OPINIÃO

Uma vida sempre em movimento: a biografia de Oliver Sacks

07/08/2015 16:26 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
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"A vida precisa ser vivida para frente, mas só pode ser compreendida quando olhamos para trás". É com esta citação do filósofo dinamarquês S. Kierkegaard que o neurologista e escritor Oliver Sacks, 82 anos, inicia o relato da sua história na recém lançada autobiografia Sempre em movimento - Uma vida (Cia das Letras - do original On the Move).

O médico-escritor já havia narrado sobre sua infância e o amor à ciência no livro Tio Tungstênio, mas Sempre em movimento vai além: nos sentimos lado a lado com ele, confidentes, ouvindo as aventuras de uma vida. E, de maneira sincera e corajosa, pouco dado a formalidades, ele nos abre a sua intimidade, entrega seus sucessos e fracassos, e revela pensamentos, sentimentos, medos e desejos. Sempre defensor de uma medicina que transforma o relato de caso em uma narrativa centrada na pessoa "real", ele agora o faz consigo próprio. E como diz Sacks, "cada um de nós constrói e vive uma 'narrativa' e é definido por esta narrativa".

Embora o autor se descreva como uma pessoa tímida nas situações sociais cotidianas, o que vemos é alguém de profunda ousadia com a da vida, e curiosidade inesgotável em relação ao humano, à ciência, ao universo e à natureza. O livro narra a sua vida pessoal em paralelo a carreira médica, científica e de escritor, com pitadas saborosas de bom-humor e sagacidade. Entrelaçam-se também passagens da história da medicina, e seu relacionamento com personalidades das ciências e da literatura, tal como o A.R. Luria, Gerald Edelman, Francis Crick, Thom Gunn e W.H. Auden.

É nesse clima que o livro se desenrola e vamos descobrindo seu espírito aventureiro, livre e algo anárquico. Sua paixão por motos, velocidade, road trips estilo Easy Rider, e a busca pelo novo e pelos limites. Quando adolescente, escutou de um professor "Sacks irá longe, se não for longe demais". E de fato, ele nunca parou de ir. No seu relato ele narra momentos limites em relação ao uso de drogas nos anos 60/70, a dependência de anfetamina por anos; e o fim dessa fase com o início de uma relação importante: com seu psicoterapeuta, quem continuou a encontrar por mais de quatro décadas.

E assim vamos adentrando a vida de um homem que, desde a juventude, busca conhecer intensamente o mundo e a si mesmo. Seus primeiros anos na Inglaterra, o ano em Israel, a mudança para Califórnia e Nova York, onde de fato construiu sua vida e vive atualmente. A família tem destaque em sua narrativa: o carinho e a culpa presentes na distância, a intensa relação com a mãe, os desafios de lidar com o irmão "perdido nas profundezas da esquizofrenia", como diz o autor. Também, nos relata a descoberta de sua homossexualidade em Amsterdã, os raros casos amorosos da juventude e o enigmático período de aproximadamente 35 anos em que "abdicou" da sua vida sexual, até se apaixonar novamente aos 75 anos - relação que mantém até hoje.

Sacks parece ser muitos. Amante dos esportes - natação e halterofilismo - ele também é profundamente ligado à literatura e a música, além de cultivar interesses, digamos, particulares: samambaias, vulcões e a tabela periódica. E, claro, ao lado disto tudo temos um homem da ciência, um observador metódico e pesquisador do mundo ao seu redor. No livro ele nos narra seu fascínio pela percepção humana, pelos complexos casos neurológicos, e pela habilidade única do ser humano em se adaptar as mais diversas condições. Também, destaca alguns de seus casos emblemáticos, como o do Dr. P. e a sua prosopagnosia (dificuldade em reconhecer rostos), relatado em O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, e do grupo de pacientes com encefalite letárgica ("doença do sono") que "acordam" após o início do uso da droga L-dopa, relatado em Tempo de Despertar.

"Sou um narrador e um contador de histórias", afirma o neurologista no final do livro. A escrita é um dos seus grandes prazeres, palco central de sua trajetória, e os livros são como filhos. Mais que isto, a escrita parece ser a forma como Sacks pensa e sente o mundo, interioriza as experiências e se comunica. Suas correspondências e diálogos de cartas são fio condutor da sua vida familiar, social e acadêmica.

As histórias de Sacks ganham ainda mais intensidade quando nos deparamos com seu atual contexto de vida, pois estamos falando de um homem que está se despedindo do mundo. Sempre em movimento foi publicado alguns meses após o autor revelar, em um artigo no New York Times, seu estado terminal em razão de metástases múltiplas no fígado. Mais recentemente, em julho, ele publicou outro texto sobre como está sendo lidar com os tratamentos, o início da imunoterapia, e a proximidade da morte.

Ao ler sua autobiografia e essa série de artigos, entendemos que aquele jovem aventureiro e curioso continua ali, "sempre em movimento". Nadando diariamente apesar da fadiga, lendo e aprendendo com entusiasmo apesar dos medos. Se reinventando apesar dos limites. Repensando sua história e seu legado. Reconstruindo um sentido. E, claro, escrevendo e contando histórias, agora as suas.

Sobretudo, percebemos que estamos diante de uma rara espécie a qual pertencem grandes Homens: imortais apesar de sua finitude. E que possamos aprender com sua história e sua postura diante da vida e da proximidade da morte. E como diz Sacks: "Acima de tudo, fui um ser com sentidos, um animal pensante, neste maravilhoso planeta, e isso, em si, foi um enorme privilégio e uma aventura".

Referências:

Sacks, Oliver. Sempre em movimento - Uma vida. Cia das Letras, 2015.

Artigo New York times Fevereiro 2015)

Artigo New York Times Julho 2015.

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