OPINIÃO

Saco de sementes

04/04/2014 14:18 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02
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No armário da cozinha tenho um saco de sementes de girassol que eu trouxe da Ucrânia quando viajei para visitar meus pais. Era meu último dia em Odessa, cidade onde fui criada, quando meu pai sugeriu visitar o amigo dele em Kiev. "Dyadya (tio) Petya vai te buscar no trem e te levar no aeroporto. Ele também quer que você fique na casa dele descansando antes da sua longa viagem para o Brasil", disse meu pai mostrando a gentileza do seu "tovarisch" (camarada) dos tempos da universidade.

Fiquei feliz que meu pai ainda tem pessoas importantes na vida dele. Para a maioria dos ucranianos isso é raro. Por quê? "Porque perdemos o respeito e a humildade. Ninguém mais quer assumir os erros e pedir desculpa ao outro, sabe?", tentou explicar meu pai.

E eu concordo com ele. Também percebi que algumas pessoas que eu conheço de lá buscam a amizade por interesse. Somente se aproximam a alguém se a tal pessoa tem contatos importantes ou se a família dela tem grana ou se ela pode ajudar a conseguir um emprego, etc etc. A "drujba", amizade em russo, não tem mais o valor que eu gostaria que tivesse. As pessoas, infelizmente, desacostumaram a falar "me ajude" ou "seja bem-vindo ao nosso grupo". Elas guardam dentro de si seus verdadeiros sentimentos por medo de serem julgadas ou mal entendidas, talvez... Não choram na frente dos amigos, não mostram como os amam nem como os valorizam.

Já estava na rodoviária quando meu pai me avisou para não esquecer de entregar a camiseta do Brasil que eu trouxe para tio Petya. "Ele está doido pra te ver!! Quanto tempo vocês não se vêem? Cinco ou seis anos? Foi na sua primeira viagem ao exterior que dormimos na casa dele e depois fomos ao aeroporto juntos, lembra?", mergulhou em memórias, papai.

No dia seguinte, encontrei o tio Petya e entreguei a camiseta pra ele. Deu pra perceber que ele adorou! "Tenho presentes para você também!", diz ele abrindo a minha mala e enfiando dentro um saco de sementes de girassol. "Não precisa, por favor!", eu estava tentando ser educada e também pensava no extra peso que provavelmente ia ter que pagar na hora de embarcar. Mas óbvio que o amigo do meu pai não me ouviu e eu também não falei mais nada. Já no aeroporto, ficamos um tempão conversando sobre vida, algumas memórias, juventude do meu pai... Dyadya Petya não queria me deixar sozinha. Ele tinha as coisas dele para resolver, mas ficou fazendo companhia para mim, para filha do seu melhor amigo.

Já dentro do avião eu lembrei que tinha esquecido meu casaco na casa dele. "Ah, deixa!", pensei. Significa que vou voltar de novo. O velho provérbio russo diz que quando se esquece alguma coisa em algum lugar, com certeza retorna para buscá-la.

Cheguei em São Paulo e nem passou um mês, quando recebi a notícia que tio Petya tinha morrido. Foi um AVC. Desesperadamente eu corri para cozinha, abri o armário, tirei de lá o saco de sementes e comecei a chorar. Não lembro quanto tempo eu fiquei chorando enquanto lembrava da nossa última conversa. Nunca imaginaria que esse simples saco de sementes se tornaria um dos presente mais valiosos que já recebi na vida.

O saco de sementes mostrou para mim como é importante dar valor às pessoas enquanto estão vivas, aproveitá-las 100%. Porque a vida é cheia de imprevistos e a morte faz parte do seu ciclo natural. Um dia você pode ter a pessoa ao seu lado e, no outro, somente um pacote de sementes de girassol.