OPINIÃO

Os 20 centavos da Ucrânia

10/02/2014 09:59 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
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KIEV, UKRAINE - FEBRUARY 9: The anti-government protests keep going on in Kiev, Ukraine, February 9, 2014. (Photo by Burak Akbulut/Anadolu Agency/Getty Images)

Eu tenho um primo formado em medicina. Durante o dia ele é médico, à noite faz bicos como taxista e no fim de semana administra uma barraca de bolsas falsas no mercado emergente de Kiev. Ah, ele também sempre carrega consigo uma carteira falsa da polícia que o garante algumas vantagens. Recentemente, Vadim largou sua esposa com um filhinho de 3 anos e uma menina de 10, do primeiro casamento dela. Desempregada, a moça não tem muita perspectiva de uma vida boa para os próximos anos.

Infelizmente, os problemas do meu primo e sua esposa são os mesmos problemas de milhões de ucranianos. Em um país onde a corrupção, altas taxas de desemprego, péssima saúde pública, falsa democracia e falta de liberdade de expressão tomam conta do dia-a-dia das pessoas e se refletem em um cenário social bem precário.

E isso vem acontecendo há muito tempo. Desde a URSS, ou melhor, desde o mandato de Stalin (1922-1953) quando qualquer pensamento diferente do governo era perseguido. Você não poderia nem sussurrar algo que não gostasse sobre a gestão do país, porque os ouvidos de Stalin estavam em todos os cantos. E hoje, no século 21, o Yanukovich está repetindo uma trajetória bem parecida. Em 2013, por exemplo, ele aprovou uma lei que permite realizar a audiência judicial sem a presença do réu. O Stalin já fazia a mesma coisa algumas décadas atrás.

Em novembro desse ano, havia uma esperança de que alguma coisa boa fosse acontecer e mudar a história do país. A Ucrânia poderia dar um passo em direção à UE, e se distanciar do fantasma russo que a fica perseguindo desde sempre. Mas isso não aconteceu, já que o presidente Viktor Yanukovich preferiu ficar do lado do governo Putin, que o apoiou nas eleições presidenciais em 2010.

Talvez fosse essa a sensação que o brasileiro deve ter sentido ao saber que uma Copa do Mundo poderia trazer algo de bom pro país. Mas não trouxe, e nem vai trazer. Em junho do ano passado, a situação no Brasil foi parecida com a da Ucrânia. Os protestos que sacudiram o país começaram com o aumento das passagens de ônibus de R$ 3 para R$ 3,20, mas isso não significou que o povo saiu às ruas para lutar por aqueles centavos. Esse ato do governo foi a gota d'agua e um motivo forte para levantar questões como corrupção, pobreza, criminalidade, condições de hospitais e escolas. E os ucranianos também não saíram às ruas no frio de -10ºC apenas para conseguir a entrada para poder passar férias na Europa sem precisar de visto.

Li um artigo no site Business Insider que listou algumas razões dos protestos ucranianos.

Pelos direitos e não pela União Europeia

A Ucrânia é um país que sempre foi oprimido por seus vizinhos. Até século 19 suas terras eram divididas entre Lituânia, Moldávia, Hungria, Polônia e Rússia, e depois da revolução de 1917 o país virou a República Socialista Soviética da Ucrânia (RSSU). Por mais de 70 anos, o povo viveu totalmente controlado pela Rússia, com língua oficial russa nas escolas e empresas governamentais. Em 1991, quando a Ucrânia finalmente ganhou a independência que sempre quis, foi "presenteada" com um governo que não mereceu: extremamente corrupto, que não ligava para as necessidades e os direitos do povo. Quando as manifestações começaram e a Berkut (polícia especial de Kiev) as conteve de forma violenta, foi aí que o povo quis mostrar mesmo que está mais que na hora de existir uma democracia ucraniana.

Na verdade... O presidente ucraniano Viktor Yanukovich é um dos motivos principais para protestar

Só parece que as eleições na Ucrânia ocorrem de forma democrática. Como eu morei lá por muitos anos, sei que a corrupção é forte ao ponto de falsificar os votos. Aliás, esse foi um dos motivos da Revolução Laranja de 2005. E como votar não é uma obrigação do cidadão, já ouvi muito: "Não adianta eu ir à eleição, o presidente já está escolhido."

