OPINIÃO

A globalização causa guerras?

30/01/2015 10:05 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

É fácil argumentar que a globalização não leva necessariamente à paz. O exemplo costumeiro é o do comércio entre alemães e britânicos, que ia muito bem até o começo da Primeira Guerra. Argumentar que a globalização leva à guerra é outra coisa, muito diferente. Em seu novo livro, When Globalization Fails: The End of Pax Americana (Quando a globalização fracassa: o fim da pax americana, em tradução livre), James Macdonald chega audaciosamente perto de mostrar que a globalização, um sistema de interdependência entre os grandes países, é um sistema inerentemente instável, que gera insegurança entre as grandes potências. A interdependência alimenta a insegurança.

"Interdependência alimenta a insegurança."

Macdonald espreme muita coisa em um livro de cerca de 250 páginas. Ele traça, dos anos 1820 até hoje, o movimento de pêndulo entre as economias abertas, de um lado, e as fechadas e protegidas, do outro. Como a economia mainstream de hoje - com seus princípios de busca de vantagens competitivas por parte de atores como os Estados - favorece o livre comércio, e como os benefícios do livre comércio nos últimos 25 anos parecem tão óbvios, vemos relativamente pouca discussões sobre os benefícios da autarcia ou do protecionismo. Macdonald corrige isso. De maneira alguma ele é contra o comércio ou a globalização, tampouco defende o protecionismo. Ele aborda o assunto como historiador, com uma imparcialidade que provavelmente lhe serviu bem em sua longa carreira de banqueiro. (Macdonald também é autor de A Free Nation Deep in Debt: The Financial Roots of Democracy - uma nação profundamente endividada: as raízes financeiras da democracia, em tradução livre --, de 2006, que, apesar do título, diz respeito ao empoderamento.) Ele está simplesmente tentando enxergar o mundo como ele é, descrevendo-o com clareza.

Protecionismo, como uma maneira de garantir a auto-suficiência e, portanto (como se pensava), a segurança nacional, era mais ou menos a regra até o século 19 e a industrialização. Como escreve Macdonald:

A Revolução Industrial levou a migrações em massa do campo para as novas cidades manufatureiras. Apesar de a industrialização ter sido acompanhada de uma revolução agrícola que aumentou constantemente a produção de comida, havia um déficit crescente entre o que o interior conseguia produzir e as necessidades de uma população urbana em expansão. Ao mesmo tempo, as fábricas estavam produzindo uma quantidade de bens manufaturados maior que a que poderia ser absorvida dentro do país e para a qual eram necessários mercados externos. A solução para ambos os problemas era o livre comércio, que abriria a Grã-Bretanha para a importação de comida barata e os países estrangeiros, para as exportações dos produtos manufaturados britânicos.

A ligação entre esse fenômeno e a paz foi feita, entre outros, por Richard Cobden , o grande defensor do livre comércio que buscava derrubar as "barreiras que separam as nações... atrás das quais se abrigam os sentimentos de orgulho, vingança, ódio e inveja, sentimentos que às vezes se libertam e inundam países inteiros de sangue; sentimentos que nutrem o veneno da guerra e da conquista, que afirmam que sem conquista não podemos ter comércio, que incentivam a luxúria da conquista e da dominação, que levam os chefes guerreiros a permitir a devastação de outras terras."

Cobden via o comércio como a solução para o problema crônico das guerras por território, incluindo as expansões imperiais. Essa brilhante possibilidade geopolítica se fundiu com a realidade econômica de que, na maioria dos casos, uma industrialização sem comércio - ou sem a dependência de outras potências - era difícil, se não impossível.

Os grandes desestabilizadores desse sistema têm sido questões de precedência e de matérias-primas. Ser pioneiro em certos avanços industriais, como moinhos movidos a vapor, oferecia grandes vantagens; de fato, pode-se dizer que eles criavam vantagens competitivas onde elas antes não existiam. Para nações que chegavam um pouco atrasadas, as emoções identificadas por Cobden - orgulho, vingança, ódio e inveja - poderiam surgir até mesmo em situações de livre comércio, pois o país atrasado poderia se considerar em situação de desvantagem séria e quiçá permanente. Um recurso comum para nações que corriam atrás do prejuízo era evitar as importações de bens manufaturados até que suas indústrias nascentes pudessem crescer o suficiente para concorrer com as dos países que haviam saído na frente. Isso se fazia de várias maneiras, é claro, seja com políticas assassinas (a coletivização da agricultura e a industrialização forçada da União Soviética) ou meramente autoritárias (Coreia do Sul nos anos 1960), e poderia ser financiado por investimentos estrangeiros (os Estados Unidos depois da Guerra Civil), manipulação da moeda (China nos anos 1990) ou expropriações.

