OPINIÃO

O mal que 64 fez à educação brasileira

07/04/2014 16:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02
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Lembrar, analisar criticamente os horrores da ditadura (1964-1985) nos ajuda a entender um pouco - ou muito - o Brasil de hoje. Mesmo porque os "entulhos" dessa desconstrução nacional ainda estão por aí atravancando caminhos.

Entre eles, os caminhos da educação.

Mas, se a gente quer, de fato, colaborar na melhoria da qualidade da educação pública do país, é sempre bom tentar buscar compreender como ela chegou a este estado de ineficiência. Não para apontar culpados, mas para recuperar, entender processos e construir um entendimento mais fundamentado, mais crítico, menos superficial e mais proativo do que temos agora.

Afinal, quando foi que tudo desandou? Ou começou a desandar? Tenho pistas.

Uma delas é o acordo MEC-USAID. Vou ficar só com esta pista, neste post. E sem a intenção de esgotar o assunto. Só para começar uma conversa. Vamos lá...

Acordo MEC-USAID - uma série de convênios produzidos, nos anos 1960, entre o nosso Ministério da Educação (MEC) e a United States Agency for International Development (USAID), que previam assistência técnica e financeira dos americanos à educação brasileira. Em todos os níveis. "Modelo" de educação "vindo de fora".

Convênios - seminários/programas de treinamento + reformulação do sistema de ensino + fortalecimento da visão capitalista da educação + privatização das universidades públicas + foco excessivo na profissionalização.

Resultados - privatização do ensino + exclusão crescente das classes populares do ensino superior + institucionalização do ensino profissionalizante + tecnicismo pedagógico + desmobilização do magistério + legislação confusa + visão tecnocrata da educação + processo focado exclusivamente na formação profissional + perda do poder de mobilização política dos jovens + moralismo conservador + repressão + desvalorização da produção social do conhecimento.

Exemplos palpáveis - reestruturação do ensino, reestruturação dos currículos das escolas de primeiro e segundo graus, criação da disciplina de Educação Moral e Cívica e OSPB (Organização Social e Política do Brasil), transformação das disciplinas de História e Geografia em Estudos Sociais, eliminação da exigência de gasto mínimo com educação e consequente queda nos investimentos.

Consequências palpáveis - esvaziamento dos conteúdos, valorização da decoreba, prejuízo na formação de senso crítico.

Resumo da ópera - educação deixa de ser um projeto social. Passa a ser um projeto a serviço da economia capitalista = concepção pedagógica autoritária e produtivista.

Bem, muitos vão discordar. Dizer que simplifiquei demais. Que há outras tantas razões pra educação estar como está. E até mesmo há os que pensam que essa ideologia americana imposta ao ensino brasileiro foi fantástica.

Que ótimo que hoje podemos pensar, falar, escrever, discordar! Sem medo!

Mas, cá pra mim... Continuo me apoiando nas palavras do Paulo, o Freire, que, sábia e oportunamente já cantava a bola:

"Seria uma atitude muito ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que permitisse às classes dominadas perceberem as injustiças sociais de forma crítica."

E é fato que a ingenuidade passa longe de regimes ditatoriais. E é fato também que sem criticidade a educação não avança.

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