OPINIÃO

Se nossas vidas não valem, produzam sem nós

O 8M pode mostrar um caminho para a articulação nacional e internacional das lutas tão necessárias de nosso tempo. Mulheres do mundo, uni-vos!

08/03/2017 10:47 BRT | Atualizado 08/03/2017 12:26 BRT
Anadolu Agency via Getty Images
Desde 2015, vivemos uma Primavera Feminista no nosso país. Dois momentos em especial foram marcantes e essenciais para seu desdobramento

Contra a reforma da Previdência, proposta pelo governo Temer, e os retrocessos de Trump, movimentos feministas planejam uma greve geral em 8 de março, quando é celebrado o Dia Internacional de Luta das Mulheres.

As ameaças aos direitos previdenciários das mulheres, a luta contra o desemprego, além de pautas históricas do movimento feminista, como o fim da violência de gênero e o direito ao próprio corpo também farão parte da mobilização do dia 8 de março.

Foi a partir do forte movimento contra a violência de gênero que tomou a América Latina sob a consigna do "Ni Una a Menos", as feministas argentinas iniciaram um chamado à construção de uma greve internacional de mulheres. Diversos países já aderiram à convocatória e após a grande Marcha de Mulheres que tomou os EUA no dia 21 de janeiro, após a posse de Trump, um manifesto foi lançado por Angela Davis, Nancy Fraser e outras intelectuais e ativistas norte-americanas, reiterando o convite das argentinas, para que as mulheres do mundo todo fortaleçam este movimento.

Como muito bem pontua o manifesto redigido pelas feministas norte-americanas, a ascensão da luta das mulheres e a forma como ele vem se expressando em diversos países do mundo reforça fortemente a hipótese de que vivemos o início de uma nova onda feminista. Nesse sentido, é importante destacar como não é possível entender esse novo momento que se inaugura na história da luta das mulheres como um fenômeno isolado ou independente. Pelo contrário, ele possui nexos profundos com uma mudança fundamental que se processou na conjuntura mundial nos últimos anos, especialmente após a crise econômica de 2008.

Basta olharmos para os principais movimentos de resistência contra os planos de austeridade e por democracia real dos 99% contra o 1%, surgidos em contrapartida ao cenário de crise e retirada de direitos – como a Primavera Árabe, a ocupação de praças na Espanha, Occupy Wall Street, entre outros. Em todos eles, o protagonismo das mulheres foi notável. Além disso, assistimos, a partir de 2011, o fenômeno mundial das Marchas das Vadias, que abriu um circuito de atos feministas pelo mundo, marcados pela participação de uma nova geração de jovens, com um novo perfil ativista.

Mais recentemente, apoiamos as marchas gigantescas na Argentina, no Chile e no Peru por #NiUnaMenos, a legalização do aborto no Uruguai, o debate sobre a violência contra as mulheres na Índia, a resistência das mulheres polonesas contra mudanças na lei do aborto no país, e nos solidarizamos e nos inspiramos nas mulheres curdas, que lutam contra o Estado Islâmico.

O Brasil não está fora desta dinâmica. Desde 2015, vivemos uma Primavera Feminista no nosso país. Dois momentos em especial foram marcantes e essenciais para seu desdobramento: os atos contra Eduardo Cunha, que tomaram as ruas em várias cidades do país; e a Marcha Nacional das Mulheres Negras, que ocupou a Esplanada dos Ministérios em Brasília. Em 2016, novamente as mulheres foram em peso às ruas, compondo atos de milhares contra a cultura do estupro, após um caso bárbaro ocorrido no Rio de Janeiro, além de ocuparem o processo eleitoral nos municípios, elegendo uma Bancada Feminista para representar as vozes e reivindicações políticas que tomaram as ruas no ano anterior.

Tudo indica que a Primavera Feminista deve continuar firme, como forma de resistência aos planos de ajuste e retirada de direitos atualmente em vigor no governo Temer. As mulheres continuarão sendo um setor fundamental para construção de alternativas. Por isso, o 8 de março será um ato importante para dar sentido à indignação latente que vem surgindo no próprio Brasil. A resistência à agenda que tem sido aplicada por Temer, seus aliados e pelos que, ao redor do mundo, insistem em aplicar seus ajustes sobre o povo será liderada pelas mulheres. O 8M pode mostrar um caminho para a articulação nacional e internacional das lutas tão necessárias de nosso tempo. Mulheres do mundo, uni-vos!

Um marco histórico

Na iminência no 8M, na noite da segunda-feira (6), o PSOL, em parceria com a Anis – Instituto de Bioética, protocolou uma A Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) no Supremo Tribunal Federal pedindo a descriminalização do aborto até a décima-segunda semana de gestação. O argumento principal é que a lei penal vigente atenta contra o direito constitucional à dignidade. O acúmulo de lutas e decisões dos últimos anos respalda esse passo fundamental. Trata-se de uma ação histórica, por ser a primeira vez que uma proposta de descriminalização ampla do aborto chega ao STF. Embalada pela Primavera Feminista, acreditamos que é possível pressionar o STF para a aprovação dessa que pode ser uma histórica conquista para as mulheres brasileiras. Leia mais sobre.

Já aqui em São Paulo, nosso mandato na Câmara de Vereadores anunciou dez iniciativas (entre Projetos de Lei, propostas de homenagens e pedido de uma CPI sobre a violência contra a mulher) acerca dos direitos das mulheres. Você pode as iniciativas na íntegra aqui.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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