OPINIÃO

Mãe, desculpa... Nasci assim

12/03/2014 09:21 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Quando estava em Odessa, na Ucrânia, em julho do ano passado, reencontrei com duas amigas. Uma estava grávida e outra estava querendo engravidar o mais rápido possível. As duas têm 24 anos.

Convidei-as para conversar e para tomar um chazinho de samovar (um bule tradicional russo de metal) em casa, com bombons e bolachas. E a nossa conversa foi longe. Quero dizer, longe para mim, já que a noite inteira falamos só sobre gravidez e filhos.

Contei para elas que pretendo ter filho lá por volta de 35 anos porque acho que isso é uma responsabilidade imensa. Quero viajar, focar na carreira, escrever um livro... Quero viver a minha vida primeiro, antes de dar uma vida para alguém. Para mim, tudo isso estava tão claro. Só que as minhas amigas me acharam uma egoísta. E para falar verdade, eu já sabia que seria assim e por isso ignorei os comentários. Ao invés disso, desviei o assunto para a adoção. "Eu adotaria um filho! Por que não?", joguei na cara delas. As duas me encararam de uma maneira tão estranha que parecia que eu falei alguma besteira. "Adotar? Sasha, você entende o que você está dizendo?", uma me perguntou. "Pensa na genética desta criança que estava em orfanato? Os pais biológicos provavelmente eram drogados ou bandidos! Quer criar mais um no mundo?", outra disse agressivamente. Juro que naquela hora pensei em largar a minha caneca de chá e me servir algo mais forte para acalmar a raiva que estava subindo rapidamente. Levantei e disse: "Gente, se tudo fosse pela genética, eu estaria ferrada já faz tempo! Alguns parentes meus são alcoólatras, usuários de drogas e outros já foram presos, e nem por isso eu tomei o mesmo caminho. Pelo contrário, o lado sombrio da minha família me ajudou a entender desde cedo o que era bom e o que era ruim. Os valores e ideais que eu tenho hoje não vieram com a genética, mas foram adquiridos com as experiências da vida".

Enquanto eu falava, as meninas tomavam chá totalmente quietas. Eu gostaria muito que elas me entendessem, mas também não ia insistir. Depois de uma longa pausa, continuamos a conversa. "Vou fazer o meu ultrassom na semana que vem!", falou uma das amigas. "Pra saber o sexo do bebê?", perguntei. "Não, pra saber se a criança tem a possibilidade de nascer com síndrome de Down!". "Mas... e se tiver?", perguntei eu um pouco surpresa. "Uai, se tiver, vou abortar, lógico!", ela respondeu. "Eu também abortaria!", disse a outra. "Prolongar uma gravidez doente? Para quê? E outra coisa, que homem vai querer ficar com uma mulher que lhe deu um filho deficiente? Você já pensou nisso, Sasha?", concluiu uma das amigas.

Dessa vez quem estava quieta era eu. Depois de tudo que ouvi, pensei que era melhor não falar mais nada. Não adianta. A cultura de todos os países da ex-União Soviética é assim. É menos sensível, é mais obsoleta e mais ignorante.

"Mas será que realmente a maioria das pessoas tem esse pensamento...?", refletia eu comigo mesma. E já na volta para o Brasil, num site de uma revista russa Snob, encontrei uma entrevista da supermodelo russa, Natalia Vodianova. Em uma das perguntas, ela conta a história da Oksana, sua irmã deficiente. A modelo diz que no dia em que a irmã nasceu, os próprios médicos insistiram para que a mãe deixasse a filha "ruim" no hospital. E o pai, quando soube da situação da criança, abandonou a família. "Foi muito difícil para a nossa mãe superar o preconceito das pessoas, que toda hora diziam como ela foi burra por não jogar a minha irmã no orfanato e questionavam como ela podia sacrificar a própria vida desse jeito", conta Natalia na entrevista. "Ela sofreu muito, mas nunca, nunca mesmo, pensou em voltar no tempo e se livrar da Oksana. Para minha mãe, era a coisa mais natural do mundo aceitar, amar e criar o bebê sem se importar com a sua aparência ou a condição de saúde".

Depois que terminei a ler a entrevista, entendi que não são todas as pessoas do Leste Europeu que têm esse pensamento de "eliminar os fracos e os doentes". Ainda tem gente que sabe dar valor a vida e divide o amor com todo mundo e não somente com os que estão "dentro do padrão". Mas infelizmente eles são a minoria.