OPINIÃO

Até quando, jornalismo?

22/10/2015 17:23 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

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Escrevo este artigo em resposta à Giovahnna Ziegler, que escreveu nesse mesmo jornal o artigo "Qual é a tua, jornalismo?".

Cara Giovahnna, e demais leitores,

Assim como você, também sou judeu, inclusive israelense. A diferença é que hoje moro no Brasil, mas sei bem da realidade da qual você está falando. Concordo plenamente com o que você diz: o jornalismo está cobrindo o conflito de maneira horrível. Totalmente enviesado. Mostrando apenas um lado, uma história, uma narrativa.

Faz aproximadamente um mês que começaram a falar de Israel/Palestina. Mostram como palestinos assassinam israelenses. Também mostram como israelenses assassinaram palestinos, quatro vezes mais. Mostram como o exército tem fechado o acesso de pedaços de Jerusalém, apenas aos palestinos. Mostram famílias tendo suas casas desapropriadas na parte oriental da cidade para dar espaço a mais colonos judeus. Enquanto isso, o exército prende crianças pelo crime de 'atirar pedras', uma atividade extremamente perigosa, que coloca em alto risco a vida de soldados do exército mais poderoso do mundo. Por isso digo: esta mídia é totalmente enviesada e faz uma cobertura horrível do conflito.

Todos estes absurdos cometidos pelo exército israelense não são respostas aos ferozes ataques de palestinos, mas sim uma política de ocupação, desapropriação e destruição que está em curso desde a criação do Estado Judeu. Foi em 1948, como nos contam os livros de História, a heroica vitória israelense contra os malvados países árabes, em que 800.000 palestinos foram expulsos de suas terras e mais de 500 vilas foram destruídas. Isso representava 2/3 da população nativa da Palestina histórica na época. Mas isso nem apareceu nos jornais.

Sempre que se começa a discutir o 'conflito', começamos com a ocupação da Cisjordânia e de Gaza, em 1967, quando os territórios palestinos caíram sob controle israelense. Desde então, terras tem sido desapropriada aos montes, em especial no Vale do Jordão. Incursões militares são frequentes, e palestinos são presos sem acusação. Assentamentos são construídos a cada dia, somando hoje quase meio milhão de judeus morando na Cisjordânia, algo que a ONU já considerou ilegal faz tempo.

Nesses já 48 anos de ocupação, Israel tem explorado os recursos hídricos dos territórios palestinos, deixando à população local apenas 20% da água. O restante acaba abastecendo exclusivamente os lares judaicos. Um muro está em construção e corta terrenos, vilas e cidades palestinas, dividindo famílias e separando lavradores de suas plantações. Tudo para garantir a segurança de colonos judeus, que andam em estradas exclusivas, protegidos dos malvados atiradores de pedras pelo exército mais bem armado do mundo.

O atual cerco a Gaza, que vai completar 10 anos em breve, tem levado a vida de quem lá mora a uma situação caótica. Segundo relatório recente da ONU, em 2020 o lugar se tornará inabitável, e estamos falando de mais de um milhão e meio de pessoas.

Tendo isso em mente, e ignorando mais inúmeros abusos que Israel comete além desses cotidianamente, há quase 50 anos, me pergunto: por que este 'conflito' sai no jornal apenas quando morrem israelenses? Por que sai uma matéria para cada judeu assassinado, enquanto, quando falam dos 'mortos' palestinos, mostram apenas números?

Concordo, Giovahnna, a mídia brasileira tem sido muito enviesada. Eu também fico muito triste com essa situação. Em especial ao ver judeus e israelenses, assim como eu, incapazes de enxergar naqueles que moram atrás do grande muro seres humanos; ao ver jovens saindo com facas, desesperados por sangue, assassinados com pistolas e metralhadoras, acusados de serem fanáticos, lunáticos, psicopatas, ao invés de se pensar que talvez algo esteja errado há muito tempo, levando-os a tomar uma atitude tão absurda e desesperada.

A situação sempre é retratada como um conflito entre dois lados. Como se houvessem duas forças se atacando constantemente por um território em disputa. Falta lembrar que os palestinos vivem sob uma ocupação, onde não tem o direito de tomar "medidas de segurança" contra as violações cometidas por Israel, nem existe a "legítima defesa". Enquanto os israelenses não veem a hora de acabar essa anormalidade, os palestinos - e aqueles que acreditam na sua luta - têm medo de que essa situação volte ao normal.

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