OPINIÃO

O futebol do FC Barcelona: misturando política e esporte

15/08/2015 02:00 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
filipefrazao via Getty Images
Man with the flag of Brazil Spain on his face

A ansiosamente aguardada partida final da Copa del Rey de futebol começou em abril no estádio de Camp Nou, de 99 mil lugares, em Barcelona. Logo antes do pontapé inicial, Felipe VI, o rei da Espanha (a quem o torneio deve seu nome) se levantou na arquibancada, com sua expressão típica, austera e cheia de dignidade. Sobre o gramado, os jogadores dos dois times - o Athletic Club Bilbao, do País Basco, e o FC Barcelona - se enfileiraram com os braços às costas, como pede a tradição, enquanto era tocado o hino nacional espanhol.

O Rei não dava a impressão de estar se divertindo.

Enquanto o hino era tocado, os torcedores começaram a assobiar (um sinal amplamente entendido como sendo de desrespeito), e a música ficou inaudível. Soprando apitos distribuídos no início da partida, os torcedores fizeram barulho que alcançou o nível ensurdecedor de 119 decibéis. Vídeos do YouTube mostram os rostos impávidos dos jogadores dos dois times, mas também a reação consternada de Vicente del Bosque, o técnico da seleção espanhola que venceu a Copa do Mundo de 2010. Mas havia um rosto na arquibancada - o de Artur Mas, presidente do governo local catalão - que estava ao lado do Rei e não conseguiu esconder um sorriso. Todo o mundo sabia o que estava acontecendo.

Quando o hino chegou ao fim, começaram os gritos de "in, inde, independência!", e além dos cartões laranjas e vermelhos colocados sobre os assentos pelos funcionários do estádio (que, quando erguidos pelos torcedores, formam uma enorme bandeira catalã Senyera quase cercando o campo), emergiram várias das bandeiras estreladas Estelada Blava. Tanto a Senyera quanto a Estelada frequentemente são usadas como símbolos do movimento independentista catalão.

Veio à tona mais tarde que os assobios e apitos foram organizados em parte pelo grupo catalão de ação política Cataluña Acció. Seu presidente, Santiago Espot, considera a si mesmo e, por extensão, a Catalunha, vítimas do mesmo tipo de opressão exercida na Espanha dos tempos da Santa Inquisição e na ditadura do general Franco. Para ele, a Catalunha é vítima de opressão e assimilação cultural forçada. Torcedor do FC Barcelona (ou Barça) durante anos, Espot vê o esporte como plataforma válida para fazer política.

Sendo eu fruto de uma cultura jovem e altamente individualista, nascida de uma revolução contra o imperialismo, é fácil para mim ironizar a ideia de uma monarquia. Mas também é fácil notar quando desrespeito flagrante é direcionado contra uma figura de proa simbólica. Por que os torcedores de futebol no ano 2015 vaiariam o rei da Espanha? Para falar em termos simples, é graças à visão anacrônica de que os detentores do poder ainda, até hoje, oprimem sociedades que querem urgentemente ser reconhecidas como sendo distintas da identidade espanhola tradicional.

A Catalunha é um exemplo perfeito, e o País Basco também é associado há anos a uma campanha independentista própria, com manifestações famosas por sua brutalidade e violência e que parecem ter perdido força nos últimos anos. Para mim, contudo, o problema óbvio não é decidir se as queixas da Catalunha são ou não legítimas, é o lugar onde o protesto foi feito.

A Comissão Estatal espanhola contra a Violência, o Racismo, a Xenofobia e a Intolerância no Esporte expressou preocupações semelhantes, aplicando uma multa de €66.000 (US$71.900) ao Barcelona pelo comportamento de seus torcedores e por não ter reprimido um distúrbio público previsto de antemão.

O Barça considerou a multa injusta e manifestou apoio ao comportamento de seus fãs, dizendo que "reflete um sentimento que o clube respeita plenamente".

Espot e a organização Cataluña Acció também foram multados pela Comissão, tendo Espot sido citado por seu "envolvimento e participação pessoal" no protesto dos apitos.

