OPINIÃO

Em 'Churchill', imagem do estadista britânico como líder inspirador e destemido é desconstruída

Mais que um filme de guerra ou uma cinebiografia fiel à história, Churchill se preocupa mais em ser uma meditação sincera, ainda que melancólica, sobre aceitar a passagem do tempo.

02/11/2017 17:45 -02 | Atualizado 02/11/2017 17:49 -02
Cohen Media Group
Interação de Churchill (Brian Cox) com a parceira Clementine (Miranda Richardson) é um dos pontos altos do filme.

Notório pela atuação como primeiro-ministro britânico durante a Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill é tido como um dos maiores bretões da História, um líder político inspirador e hábil estrategista. Churchill, no entanto, escolhe apresentar um retrato mais humanizado e vulnerável da histórica figura. O filme continua em cartaz em centenas de salas de cinema do Brasil.

Dirigido por Jonathan Teplitzky, Churchill leva o espectador aos bastidores do planejamento que culminou com a invasão da Normandia, em evento que ficou conhecido como "Dia D". A nove dias da execução da operação Overlord, que levaria 250 mil homens a invadir por água, terra e ar a praia ao norte da França, Churchill tenta convencer o alto escalão da guerra - em especial o general americano Eisenhower (John Slattery, Mad Men) e o comandante britânico Montgomery (Julian Wadham) - a repensar o plano.

O veterano Brian Cox (Troia, A Supremacia Bourne) caracteriza os maneirismos, o tom de voz e a postura do primeiro-ministro à perfeição. No entanto, o personagem mostra as suas cores mais relevantes ao revelar as motivações para interferir no plano concebido sem sua efetiva participação.

Churchill, naquele momento da história, aos 69 anos, é retratado como uma figura cujos melhores anos ficaram há muito para trás e cujas estratégias, bem-sucedidas em guerras passadas, se tornaram obsoletas, como o general Eisenhower não hesita em apontar.

Jogado para escanteio, Churchill também não lida bem com o fato de a sua liderança ter sido substituída pela pronunciada presença dos americanos como possíveis salvadores da Segunda Guerra. Tais acontecimentos levam o primeiro-ministro a apresentar suas piores tendências, apesar das melhores intenções.

Ao refletir sobre questões morais da guerra - milhares de jovens são enviados à morte a partir da canetada de alguém sentado confortavelmente em uma cadeira -, Churchill chega à conclusão de que deve fazer parte do esforço de guerra, tal qual uma criança que se diz apta a andar nos brinquedos para adultos. E tal qual uma criança malcriada, o político é lembrado dos perigos e da inconveniência da ideia por Eisenhower, pelo Rei George VI (James Purefoy) e pela esposa Clementine (Miranda Richardson).

É a relação com Clementine, aliás, que leva Churchill a encontrar algum tipo de redenção, injetando-lhe doses de realidade em seus piores momentos: "Você quer ser mimado, Winston? Não reclame quando alguém lhe disser a verdade". Ao final, não resta a Churchill outra opção senão aceitar que os dias de luta terminaram, mas que ele ainda pode ser relevante para a nação como um líder em um momento de decisiva tensão.

Mais que um filme de guerra ou uma cinebiografia fiel à história, Churchill se preocupa mais em ser uma meditação sincera, ainda que melancólica, sobre aceitar a passagem do tempo. Apesar de retratar uma figura bastante singular da História, a sinceridade com que aborda os conflitos e inseguranças do protagonista torna a obra bem-sucedida em despertar certa identificação.

Assista ao trailer abaixo:

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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