua sendo.

Como a escola em que trabalhava - uma escola pública municipal da região do ABC paulista - já contava com dois laboratórios de informática, com 40 computadores novos e conectados à Internet, a possibilidade de usá-los para desenvolver minhas aulas de Língua Portuguesa pareceu bastante viável.

Reconheço agora que fui pretensiosa na iniciativa. Ou melhor, ousada. E ousadia em dose certa faz bem sempre. Recomendo.

Assim, em 97, coloquei no ar um site pessoal com conteúdo próprio para trabalhar com meus alunos do Ensino Médio. Porém, apenas uma boa infra-estrutura física não é suficiente para garantir, de imediato, a aceitação e o sucesso de projetos que tenham novas tecnologias como suporte. Antigas e consistentes convicções da instituição escola ficam fragilizadas diante de uma novidade tecnológica; hierarquias há muito internalizadas são colocadas em dúvida; a rotina tradicional da unidade escolar é consideravelmente alterada; novos e complexos padrões se impõem com força e velocidade assustadoras.

Hoje, olhando pra trás, vejo isso com uma clareza confortadora. E sei dar nome àquelas reações todas que aconteceram. Aquelas resistências já estão até categorizadas e conheço estratégias para vencê-las mais facilmente. Sim, porque, pasmem, elas ainda existem. Em menor escala, mas estão por aí.

Como professora de Língua Portuguesa, coordenadora de área e, posteriormente, coordenadora de projetos, pude, entre 96 e 2003, dividir com meus colegas das diversas áreas, muitas dúvidas e poucas certezas; crenças e descrenças; grandes frustrações e pequenas alegrias; receios, inseguranças, anseios, desejos; revoltas e resignações quanto a possibilidade/necessidade/urgência/inexorabilidade de mudanças e inovações nas formas de desenvolver nossa atividade docente. Principalmente, no que diz respeito à incorporação de novas tecnologias a um processo já tão complexo por natureza.

Após passar por diferentes etapas de diferentes aprendizados e adquirir mais habilidades para mexer com computador , ou melhor, entender um pouco mais a lógica da web, estudar muito, consegui reunir condições mínimas para associar os recursos que os dispositivos oferecem aos objetivos de uma atividade docente que os novos tempos impunham claramente.

Isso não significou o final da tarefa, pois, com a velocidade dos avanços tecnológicos e das mudanças sociais, culturais, essas condições tiveram - e têm - que ser revistas quase que a cada dia.

A mudança de paradigma é complexa e envolve questões de toda ordem: tecnológica, trabalhista, ideológica, cultural, psicológica, entre outras nada menos difíceis. Mas é inevitável e implica o aprender todo dia, aprender a vida inteira. Inserir-se na cultura digital. Estar aberto ao novo.

Dezessete anos depois, é gostoso relembrar aquela manhã daquele maio. 1996. Inesquecível!

Agradeço sempre a meus filhos pelo presente que, confesso, me pareceu estranhíssimo naquele dia das mães. Inusitado, digamos. Um fax modem? Àquela altura, não tinha a menor ideia do que era nem pra que servia. Mas, rapidamente, liguei o nome à pessoa e cá estou até hoje... Internetando!