OPINIÃO

Apesar de algumas derrapadas, Blade Runner 2049 faz jus ao legado do filme original

Elenco e fotografia estão impecáveis na sequência deste clássico da ficção científica.

06/10/2017 15:55 -03 | Atualizado 06/10/2017 15:55 -03
Warner Bros
Ryan Gosling e Harrison Ford interpretam Agente K e Deckard, respectivamente

Seja pelo visual arrojado, com o futuro sendo retratado de forma distópica, ou pelos temas tratados - a nossa relação com a tecnologia, a essência do ser humano, os limites morais e éticos entre criador e criação - Blade Runner, lançado em 1982 e dirigido por Ridley Scott, é considerada uma das obras mais influentes da ficção científica.

Não é de se estranhar, portanto, que um filme tão reverenciado e com tantos predicados, tenha demorado tanto para ter sua sequência lançada.

O responsável pela empreitada foi Dennis Villeneuve, cujo currículo (Sicário, A Chegada) contém obras que demonstram a habilidade do diretor em criar filmes com visuais distintos, singulares.

Além do look extraordinário, talvez o maior mérito de Villeneuve em Blade Runner 2049 tenha sido o de apresentar um universo que homenageia e protege o rico legado deixado pelo original, ao mesmo tempo em que demonstra personalidade própria e expande as ideias e temas propostos por Blade Runner.

O filme atual se passa mais de três décadas após os eventos do original. A organização Tyrell responsável pela criação dos replicantes - andróides escravos que se rebelaram contra a raça humana - faliu e foi comprada pelo magnata Niander Wallace (Jared Leto). Ele modernizou os replicantes, tornando-os mais controláveis.

No entanto, modelos antigo, e potencialmente perigosos ainda se encontram em circulação e os blade runners são os policiais encarregados de encontrá-los e "aposentá-los" (sim, é um eufemismo).

Em uma dessas missões de caça, o agente K (Ryan Gosling) confronta um replicante exilado, Sapper (Dave Bautista), encontrando também um objeto que tem o potencial de destruir o frágil balanço entre humanos e andróides, como alerta a comandante (Robin Wright), além de levar K a uma viagem de descoberta da própria origem.

Elenco

Além do visual deslumbrante, é necessário destacar o excelente trabalho feito pelo elenco. A cubana Ana de Armas, que interpreta Joy, é uma robô criada pelas empresas de Wallace para satisfazer as fantasias de seus donos/parceiros(a). Como a namorada de K, ela imprime emotividade ao papel ajudando o filme a explorar uma de suas principais ideias: de que essas criações artificiais são capazes de sentir, sofrer e amar.

Já Luv (a holandesa Sylvia Hoeks), como a tenente de Wallace, mostra-se muito mais implacável e ameaçadora do que o personagem interpretado por Jared Leto, cujo tempo reduzido em cena deixa a desejar em comparação à expectativa criada pelo antagonista nos trailers.

Em comparação, Harrison Ford, que só aparece no ato final para amarrar a trama e fazer a ponte definitiva com o Blade Runner original, ao reprisar o papel do agente Deckard, consegue ter muito mais presença e efetividade contracenando com Ryan Gosling.

Esse último que, por sinal, entrega uma performance ao mesmo tempo contida e vulnerável, retratando com propriedade o sentimento de um agente sem alma, confuso em relação ao seu passado e descrente com suas obrigações do presente.

Pecados

Apesar dos muitos acertos, Blade Runner 2049 peca em alguns aspectos.

O roteiro de Hampton Fancher e Michael Green, por exemplo, não tem nenhuma pressa em desenvolver a trama e apresentar seus temas. Em uma época onde os estúdios e diretores atropelam suas ideias pensando em agradar o público cada vez mais imediatista, isto não é necessariamente algo ruim.

Porém, em quase três horas de filme, Villeneuve escolhe o polo contrário ao apresentar um ritmo, por vezes, lento demais e algumas sequências dispensáveis, que parecem estar lá mais para favorecer o espetáculo visual e celebrar a si mesmo, prejudicando a evolução da trama.

E, se o Blade Runner original apresentava uma história enxuta e primava pela sutileza com que sugeria os temas abordados em seu universo, o filme atual perde um pouco do foco com a quantidade de metáforas bíblicas e questões filosóficas. Fala de forma superficial sobre livre-arbítrio, alma, alienação, etc.

Apesar dos pecados, devido ao tamanho da responsabilidade da missão, pode-se dizer que Dennis Villeneuve foi vitorioso. O diretor conseguiu recriar o futuro melancólico, decadente e opressor apresentado por Ridley Scott em 1982 e recriado em tantas outras obras da ficção científica, além de evoluir a história com uma complexa trama e novos e interessantes personagens.

Os fãs do gênero deverão ficar bem satisfeitos com Blade Runner 2049. Porém, para se equiparar a um clássico, era necessário entregar um filme impecável, o que não foi o caso.

Assista ao trailer abaixo:

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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