OPINIÃO

Texto curto é arte de preguiçoso?

07/03/2014 19:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Texto curto, microblog, minimanifestos; tudo isso é entretenimento instantâneo. Mas muito saboroso.

E isso aterroriza muitos professores e pais. Preocupados com a saúde intelectual de seus alunos e filhos, esperam textos mais longos, mais consistentes.

Que surjam de uma pesquisa e de uma longa reflexão. Que alimentem mais, melhor e por mais tempo. Que não causem indigestão. Mais palavra que imagem. Mais análise que infográfico. Prato colorido. De comer com os olhos.

Mas a moçada está mais mesmo é pra um snacking. O fast ganhando longe do slow food. A la carte, só por obrigação. Fato.

E como encarar o fato? Vou colocar o terninho do advogado do diabo, e, data venia, trazer alguns argumentos, digamos, literários. Não para convencer. Mas para abrir o apetite para a conversa.

Fabrício Carpinejar, contista e cronista, diz: escrever pouco não é indicador de preguiça. "Pelo contrário. O preguiçoso cria textos longos e não volta a eles, não edita."

Pascal, se defende: "Fiz esta carta mais longa porque não tive tempo de fazê-la curta."

E Nancy Miller, no seu minifesto, chama essa tendência (microblogar[i], escrever pouco) de cultura snack: a cultura pop agora vem embalada como biscoitos ou chips, em bits do tamanho de uma mordida para mastigar em alta velocidade.

Posts com média de 120 a 180 caracteres em média. 3 linhas são suficientes. Vídeos de 1 minuto. 1 segundo até. Hashtags dão conta da frase. Emoticons, das sensações. Snacking mídia é hoje um modo de vida da Geração C[ii].

Drummond teria dito: "Escrever é cortar palavras". Há controvérsias quanto à autoria. Mas o aviso é a cara dele: exemplo de concisão. João Cabral, na mesma linha, mais dramático: "Enxugar até a morte".

Hemingway, incisivo: "Corte todo o resto e fique no essencial". Leminski alertava: "Repara bem no que não digo."

E o que dizer das miniaturas literárias? Os micro contos. Cabem em camisetas, panfletos, filipetas, adesivos, muros, tatuagens, desenhos animados , arquitetura, instalação, música. Feitos sob medida para as telas digitais.

No Brasil, Dalton Trevisan, autor de "Arara bêbada", "Capitu sou eu" e "Pico na veia", representa essa literatura.

Ah... quase me esqueço dos haicais. E do minimalismo, que influenciou artes visuais, design, música e a própria tecnologia.

Bem, antes que meu texto fique enorme, retomo as questões do início - Existe arte em microblogar? Ou é arte de preguiçoso? Ou o menos é mais? - e convido vocês para uma troca de ideias sobre os modernas tendências de escrita. E sobre o quanto isso deve preocupar pais e professores. Ou não.

[i] Microblogar - é a ação de postar textos reduzidos em blog pessoal, especialmente a partir de comunicadores instantâneos ou smartphones. Microblogs privilegiam a brevidade do texto, a mobilidade dos usuários e as redes virtuais como entorno social emergente. Fonte: http://www.bocc.ubi.pt/pag/zago-gabriela-dos-blogs-aos-microblogs.pdf

[ii] Geração C - conectada, criativa, crítica, confiante, curiosa, capaz de criar conceitos, congregar pessoas e confrontar ideias. Não é regida por ano de nascimento. Também é conhecida como geração "V" ou geração Virtual. É composta de pessoas de múltiplos grupos demográficos e idades, que participam de comunidades virtuais, games online e de redes sociais. Fonte: Rainmaker Thinking Inc., site: Marketing Profissional e site: IDG NOW