OPINIÃO

Sexo na tela

09/02/2014 14:00 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
Divulgação

Temos assistido a cenas de sexo nas telas de cinema. Depois de um longo período em que, com algumas exceções, ficou reservado a amores insinuados e reticentes, o sexo ressurge nos filmes, e as pessoas comentam sobre isso: bom ou ruim, erótico ou pornográfico, hétero (?) ou homo (?) sexual.

Mas o que me parece mais relevante nisso tudo é que a sexualidade está em pauta e que estamos falando sobre o assunto, e isso apesar de sabermos que o véu que recobre o tema é indelével.

Mas por que é importante a presença de cenas de sexo no cinema?

Nas cenas iniciais do filme "Ninfomaníaca", em um diálogo travado entre a personagem principal e seu interlocutor (um senhor que a recebe em sua casa), talvez tenhamos uma pista: ela se diz culpada, ele diz que não é religioso, ela rebate dizendo que também não, ele lhe lança uma questão: por que razão, se você não é religiosa, foi escolher justamente essa parte da religião, o pecado, pra escorar sua certeza?

Lars von Trier nos aperta: sabemos com Freud, desde o "O mal-estar na civilização", que somos todos culpados, não há como escapar, esse é o preço que pagamos pela civilização: o interdito e a culpa. Mas também sabemos que a forma de lidar com essa herança não é sempre a mesma. Historicamente a momentos de liberdade se sucedem longos anos repressivos, então, nessa lógica, talvez seja uma boa hora pra sairmos desse período de latência e nos lançarmos novamente nessa discussão.

Boa hora porque vivemos a retomada de um discurso moralista, um discurso que toma corpo e nos ameaça com poder de lei. Após conquistas importantes no que diz respeito às liberdades de escolha singulares sobre o exercício da sexualidade, nos vimos ameaçados de um grande retrocesso.

A sexualidade é nosso calcanhar de Aquiles. Bataille insistiu em apontar o caráter eminentemente paradoxal do sexo. Referindo-se ao orgasmo como "pequena morte" e definindo o erotismo como "a aprovação da vida até na morte", ele nos lembra a face assustadora do erótico, o tênue fio que separa e une o interdito e a transgressão, o proibido e o desejado, entre o que nos convoca e contra o qual nos armamos até os dentes com normativas e censuras.

Contra os discursos de certeza -- que se propõem a determinar, catalogar e normatizar gozos e comportamentos --, a arte mantém sua potência transgressora e nos interpela, seja na angústia da personagem Adèle, protagonista de "Azul é a cor mais quente" (que não encontra descanso nem apesar do encontro feliz com o par amoroso), ou em Joe, a culpada ninfomaníaca (que percorre no filme, desde a infância, todas as lembranças de sua vida sexual, talvez em busca de uma cena, um momento que dê algum sentido a sua prática incansável e desenfreada).

A sexualidade excede aos limites da representação, daí sua potência desestabilizadora, que me parece muito bem-vinda nestes tempos.