OPINIÃO

Vacinas, uma história de sucesso

As taxas de vacinação contra gripe, febre amarela silvestre e HPV ficaram muito aquém da meta neste ano.

05/07/2017 14:33 -03 | Atualizado 05/07/2017 14:33 -03
Christopher Futcher
As vacinas são um sucesso: graças a elas, erradicamos a varíola, praticamente erradicamos a poliomielite e eliminamos o sarampo, a rubéola e a rubéola congênita das Américas.

É consenso entre os profissionais que trabalham com imunização que as vacinas são vítimas do seu próprio sucesso. Graças a elas, erradicamos a varíola, praticamente erradicamos a poliomielite — apenas Afeganistão, Nigéria e Paquistão têm casos — e eliminamos o sarampo, a rubéola e a rubéola congênita das Américas. As conquistas, no entanto, deixam a população tranquila a ponto de pensar que as vacinas são desnecessárias. E é aí que mora o perigo.

O exemplo mais recente no Brasil é o surto de febre amarela silvestre, que atingiu especialmente Minas Gerais. Apesar de a vacina estar disponível nas redes pública e particular há décadas, um relatório divulgado pelo Ministério da Saúde em março apontou que dos primeiros 533 municípios mineiros a intensificarem a vacinação este ano, apenas 25 haviam alcançado, em 2016, a meta de 95% de cobertura vacinal. Ainda pior, 253 não atingiram nem 50%.

Ilustrativa da mesma forma é a situação da vacina contra a gripe. A divulgação, em 2016, de mortes relacionadas ao H1N1, amplamente conhecido por conta da pandemia de 2009, motivou uma corrida aos postos e às clínicas privadas, que chegaram a ter filas de espera de mais de cinco horas. Em 2017, a predominância do H3N2, tão preocupante quanto os demais tipos de influenza, não chamou a mesma atenção e os números da campanha ficaram abaixo do desejado.

Ao contrário do resfriado, com a qual sempre é confundida, a gripe é uma enfermidade grave. Estimativas indicam que ocorrem de 250 mil a 500 mil mortes e de três a cinco milhões de episódios severos anualmente. A vacina, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês), reduz em 65% o risco de morte em indivíduos saudáveis entre seis e 17 anos, e em 51% nas crianças com condições de alto risco, como bronquite e pneumonia. Entre maiores de 50 anos, as chances de hospitalização caem 57%.

Como se a baixa adesão à campanha da vacina contra a gripe já não fosse suficiente, a baixa procura pode obrigar o descarte de 60 mil doses do imunizante contra o HPV, que, objetivamente, é uma vacina contra o câncer. O HPV está relacionado a 99,7% dos episódios de câncer de colo do útero, tumor responsável pela morte de cinco mil mulheres no Brasil todos os anos. Além disso, o vírus está associado ao câncer de ânus (91% dos casos), vagina (75%), orofaringe (72%), vulva (69%) e pênis (63%). Prevenir parece interessante, não?

Retrocesso

Felizmente, não há em nosso país movimentos contrários à vacinação semelhantes aos existentes na Europa, onde surtos de hepatite e sarampo têm sido registrados. Portugal, por exemplo, que também gozava do status de eliminação da doença, teve mais casos de sarampo em cinco meses do que na última década.

Por outro lado, aumentam como uma praga nas redes sociais discursos irresponsáveis, que de tão absurdos poderiam até ser classificados como piadas, caso não tivessem o potencial de trazer consequências trágicas. O mais famoso, certamente, é o que relaciona a vacina tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola) ao autismo.

O discurso é popular porque se baseia em um trabalho publicado na Lancet, uma das publicações científicas mais prestigiadas do mundo. O que não é contado pelos antivacinistas é que o estudo foi desmentido por dezenas de outras investigações — uma delas avaliou 95.727 crianças nos Estados Unidos entre 2001 e 2012. E que o autor estava envolvido com escritórios de advocacia que processavam empresas farmacêuticas. Ele foi responsabilizado criminalmente, teve o registro médico cassado e o artigo foi retirado dos arquivos da revista.

Diante da derrota, como esperado, os grupos apelaram às mais diversas e batidas teorias conspiratórias. Um deles, inclusive, foi além e patrocinou um estudo com macacos para tentar provar que as vacinas de fato causavam o problema. O tiro, no entanto, saiu pela culatra: nenhum dos animais apresentou alterações comportamentais ou na fisiologia do cérebro.

É importante destacar que a repercussão da vacinação vai muito além do indivíduo. A pessoa imunizada ajuda a reduzir a circulação de vírus e bactérias e, indiretamente, protege aqueles que não podem ser vacinados, seja em função da idade, do uso de determinados medicamentos ou condições médicas.

Será que vale a pena colocar vidas em risco? Será uma boa ideia voltar à época em que milhões morriam por doenças que já controlamos? Pense nisso, conscientize os seus conhecidos e mantenha o calendário de vacinação em dia. Sempre.

Isabella Ballalai é presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Guido Levi é diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações e autor do livro Recusa de Vacinas - Causas e Consequências.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

LEIA MAIS:

- O que há por trás das discussões dos planos de saúde na Câmara

- Um projeto de lei quer mostrar imagens de fetos 'mês a mês' a mulheres vítimas de estupro

21 doenças raras