OPINIÃO

Como a espionagem da NSA, o Google e o frango com cloro estão jogando os alemães contra os americanos - e o que fazer a respeito

27/10/2014 17:51 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
JOHN MACDOUGALL via Getty Images
Protestors dressed up as chicken and corn hold signs reading 'No chlorine chicken for Europe' (Keine Chlorhuehner fuer Europa) and 'Against genetic engineering' (Gegen Gentechnik) during a demonstration ahead of an election campaign meeting of the top candidate of the German Social Democratic Party (SPD) for the 2014 European elections in Berlin, on May 19, 2014. AFP PHOTO / JOHN MACDOUGALL (Photo credit should read JOHN MACDOUGALL/AFP/Getty Images)

Estes comentários foram adaptados de uma palestra realizada no Centro de Estudos Europeus em Harvard, no dia 23 de outubro.

Vejo em meu país um crescente nervosismo sobre os Estados Unidos. Apesar de ambos os países terem uma águia em suas insígnias, as pessoas atualmente estão concentradas em outra ave: o frango. E não apenas qualquer frango velho, mas o frango "clorado". É um frango que foi desinfetado em um banho de cloro -- como fazem as empresas alimentícias americanas.

Esse frango -- livre de bactérias, graças ao cloro -- está entre os dez clichês americanos mais populares na Alemanha. Hoje ele aparece em nossos programas noturnos de entrevistas, que estão tendo um ótimo momento zombando do acordo comercial transatlântico, ou TTIP (sigla em inglês para Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento). O frango "clorado" simboliza os temores provocados por esse acordo de livre comércio. Temores de que os produtos estrangeiros substituam nossos produtos locais, e de que os padrões sanitários sejam atenuados.

Mas há um problema com esses temores. É claro, continua sendo verdadeira a frase do escritor Joseph Heller: "Só porque você é paranóico, não quer dizer que não o estejam perseguindo".

Até os pessimistas crônicos têm o direito de ter medo. Mas é bastante óbvio que há algo errado aqui: as mesmas pessoas que têm medo do frango não veem problema em mandar seus filhos à piscina, onde elas podem passar o dia nadando em cloro.

Um pouco mais de raciocínio e de calma beneficiária as negociações para um acordo de livre comércio entre as duas maiores potências comerciais do mundo, os Estados Unidos e a Europa. Se tivéssemos um pouco mais de autoconfiança, poderíamos decidir usar o TTIP para definir novos padrões para um bom acordo que reduza a burocracia para as empresas e respeite as características nacionais. Poderíamos ter um acordo que estabeleça padrões de tecnologia e inovação, trabalho e meio ambiente -- padrões que outros grandes países comerciais da Ásia poderiam adotar.

O medo de que estamos falando aqui -- que está sendo criado -- é o medo do diferente. Ele entende o comércio como um jogo de soma zero. Como uma batalha sobre um bolo de certo tamanho. Mas do que estamos realmente falando é de criar oportunidades e opções: o livre comércio não como uma corrida até o fundo em saúde, meio ambiente ou seguridade social, mas o livre comércio com regras para produtos de alto valor e com concorrência pelas melhores ideias. Esses padrões poderiam moldar o progresso para uma globalização justa.

Acho que esse seria um projeto histórico que reflete as grandes possibilidades de uma nova agenda transatlântica.

A identidade Snowden

É claro que as revelações de Edward Snowden também perturbaram as relações entre a Europa e os EUA. Posso ser muito franco a esse respeito? O acesso aparentemente ilimitado da Agência Nacional de Segurança dos EUA aos dados pessoais dos usuários da internet sem qualquer suspeita específica, a desconsideração pelos direitos fundamentais de qualquer Constituição baseada no regime da lei: isso destruiu a confiança. Grampear o telefone celular da chanceler alemã não pode ser interpretado como um gesto de amizade.

A liberdade individual é o que definiu as sociedades ocidentais e o que enfrentou a ditadura. Na época da Guerra Fria, essa era a grande diferença do bloco comunista, onde o indivíduo não tinha direito à privacidade.

