OPINIÃO

A cruz que temos de carregar

18/06/2015 18:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02
Africa Renewal/Flickr
Sean Penn at UNDP Meeting on Haiti. Photo: Africa Renewal / John Gillespie

Por um acidente da vida, em 2010 me vi como CEO da first, uma organização de ajuda emergencial cujo foco é o desenvolvimento do Haiti. Hoje, quase seis anos depois, aquela organização, J/P HRO, emprega cerca de 300 haitianos em tempo integral (um número que oscila de acordo com a disponibilidade de recursos). Estamos envolvidos em vários setores, incluindo saúde, engenharia, educação, moradia e realocação. Em vários níveis, trabalhamos com assistência psicossocial, prevenção e educação de violência contra mulheres e várias outras necessidades que nos foram comunicadas por milhares de haitianos e haitianas de todos os setores e também por seus líderes. E sim, também pelos consultores internacionais.

O próprio conceito de ajuda é, e acredito que deva ser, uma exploração constante das sociedades e de si mesmo. Para os estrangeiros envolvidos em projetos de ajuda em outros países, sem falar em suas próprias casas, ou diante do espelho, a luta é constante. A ideia desse artigo não é fornecer debates estatísticos, defesa ou críticas. Mais que isso, é o senso mais atual do praticante em relação à exploração mencionada acima.

Fui provocado pelas críticas recentes que Justin Elliot, do ProPublica, e Laura Sullivan, da NPR, fizeram das atividades e despesas da Cruz Vermelha Americana em resposta ao terremoto de 2010 no Haiti, no artigo intitulado "Como a Cruz Vermelha arrecadou meio bilhão de dólares para o Haiti e construiu seis casas" . Transparência total: minha organização J/P HRO recebeu apoio financeiro da Cruz Vermelha Americana no total de 2 987 000 dólares. Esse número não reflete o apoio maior e sustentado da Cruz Vermelha para nossos esforços, começando pelo fornecimento de milhares de lonas simplesmente para providenciar abrigo das tempestades que se seguiram ao terremoto, além de outras contribuições. A Cruz Vermelha Americana ofereceu apoio não-reconhecido a várias organizações, como o repasse de dezenas de milhões de dólares para a distribuição de alimentos para haitianos desabrigados imediatamente depois do terremoto. A lista poderia continuar e nos trazer de volta a lugar onde estamos factualmente no dia de hoje, e aonde poderíamos estar em espírito, se tivéssemos escolhido nos envolver na ajuda internacional.

O Haiti é, de tantas maneiras, como qualquer outro lugar do mundo. Onde é mais pobre, também é mais resiliente e, talvez, mais imaginativo. Onde é corrupto, sua anticorrupção é heroica. Onde é amargo, esse é um julgamento que só o próprio país pode fazer de si mesmo. E onde tem esperanças, merece cuidados, irmandade, compaixão e respeito. Como outros lugares, ele é recompensado e rejeitado. Fora de minhas relações pessoais e familiares, foram o Haiti e os haitianos que mais me ensinaram e tocaram. Ainda assim, vida e ajuda continuam sendo exploração. Como em todos os aspectos da vida, a própria transparência se torna um equilíbrio entre percepeção e sobrevivência. Identidade e agenda. Estratégia e força de vontade. Mas, sempre que essas coisas dependem de dólares e centavos, acolhida da mídia ou supervisão, os sistemas de controle estão nas mão de atores e suas estreitezas pessoal, institucional e societária, e dependemos mais de nossos corações e mentes para determinar qual é, ou qual se tornou, a percepção mais importante. Como contestar isso? Como nos levantamos? Primeiro, com auto-reflexão e gratidão.

Tenho trabalhado no Haiti com pessoas que considero heróis. Isso deu origem a essa reflexão. O que vi com meus olhos me fez grato a essas pessoas. O vi com meus olhos me fez grato à Cruz Vermelha Americana. Por seus detratores, certamente serei acusado de coisas sobre as quais não ousarei especular aqui. Por seus beneficiários, tenho a maior solidariedade. Minha esperança ao escrever este artigo é que aqueles que escolhem investir em suas próprias casas, seja de coração, de cabeça, de corpo ou de carteira, que isso seja mais importante que alvejar este autor, ou uma defesa de qualquer outra pessoa ou organização. Em vez disso, que sirva como um simples incentivo para olhar detidamente no que ainda é mais uma pergunta que uma resposta.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.