Em alguns poucos casos, a outra questão central - acesso a matérias-primas - poderia ser evitada por pura sorte. Os Estados Unidos tiveram muita. Sempre que um avanço industrial exigia um novo tipo de material -- seja madeira, carvão, minério de ferro, petróleo, gás etc. --, o país sempre parecia ter suprimentos suficientes à mão. (Uma exceção são minérios raros necessários para os eletrônicos. A Rússia teve sorte parecida, assim como a China nos anos 1990, com amplas reservas de carvão e, durante certo tempo, de petróleo. Os suprimentos de carvão e ferro também foram cruciais para a primeira expansão industrial britânica.

Mas a maioria dos países não teve a mesma sorte. Macdonald descreve de maneira excelente os altos e baixos da competição franco-alemã por carvão e ferro, de certa forma um ponto central nos conflitos internos na Europa entre meados do século 19 até a Segunda Guerra. Ele faz o mesmo com o Japão, que cobiçava os recursos da Manchúria (minério de ferro e carvão; a conquista veio em 1931) e com o subcontinente indiano e o Sudeste Asiático (petróleo, borracha e latão, 1942). Mais uma vez, como na industrialização, pioneiros como Grã-Bretanha e França, com o acesso a matérias-primas graças a expansões imperiais na África e na Ásia no século 19, criaram vantagens para si mesmos. Potências industriais ambiciosas, como Japão, Itália e Alemanha, chegaram atrasadas ao jogo da expansão imperial, mas com esperanças ardentes de superar as vantagens prévias de britânicos, franceses e americanos.

"De qualquer modo, estamos adentrando tempos perigosos."

Como mostra Macdonald, nações ambiciosas que não dispunham daquilo que consideravam necessário para garantir sua industrialização - grosso modo, todos os países tirando os Estados Unidos e, com exceção de um porto de águas quentes, a Rússia - se tornavam agressivas, por medo. Isso era próximo o suficiente de um jogo de soma zero, o que torna inerentemente instável um sistema multipolar. As dinâmicas mutáveis de insumos industriais combinada com sua natureza finita (considere as reservas de petróleo chinesas, ou a nova demanda industrial por minérios raros) garante que qualquer resolução desse problema estará permanentemente sujeita a mudanças aleatórias das suas condições básicas. Escreve Macdonald:

Em um mundo multipolar e competitivo, governos lidavam com um 'dilema do prisioneiro': cooperar ou competir? Países pequenos poderiam muito bem confiar na proteção da Marinha Real para seu comércio exterior. Mas será que essa era uma aposta segura para países como a Alemanha, grandes o suficientes para representar uma ameaça econômica e portanto política para a Grã-Bretanha? Dadas as circunstâncias, era lógico para a Alemanha competir por colônias e investir numa força naval. Mas a tentativa de garantir a segurança para um país era potencialmente ameaçadora para outros, o que levava a uma profecia autorrealizável... A busca por auto-suficiência aumentava a probabilidade de guerras, em vez de diminui-la.

Mesmo no caso extravagante dos Estados Unidos, a auto-suficiência tinha efeitos desestabilizadores. Nações que dependiam das exportações americanas (particularmente de comida, mas também de capital) se sentiam vulneráveis diante do poderio americano. Os debates sobre a exportação de gás natural e petróleo para os Estados Unidos (ou os debates recorrentes sobre a "segurança alimentar", ou mesmo a questão da governança da internet) sugerem um potencial isolamento americano cheio de implicações estratégicas para outras potências. Os Estados Unidos são grandes demais para tomar decisões só para si mesmos; os americanos podem até acreditar nisso, mas ninguém mais o faz.

Diz-se que a volta da independência energética dos Estados Unidos também está mudando a perspectiva geopolítica. Ela não vai somente aliviar as pressões sobre o suprimento global de petróleo e gás natural como vai significar também que há menos razões para os Estados Unidos se envolverem na perigosa competição pelo petróleo do Oriente Médio ou das ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central. ... Por trás dessa linha de argumentação está o renascimento de uma teoria prevalente nos anos 1930 segundo a qual a auto-suficiência é um caminho para a paz. O problema, é claro, é que os Estados Unidos eram auto-suficientes em petróleo nos anos 1930, mas isso não impediu as guerras.

