OPINIÃO

'Com aquele único clarão de luz, minha amada Hiroshima tornou-se um lugar de desolação'

06/08/2015 14:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
monkeyc.net/Flickr
The label on the back of this image says Damage of the A-Bomb at hiroshima city - View from west parade ground to Ushida district. ------------------- A series of Postcards and photographs from my Great Uncle taken at Hiroshima in late 1945 during his service with the Occupation forces. Even now these images provide a stark reminder of the hell unleashed on that day and the power of Atomic Weapons. It would be easy to condemm Truman for unleashing this power but in war things are not always so clear cut. If images like these accomplish anything we can only hope its that this scene is never seen again. The irony to me is the very existance of these postcards - I cant conceive of a time when someone, anyone, would want to send an image like this home to their family? Was there a time when we were ever proud of images like these? God help us.

Com a aproximação do 70º aniversário do bombardeio atômico de Hiroshima e Nagasaki, várias pessoas me pediram para compartilhar minhas reflexões sobre aqueles dias de 1945 em que nosso mundo mudou para sempre. A primeira coisa que me vem à mente é a imagem de meu sobrinho Eiji, de 4 anos de idade, transformado em uma criança queimada, enegrecida e inchada que ficou implorando por água, numa voz enfraquecida, até morrer em agonia. Se ele não tivesse sido vítima de uma bomba atômica, faria 74 anos este ano. Essa ideia me choca.

Apesar do tempo que passou, Eiji permanece em minha memória como uma criança de 4 anos que acabou por representar todas as crianças inocentes do mundo. Essa morte de inocentes é o que me levou a lutar sempre contra a perversidade máxima das armas nucleares. A imagem de Eiji está queimada sobre minhas retinas.

Tive a oportunidade em junho de ir a Berlim e Potsdam para encontrar cidadãos alemães e conversar com eles sobre minha experiência em Hiroshima. Alemães e japoneses viveram um trauma histórico semelhante, como Estados agressores na Segunda Guerra Mundial. Mas os governos do Japão e da Alemanha enfrentaram suas responsabilidades pela guerra de maneira decididamente distinta.

Muitos japoneses se sentiram profundamente inspirados pelo modo íntegro em que o governo alemão enfrentou o passado e lidou com as atrocidades cometidas na guerra. O discurso inspirador feito pelo ex-Richard von Weizeker no 40º aniversário da rendição da Alemanha tocou a consciência do mundo e conquistou nosso respeito profundo. Ele disse: "Nós, alemães, precisamos olhar a verdade direto no olho, sem enfeites ou distorções. Sem memória não pode haver reconciliação."

O governo japonês deveria emular esse sentimento profundo, enfrentando o passado e lidando com nossos relacionamentos ainda não resolvidos com países vizinhos, especialmente a Coreia e a China. Tragicamente, porém, o governo atual de Shinzo Abe quer ampliar o papel militar do Japão na região e abrir mão de nossa muito estimada Constituição da Paz.

Enquanto isso, nos Estados Unidos está para ser inaugurado um memorial repugnante. O Serviço Nacional de Parques e o Departamento de Energia vão criar o Parque Histórico Nacional Projeto Manhattan. Diferentemente dos memoriais em Auschwitz e Treblinka, os Estados Unidos quer preservar a história dos sítios antes ultrassecretos de Los Alamos, Oak Ridge e Hanford, onde cientistas internacionais desenvolveram a primeira bomba nuclear do mundo, como uma espécie de celebração daquela "conquista" tecnológica. Um dos primeiros chamados "êxitos" desse esforço foi a criação do inferno sobre a terra em minha amada Hiroshima.

Quando eu era colegial de 13 anos, vi minha cidade de Hiroshima ser cegada pelo clarão, achatada pela explosão, como um furacão, queimada no calor de 4.000 graus Celsius e contaminada pela radiação de uma única bomba atômica.