"Em vez de o Estado ter de justificar seus atos para restringir a liberdade pessoal, o indivíduo que insiste na privacidade torna-se suspeito."

Hoje vemos como o relacionamento entre o Estado e o indivíduo nas sociedades ocidentais pôde ser invertido: em vez de o Estado ter de justificar seus atos para restringir a liberdade pessoal, o indivíduo que insiste na privacidade torna-se suspeito.

Google x Alemanha

Eu tive uma discussão pública na semana passada com o CEO da Google, Eric Schmidt, e falamos sobre essa questão. Estamos tendo uma discussão sobre o modo como as grandes companhias da internet garimpam e usam dados -- com o perigo de que elas nos transformem em seres humanos transparentes. Mas uma coisa em que concordamos é que a monitoração irrestrita das comunicações pelos serviços secretos pode destruir a internet como um espaço de liberdade. Eric Schmidt descreveu acertadamente essa prática como "ultrajante".

Por isso, acredito que precisamos urgentemente de novas iniciativas para reconstruir a confiança perdida. Iniciativas conjuntas para maior segurança de dados para indivíduos e empresas podem ajudar. O ciberdiálogo transatlântico lançado pelo ministro das Relações Exteriores alemão, Frank-Walter Steinmeier, é um bom começo. Acredito que o regime da lei que estabelecemos na era analógica das sociedades democráticas é um bom indicador para nosso futuro digital.

Como a internet é uma rede mundial, está claro que soluções nacionais não são suficientes. Não devemos ser conduzidos por uma nova onda de protecionismo. Uma lei internacional da privacidade de dados seria o caminho certo a seguir. Acho que esse é outro aspecto de como precisamos moldar a globalização no século 21. E esse projeto também pode se tornar uma nova agenda transatlântica que está profundamente enraizada em nossos valores de liberdade e democracia. Valores que se aplicariam a todos os indivíduos, não importa em que país eles vivam. Certamente, é isso que os define: o fato de que se aplicam universalmente é sua verdadeira mensagem.

Desde a Declaração de Independência dos EUA, desde as revoluções democráticas dos séculos 18 e 19, continuamos enraizados nessa tradição. É o que nos une. A igualdade e os direitos humanos definem nossa identidade política.

Estou sendo ingênuo?

É difícil acreditar nessa mensagem hoje. É quase difícil expressá-la sem parecer ingênuo. Esperança, confiança e decisão política estão em declínio. Preocupações, medos e descrença política aumentam.

Hoje, vemos:

- que as esperanças de cooperação e parceria com a Rússia foram substituídas pelo conflito na Ucrânia;

- que os esforços para levar a paz ao Oriente Médio foram eliminados pelo conflito em Gaza;

- que todas as iniciativas para construir coisas na África são impotentes diante do surto de ebola na África ocidental e os riscos para a estabilidade de países inteiros;

- que as esperanças da Primavera Árabe foram varridas pela guerra civil na Líbia e na Síria e pelos avanços do "Estado Islâmico" na Síria e no norte do Iraque.

Hoje, vemos:

- novas incertezas, nova instabilidade;

- Estados que estão desmoronando; guerras civis que são conduzidas com crueldade fanática e desprezo pela vida humana;

- o retorno de ambições territoriais que desconsideram o direito dos povos à autodeterminação;

- e também a crescente desigualdade social e econômica; não apenas entre países desenvolvidos e menos desenvolvidos, mas até no centro de nossas sociedades;

- a desigualdade econômica que mina a promessa de oportunidades iguais e de progresso social (como disse recentemente Janet Yellen, presidente do Banco Federal Reserve dos EUA);

- desequilíbrios econômicos que ameaçam até o projeto histórico da unificação europeia.

