OPINIÃO

Com 'Prayer' e 'Woman', Kesha mostra que a melhor vingança é sua própria cura

Kesha está de volta, e, depois de passar pelas chamas, a artista está pegando fogo.

19/07/2017 16:28 -03 | Atualizado 19/07/2017 17:14 -03
Para mim, alguém que passou a maior parte da adolescência com depressão, a música de Kesha cala fundo.

Acordar e ouvir uma nova canção de Kesha é revigorante. Acordar e ouvir duas canções novas depois dos últimos cinco anos é como um nascer do sol muito aguardado após um longo inverno passado nas profundezas do Ártico. Para quem, como nós, ficou assistindo horrorizado à luta de Kesha contra Dr. Luke (que não está mais na Sony Records) nos tribunais, este novo álbum assinala o fim de uma exploração turbulenta do sufoco que pode resultar quando uma mulher jovem se envolve em um relacionamento abusivo e nas consequências que advêm quando seus sentimentos e também sua carreira estão atrelados ao poder financeiro desse homem.

Com a batalha legal ainda estava no início, algumas pessoas pensaram que Kesha estivesse simplesmente mentindo para conseguir rescindir seu contrato. A artista, sempre séria, não recuou. Em um artigo de outubro de 2016, "Kesha, Interrupted", ela explicou como enfrentou as consequências da disputa para sua saúde mental, sua carreira que deixou de existir e seu desejo crescente de simplesmente voltar para a música. O artigo apresenta a situação inteira do ponto de vista de Kesha – uma mulher que queria deixar suas roupas de festa de lado e mostrar o que realmente era como artista. O texto não apenas nos mostrou a mulher por trás da ação judicial – por trás de Tik Tok e toda a imagem festeira --, mas também o ser humano vulnerável. Foi esse artigo que destacou as origens de Rainbow, que será lançado em breve.

"Enquanto estava numa clínica de reabilitação de dependência química, Kesha escreveu uma canção chamada Rainbow em seu tecladinho de brinquedo. Sua mãe sempre lhe tinha dito que uma canção seria boa se pudesse ser cantada com acompanhamento de uma nota apenas e mesmo assim soar bem."

Quando ela escreveu o artigo, o futuro de Rainbow era incerto. A ação judicial turbulenta e contínua significava que Dr. Luke era dono da música dos próximos álbuns de Kesha. Temos que acreditar na palavra dela quando Kesha diz que a música nova dela seria bela, inspirada e nos conduziria a um mundo onde o sofrimento pode inspirar hinos.

Rainbow ainda não chegou, mas já fomos abençoados com os dois primeiros singles do novo álbum de Kesha.Praying, que termina em tom muito apropriado com as palavras "o início", é uma canção que não me sai da cabeça. Os vocais ásperos, os ecos suaves de amor entremeados por uma voz que já sentiu dor – Praying é seu próprio testemunho. Em lugar de jorrar raiva ou de soltar um grito frustrado, depois de ter passado tanto tempo encurralada, Kesha opta por abrir suas asas e desencadear uma catarata musical que não teríamos previsto, após uma carreira que começou com músicas como Cannibal e Tik Tok. Do mesmo modo como Kesha deixou de lado o símbolo de dólar, podemos ver que ela está abrindo mão também da máquina de guerra autossintonizada que é a arte feita por dinheiro.

Praying surte efeito tão profundo que mesmo uma obra que fala de sua batalha contra Dr. Luke não parece mais ser sobre ele. É a história de uma mulher que superou suas trevas, mesmo que essas trevas fossem um homem, e renasceu. Kesha não apenas conseguiu atravessar sua dor e chegar intacta ao outro lado, como conseguiu escrever algo que encontra eco em cada pessoa que já se sentiu amarrada por doença mental, traumas ou maus-tratos. Praying despe o agressor de seu poder e declara "estou bem. Estou feliz." Kesha nos ensina uma lição que é repetida desde a aurora do tempo: o perdão é nossa força maior, é a cura.

Para mim, alguém que passou a maior parte da adolescência com depressão, a música de Kesha cala fundo. Sinto meu coração vibrar com a música. As lágrimas escorrem por meu rosto quando ouço Praying. Para citar a parte mais comovente da canção, o melhor seria simplesmente lhe mandar um link.

Cada momento dela é comovente. Cada palavra ocupa seu lugar devido em uma canção que não deixa margem à dúvida: a força de Kesha não foi conquistada facilmente, mas ganhou forma em um trabalho que é inquestionavelmente arte. Qualquer crítica quanto a se Kesha é ou não uma "artista de verdade" desaparece quando ela canta...

You brought the flames and you put me through hell

I had to learn how to fight for myself

And we both know all the truth I could tell

I'll just say this is I wish you farewell

(Você trouxe as chamas e me faz passar pelo inferno

Tive que aprender a lutar por mim mesma.

E nós dois conhecemos a verdade que eu poderia contar

Vou dizer uma coisa apenas: adeus, fique bem.)

Se pensávamos que Rainbow seria uma canção poderosa somada a mais algumas músicas lentas e solenes, teremos uma surpresa agradável. O lançamento de Woman mostra que não apenas Kesha consegue mostrar seu lado emocional – ela ainda é capaz de escrever canções que homenageiam seu passado --, como consegue fazê-lo com um detalhe diferente. Em vez de uma música de festa, Kesha nos apresenta uma mensagem forte e poderosa. Se Praying fala de perdão, Woman mostra uma mulher que não pede desculpas por ser quem é. "Praying" declara que é bom perdoar aqueles que nos fizeram mal. Woman nos informa que não precisamos nos perder para fazer isso. Não precisamos pedir desculpas por sermos fortes e fazermos sucesso.

Apesar de tudo pelo qual Kesha passou, ela conseguiu dar a volta por cima de uma maneira contagiante. Quando ela berra "I'm a motherfucking Woman", damos gargalhada, mas olhamos no espelho e percebemos que quando nos aceitamos e confiamos em nossos instintos, podemos realmente crescer e descobrir quem somos. Em um texto escrito por Kesha, ela fala:

"É importante para mim que as pessoas saibam que há muitas emoções em meu álbum novo, Rainbow, mas que a energia divertida e doida que primeiro me levou a cantar não foi embora e nunca irá. Ainda sou uma filha da mãe."

Enquanto aguardamos o lançamento de Rainbow, uma coisa está clara: Kesha está de volta, e, depois de passar pelas chamas, ela está pegando fogo.

"Rainbow" será lançado em 11 de agosto de 2017 pela Kemosabe e a RCA Records.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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