Assim que o presidente chegou ao poder, a Ucrânia passou de uma república parlamentarista e se tornou presidencialista. Hoje, apenas ele quem manda em todos os órgãos fiscais, procuradores e tribunais. O tamanho de seu poder fica claro com o emprisionamento da líder da oposição, ex-Primeira Ministra Yulia Tymoshenko por abuso de poder e pelo fato de ter nomeado filho Aleksandr como o dono dos principais canais de televisão e editoras do país. Hoje, o "Yanukovich Jr" é considerado o quinto homem mais rico do país. A ideia de ter uma panelinha de família no poder fez alguns ucranianos procurarem notícias apenas através de canais independentes da internet.

Os jornalistas políticos e econômicos têm uma vida difícil

A Ucrânia tem pouca mídia independente na internet e, por incrível que pareça, algumas regiões do país que fazem a fronteira com a Rússia nem sabem o que está acontecendo na capital. Isso acontece porque os principais canais de televisão simplesmente omitem informações. Segundo Taras Ilkiv, autor da matéria A Ukrainian Journalist Explains 10 Things The West Needs To Know About The Situation In Kiev, até agora, a internet era o porto seguro dos ucranianos, mas, no mês passado, o presidente Yanukovich assinou uma lei que permite o fechamento de sites que passem informação diferente da TV aviso prévio. Sofrer pressão por publicar a verdade não é nada novo para os jornalistas ucranianos. O exemplo disso é a assassinato do repórter Georgiy Gongadze, criador do site de notícias Ukrayinskaya Pravda. O corpo dele foi encontrado decapitado numa floresta perto de Kiev em 2000, logo após a publicação de matérias sobre corrupção no governo do presidente da época, Leonid Kutchma. Outro exemplo é mais recente de 2013 quando uma jornalista ucraniana, Tatyana Chornovol, que escreveu sobre a "ostentação" e riqueza do Yanukovich, foi agredida fisicamente por homens desconhecidos.

Fora do controle

- As faculdades ucranianas são corruptas. Passar na prova ou pegar uma nota boa custa uma notinha verde (sim, na Ucrânia, dólar é a moeda que circula quando o assunto é propina).

- Os hospitais, mesmo da capital e outras cidades grandes, têm serviços muito pobres, falta higiene e são cheios de médicos corruptos. A maioria deles trabalham em parceria com laboratórios e, por isso, prescrevem medicamentos que, em muitos casos, pouco ajudarão na recuperação dos pacientes. Eu já vivenciei algumas situações assim. Na primeira me passaram um remédio para micose para tratar uma dor na coluna e, na segunda, quando a minha avó morreu porque a injetaram a dosagem errada.

- Segundo os dados da Unicef, Ucrânia é o país mais afetado por AIDS na Europa. O número estimado de pessoas infectadas (entre 15 e 49 anos) é 440 mil, isso para uma população de 48 milhões. Isso é aproximadamente 1,63% da população adulta. As cidades com índices mais altos são: Kiev, Odessa e Donetsk.

- Os ucranianos não conseguem viajar para lugar nenhum da Europa sem um visto, que aliás tem valor inalcançável para um ucraniano médio, sem mencionar um processo burocrático complicadíssimo. Quase todos os vistos que os ucranianos tentam emitir para visitar algum lugar na UE são negados.

- Corrupção é o maior problema da Ucrânia. Ela está em todos os lugares. Segundo o site pravda.com.ua, no dia 03/02, os manifestantes do Maidan Nezalezhnosti (a praça central de Kiev), no lugar de derrubada estátua de Lenin colocaram uma privada pintada de tinta dourada para fazer uma crítica à sociedade corrupta e para reforçar um boato que na residência do Yanukovich tem um vaso sanitário igualzinho a esse só que é feito de ouro puro.

O canal de TV ucraniano TSN (TCH) fez um vídeo para mostrar os últimos acontecimentos na Ucrânia.