Nessa difícil situação, eu gostaria de lembrar a todos um pensamento que se tornou aceito nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial: a segurança e a estabilidade não podem ser alcançadas de forma permanente por meios militares. Qualquer pessoa que deseje uma situação social e política estável e duradoura deve adotar uma abordagem abrangente e promover a prosperidade econômica. O "poder brando" -- conceito definido pelo cientista político Joseph Nye, de Harvard -- é mais interessante e mais eficaz.

Precisamos garantir que haja a maior quantidade possível de igualdade e justiça. É claro, isso exige um grau apropriado de redistribuição de riqueza. A desigualdade irrefreada não apenas mantém a instabilidade em regiões de crise notórias: ela também enfraquece nossas sociedades quando a permitimos no coração da Europa e da América. No mínimo, torna as empresas improdutivas. Um esforço excessivo já foi aplicado para reparar o que se quebrou.

A força da Europa e dos EUA está em nossos atrativos econômicos. As sociedades prósperas e inclusivas são lugares interessantes para se viver. Elas criam valores e são valorizadas.

Tanto os EUA quanto a Europa atraem centenas de milhares de jovens de todo o mundo todos os anos: eles vêm para estudar em universidades fantásticas como Harvard e querem se beneficiar das oportunidades de empregos assim como da segurança social e da qualidade de vida em países como a Alemanha. Temos uma experiência comum como países de imigração. Pode parecer incrível, mas a porcentagem da população nascida no estrangeiro é tão grande na Alemanha hoje quanto nos Estados Unidos.

Tenho certeza de uma coisa: qualquer um que critique como decadente o desejo das pessoas de viver suas vidas como quiserem, em prosperidade e segurança, descobrirá que essas pessoas um dia lhe fugirão. No passado, isso desmascarou muitos ditadores e causou a queda de grandes potências -- apesar de suas armas. Mas os que respeitam os sonhos e as ambições dos jovens têm o futuro em suas mãos.

Eu repito: garantir que as pessoas desfrutem oportunidades iguais é nossa identidade política. Em seu discurso sobre o Estado da União no início do ano, o presidente Obama disse: "Oportunidade é quem nós somos". Que grande frase!

Como ministro responsável pela economia, estou sempre pensando em como podemos colocar nossa prosperidade em uma base mais ampla e mais sustentável, e como mais pessoas poderiam desfrutá-la.

A Alemanha pode, e fará, mais pela Europa

A Alemanha foi criticada na última reunião anual do FMI em Washington. Fomos acusados de fazer muito pouco para orientar nosso poder financeiro para mais investimentos, de fazer pouco para tornar nossa economia o motor que conduz o crescimento econômico na Europa. Com seu modelo de crescimento voltado para as exportações e com seus altos superávits comerciais, a Alemanha seria a causa dos desequilíbrios econômicos na zona do euro.

Minha resposta a isso é que não devemos pensar em falsas alternativas. O fato de que a Alemanha é um exportador mais forte não significa automaticamente um crescimento europeu mais fraco. Essa é uma equação que não funciona. Primeiro: a Alemanha conquista valor agregado no comércio global que também beneficia nossos vizinhos europeus. Afinal, os produtos industriais alemães têm muitos insumos de fornecedores europeus. Nossas cadeias de valor são altamente integradas. Segundo: exportações alemãs mais fracas não alterariam o fato, por exemplo, de que a França e a Itália precisam aumentar sua produtividade para terem êxito nos mercados mundiais.

Sim, é verdade que a Alemanha pode e deve aumentar sua demanda interna. Neste outono, nós mesmos estamos sentindo como as incertezas internacionais atingem nosso crescimento. Temos de reduzir nossas expectativas para este ano de 1,8% para 1,2%. Ao mesmo tempo, a demanda interna é atualmente nossa âncora de estabilidade. Eu creio que, contra esse pano de fundo, estamos certos ao adotar o salário mínimo no próximo ano para aumentar o poder aquisitivo. Também acredito que os sindicatos e a administração -- que nós chamamos de "parceiros sociais" -- deveriam usar o espaço criado pelos ganhos de produtividade para acordar aumentos salariais acima da inflação.