O que isso significa? Madonald tem a coragem de acompanhar suas próprias evidências e sua lógica aonde elas o levarem, mas o destino é sombrio. Ele observa que a atual política americana é a contenção da Rússia e da China e defende que esses dois países sejam trazidos para perto dos arranjos de segurança do Ocidente. Ele também advoga um compartilhamento consensual dos recursos naturais do Mar da China. São duas boas ideias, mas elas não são novas e parecem jogadas.

Mais para o final, Macdonald se pergunta se a maior ameaça ao livre comércio poderia ser justamente a globalização que o Ocidente tanto incentivou. O resultado inevitável desse processo foi a incorporação de bilhões de trabalhadores de baixa renda à economia global, o que levou a um arrocho prolongado da classe trabalhadora e, na sequência, da classe média dos países desenvolvidos. Essa é uma ideia que merece ser considerada. A maioria dos países desenvolvidos são democracias, e as pessoas afetadas pelo arrocho salarial têm direito a voto. A política europeia foi revigorada por partidos antielite e muitas vezes nativistas que vêm conquistando 10%, 20%, 30% dos votos, como se viu recentemente na Grécia.

A estagnação econômica e o renascimento nacionalista também coincidiram no Japão. Nos Estados Unidos, o discurso do Estado da União do presidente Obama mirou diretamente na população que sofre com esse arrocho. A dinâmica política dos países desenvolvidos é cada vez mais focada no que pode ser chamado de um movimento levemente antiglobalização, com uma visão de mundo colorida por uma identidade nacional-cultural muitas vezes sem formas definidas.

Outra classe média foi afetada pela globalização, justamente a que foi criada pela promoção do livre comércio mundial nos últimos 25 anos: a da China, da Índia e de outros países. As expectativas dessa nova e enorme massa populacional parece ser relativamente consistente: ela quer sentir e afirmar o orgulho nacional e não quer perder o que conquistou. Seus líderes eleitos (Narendra Modi) e não-eleitos (Xi Jinping) valorizam a ênfase na identidade nacional como forma de reforçar e defender seu próprio poder. A Rússia, como sempre no meio do caminho, também vive um renascimento do sentimento nacionalista, com um forte elemento imperial.

Classes médias nacionalistas e instáveis não podem ser subestimadas como forças políticas. Elas tendem a ter um senso mais forte de sua própria importância, quando comparadas a classes mais baixos. Isso ajuda a explicar por que o espetacular crescimento na renda dos 50% mais pobres parece ter tão pouco impacto político direto, por maior que sejam seus efeitos na qualidade de vida da humanidade. A classe média de países mais autoritários, como a China, podem até mesmo ter demandas mais fortes, enquanto classe, do que nas democracias, pois sua ascensão sob um "capitalismo de estado" poderia levar a maiores expectativas em relação ao estado. Pode-se imaginar a desigualdade de renda como uma questão genuinamente estratégica.

Se nosso mundo multipolar caminha na direção da análise de Macdonald, esperaríamos mais regionalização sob a direção de uma ou outra força regional hegemônica - e não parece ser este o caso, apesar de tendências de equilíbrio como a melhoria das relações entre Índia e Estados Unidos, que resgataram a Organização Mundial do Comércio. Na Ásia Central, a União Econômica Eurasiana e a Nova Estrada da Seda chinesa se enfrentam em duelos de poder regionais. As economias asiáticas baseadas em exportações também se tornam mais regionais: as exportações asiáticas são cada vez mais consumidas dentro da própria Ásia, já que a demanda dos países ricos se enfraqueceu. E, por maior que seja a extensão do "re-shoring" , a ideia de manter a produção perto de casa capturou a imaginação política do ocidente. Enquanto isso, todas as grandes potências estão concentradas em reforçar os arranjos de segurança regionais, e todas as potências emergentes estão construindo suas defesas, incluindo as armadas de águas azuis , cujo principal propósito "defensivo" é defender rotas de suprimentos de materiais.

Existem enormes diferenças entre as eras de hoje e as anteriores, quando a dinâmica da globalização levou a conflitos de grande escala. As armas nucleares são uma delas; a falta de pressões de crescimento demográfico nas economias avançadas é outra. De qualquer modo, estamos adentrando tempos perigosos.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.

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