No contexto de uma sociedade livre, vale lembrar que gritar slogans em eventos esportivos deve realmente ser visto como uma expressão de discurso que não deve ser legalmente impedida. E há quem indague: "Quem se importa com uns assobios e agitação de bandeiras numa partida de futebol?" Realmente, mesmo que os xingamentos gritados por torcedores sejam altamente ofensivos, são comuns nos esportes. E desconfio que o Rei tire o sentimento antimonarquista de letra. Mas é revelador que a própria instituição, o FC Barcelona, não apenas deixa repetidas vezes de desencorajar a mistura de política local com espetáculos esportivos internacionais, como perpetua a narrativa através de seus astros, cartolas e ícones locais e por meio de sua filosofia como um todo. O logotipo do Barça diz que a equipe é "més que un club", ou "mais que um clube", em catalão. É um slogan inócuo - a não ser que você trabalhe para o FC Barcelona, caso no qual ele é carregado de sentido patriótico e pessoal.

O incidente na Copa del Rey não é o único em que o Barça foi punido pelo comportamento de seus torcedores. A UEFA, o principal órgão que rege o futebol europeu, não gostou, por exemplo, das bandeiras e palavras de ordem políticas dos torcedores do Barça durante a final da Liga dos Campeões, em maio, contra o time italiano Juventus. O Barcelona foi multado em €30.000 (US$32.700). O presidente do clube, Josep Maria Bartomeu, reagiu às multas com vigor previsível, manifestando apoio velado aos torcedores.

"Este é um dos valores de nosso clube, e nós não vamos mudar", ele disse. "Não vou falar às pessoas 'sinto muito, vocês não podem trazer suas bandeiras ao estádio'. É uma questão de liberdade de expressão, é algo que transcende o futebol. Fazemos isso há tanto tempo - por que estão nos punindo agora?"

É claro que movimentos políticos se desenvolvem e crescem, transcendendo os esportes. Mas através dos esportes? Temas importantes como opressão, exclusão social, extermínio de uma língua e uma identidade cultural, não têm lugar ao lado de um campo onde um grupo de homens corre atrás de uma bola por 90 minutos de cada vez. Os movimentos políticos carregam uma importância que independe do esporte, por mais que o esporte possa se imiscuir nesses movimentos, e o simples fato de essa intromissão ser previsível não necessariamente a torna aceitável. Quando o FC Barcelona e seus torcedores aproveitam a visibilidade no palco mundial para promover sessões de protesto em massa e utilizar o poder multimilionário de compras da organização como instrumento de influência política, essas ações cheiram a oportunismo e apropriação indevida de recursos. Vale supor que a maioria dos torcedores internacionais do Barça, como eu (sua página no Facebook tem 85 milhões de seguidores) na melhor das hipóteses ignora a política interna da Catalunha (que tem 7,5 milhões de habitantes), por mais importantes alguns catalães se considerem. A maioria dos torcedores e analistas esportivos do Barça se ocupa homenageando os maiores craques do time - por exemplo, o argentino Leo Messi, o uruguaio Luis Suárez e o brasileiro Neymar Jr. Vale perguntar qual será a opinião deles sobre o assunto, eles que recentemente levaram o time a um trio de títulos de prestígio, a La Liga espanhola, a Liga dos Campeões e a Copa del Rey.

"Meu país é a Catalunha, e a Catalunha não é a Espanha", disse Guardiola. "Joguei na seleção espanhola porque a seleção catalã não podia participar de competições internacionais."

Em coletivas de imprensa em que representa o Barça, especialmente no palco europeu, Guardiola sempre faz questão de atribuir as vitórias de seu time à Catalunha, e não à Espanha. Isso irrita profundamente a muitos espanhóis, especialmente aqueles que, justificadamente, enxergam o Barça como uma equipe espanhola composta de jogadores internacionais.

Então o que deve fazer alguém como eu, torcedor do FC Barcelona há anos? Interpreto esses incidentes como meras peculiaridades culturais? Curto ou rejeito os insultos aos vagos símbolos do establishment espanhol? Adiro ao movimento pela independência da Catalunha? E, se não o fizer, será que de alguma maneira vou estar apoiando uma causa com a qual não me identifico? Faço de conta que "més que un club" é um lema bem-humorado e nada mais? Quando chegar a temporada da Liga dos Campeões Europeus e eu mais uma vez ficar com vontade de ir assistir a partidas de futebol com meus amigos, onde vou poder simplesmente assistir a um jogo sem de alguma maneira me envolver em assuntos políticos?

Uma ideia vem à minha cabeça. Moro a um quilômetro de outro estádio de futebol, o Santiago Bernabéu. Como madrilenho transplantado, acho que já sei por onde vou começar.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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