E, sim, a Alemanha pode e deve investir mais para modernizar sua infraestrutura e equipar melhor suas escolas e colégios. Concordamos em aumentar as verbas do governo para isso em 23 bilhões de euros nos próximos anos. E estamos considerando atualmente como poderemos aumentar ainda mais essa quantia. No entanto, quando penso em pagar pelo investimento necessário, também penso em financiamento do setor privado. Criar as precondições para que esse capital -- em parceria com o setor público -- encontre opções de investimento lucrativas beneficiará a todos. A Alemanha tem uma alta porcentagem de poupança.

Os ativos monetários sozinhos representam mais de 5 trilhões de euros. Se pudéssemos apenas dirigir uma pequena parte deles, digamos 1%, ou 50 bilhões, para projetos úteis de infraestrutura, haveria um claro aumento em nosso índice de investimento.

Por isso, os críticos que dizem que a Alemanha pode fazer mais estão certos. Mas eu também deveria dizer que não sou amigo de altos empréstimos captados pelo governo. A experiência da zona do euro mostra que a alta dívida pública sem consideração pela capacidade de servi-la é um empreendimento arriscado. É claro, isso é igualmente verdadeiro para o setor privado. Quando se perde a confiança, as sociedades pagam um alto preço. Ao mesmo tempo, os custos muitas vezes são divididos de maneira injusta. As pessoas que contam com a capacidade do Estado de ajudá-las com o bem-estar social são as mais atingidas. Esse foi o erro cometido por alguns países da zona do euro, que estão lutando há anos. A consolidação fiscal é crucial.

Contra esse pano de fundo, o objetivo do governo alemão de apresentar um orçamento sem novos empréstimos no próximo ano é um sinal de finanças públicas saudáveis.

Acho errado pedir programas de estímulos não dirigidos. Precisamos investir mais. Mas precisamos dirigir esse investimento. Simplesmente não faz sentido gastar dinheiro em esquemas improdutivos.

Por isso precisamos falar sobre investimento e um estímulo que aumente a produtividade e a competitividade. Precisamos investir para dominar os grandes desafios que nossa sociedade enfrenta:

- o desafio de um suprimento de energia sustentável e seguro;

- o desafio de reduzir nossa dependência do combustível fóssil e melhorar nossa eficiência energética;

- o desafio da mudança climática e de reduzir as emissões de carbono;

- o desafio de oferecer a infraestrutura digital para uma internet mais rápida, a questão de digitalizar a indústria e garantir que o armazenamento e a transmissão de dados sejam seguros;

- o desafio de criar as capacidades industriais inovadoras para a mobilidade elétrica;

- e, é claro, o desafio da mudança demográfica, com menos pessoas em idade ativa, a questão de reter as capacidades e o capital humano, a questão da excelência na instrução e da integração ao mercado de trabalho.

São desafios para os quais precisamos mobilizar mais investimentos.

Quanto melhores forem as respostas da Alemanha e da Europa para essas questões, mais estável e sustentável será nosso crescimento. E quanto mais estável e sustentável for nosso crescimento mais valiosa será nossa contribuição para o desenvolvimento da economia mundial. E mais pessoas terão a oportunidade de participar dos futuros ganhos em bem-estar.

Dar essas oportunidades às pessoas é nosso maior desafio. Tenho certeza de que, dessa maneira, faremos uma contribuição fundamental para uma ordem internacional mais estável.

Estou firmemente convencido de que podemos desenvolver uma nova agenda comum em nossas relações transatlânticas. Resumindo: precisamos de progresso sustentável. Progresso que coloque nosso suprimento de energia em uma nova base sustentável. Progresso que molde a revolução digital e estabeleça um sistema de mercado justo para a economia conduzida por dados. Progresso que crie novas oportunidades para uma vida boa e segura para o maior número de pessoas possível.

Quanto melhores formos ao fazer isso, mais nossas sociedades recuperarão a confiança.

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