Milagrosamente, fui resgatada dos escombros de um prédio que desabou, a 1,8 quilômetro do Ponto Zero. Quase todas minhas colegas de classe, na mesma sala, morreram em chamas. Ainda consigo ouvir suas vozes gritando por socorro, chamando por suas mães e por Deus. Quando escapei, com as outras duas garotas sobreviventes, vimos uma procissão de figuras fantasmagóricas arrastando-se lentamente do centro da cidade. Pessoas grotescamente feridas, com as roupas em farrapos ou totalmente destruídas pela explosão, deixando-as nuas. Partes de seus corpos estavam faltando; a carne e a pele estavam dependuradas de seus ossos. Algumas tinham os globos oculares pendurados para fora e os seguravam com as mãos. Outras tinham o abdome explodido e os intestinos escapavam para fora.

Com aquele único clarão de luz, minha amada Hiroshima tornou-se um lugar de desolação, onde pilhas de esqueletos e corpos enegrecidos se amontoavam por toda parte. De seus 360 mil habitantes, em sua maioria mulheres não combatentes, crianças e idosos, a maioria virou vítima do massacre indiscriminado do bombardeio atômico. Até hoje, mais de 250 mil pessoas morreram em Hiroshima dos efeitos da explosão, do calor e da radiação. Ainda hoje, 70 anos depois, pessoas estão morrendo dos efeitos tardios daquela bomba atômica, considerada primitiva pelos padrões atuais de destruição em massa.

A maioria dos especialistas concorda que as armas nucleares são mais perigosas hoje do que foram em qualquer outro momento da história humana, devido a uma grande gama de riscos que incluem: ameaças geopolíticas, erro humano, defeitos de computadores, falhas de sistemas complexos, contaminação radiativa crescente do meio ambiente e o custo dela sobre a saúde pública e ambiental, além da fome global e do caos climático que ocorreriam no caso de um uso limitado de armas nucleares ser feito de modo acidental ou intencional. No entanto, poucas pessoas compreendem realmente o que significa viver em uma era nuclear.

É por isso que me alegro ao testemunhar o desenvolvimento recente de um movimento global que envolve colaborações entre Estados Não Dotados de Armas Nucleares e ONGs para alcançar a eliminação das armas nucleares. Este movimento está reformulando o problema das armas nucleares, deslocando o enfoque, que antes era dado à credibilidade da dissuasão e às questões técnico-militares, para a questão das consequências humanitárias. O resultado é uma campanha forte para um Tratado de Proibição Nuclear, que dará início a um processo de desarmamento nuclear. Noruega, México e Áustria estão colaborando com a Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares e com o Comitê Internacional da Cruz Vermelho (CICR) para organizar três bem-sucedidas Conferências Internacionais sobre o Impacto Humanitário das Armas Nucleares.

Ao final da conferência mais recente, em Viena, em dezembro passado, o governo austríaco anunciou a "Promessa Austríaca" de lutar legalmente pela proibição e eliminação de armas nucleares. Hoje descrita como a Promessa Humanitária, ela tem o apoio de 113 países que conclamam os Estados Dotados de Armas Nucleares e aqueles que se posicionam ao lado deles a dar início a um processo de desarmamento nuclear.

Para reiterar as palavras de Richard von Weizeker: "Precisamos olhar a verdade direto no olho, sem enfeites ou distorções". A verdade é que todos nós convivemos com a ameaça diária das armas nucleares. Em cada depósito nuclear, em cada submarino, nos compartimentos de bombas de aviões, a cada segundo de cada dia, há milhares de armas nucleares em estado de alerta alta, prontos para serem postos em uso, ameaçando todos que amamos e tudo o que nos é precioso.

Por quanto tempo mais podemos permitir que os Estados Dotados de Armas Nucleares lancem esta ameaça contra toda a vida na Terra? É chegada a hora de agir para criar um quadro legalmente compulsório que proíba as armas nucleares, como primeiro passo para sua abolição total. Exorto urgentemente a todos que amam este nosso mundo que adiram ao movimento global crescente. Façamos desde 70º aniversário do bombardeio atômico de Hiroshima e Nagasaki o marco apropriado para conquistar nosso objetivo: abolir as armas nucleares e proteger o futuro do único planeta que é de todos nós, a Terra.

Setsuko Thurlow é assistente social aposentada e ativista incansável pela paz. Sua luta incansável pelo desarmamento nuclear lhe valeu o reconhecimento do Ministério das Relações Exteriores japonês, e ela recebeu a Medalha da Ordem do Canadá, o maior louro dado a civis canadenses. Seu nome foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz de 2015.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.

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