OPINIÃO

Para onde vamos após a revelação de 'lista de Fachin'?

A esquerda não pode se omitir frente a fatos objetivos que estão sendo revelados pela Operação Lava Jato.

13/04/2017 15:36 -03 | Atualizado 23/04/2017 22:38 -03
AFP/Getty Images
Marcelo Odebrecht delatou políticos de diversos partidos brasileiros.

No Brasil, só se fala da "lista de Fachin" (ministro relator da Lava Jato no STF) e da publicação das delações de Emílio e Marcelo Odebrecht. Não é para menos.

Na História da política brasileira, nunca esteve tão evidente a forma corrupta como funciona o sistema. Há mais de duas décadas, praticamente todos os "grandes" políticos dos "grandes" partidos foram eleitos com base no caixa dois e em esquemas criminosos.

As raízes da corrupção, que vêm desde o Regime Militar, corroeram a Nova República e colocam em xeque a institucionalidade vigente no País.

Os depoimentos a que agora o povo brasileiro acessa são assustadores. Temer, Lula, Dilma, FHC, Alckmin, Aécio, Moreira Franco, Serra, Gilberto Kassab, entre diversos outros nomes num universo de 98 políticos, são citados em esquemas de corrupção descritos em detalhe.

Apenas um nível inimaginável de ceticismo poderia nos levar a duvidar da existência dos fatos.

Ainda que as investigações devam ser conduzidas com base no respeito ao direito de defesa e ao trâmite legal, é papel daqueles que não se misturam à velha política extrair conclusões a atuar desde agora, sob a pena da indignação contra a corrupção, no País, ser canalizada apenas pela extrema direita.

Uma primeira consequência prática frente aos fatos políticos deve ser a responsabilização do presidente Temer. Um presidente envolvido até o pescoço em ilegalidades não pode gozar de "imunidade temporária".

Da mesma forma, um governo que possui nove ministros implicados na lista de Fachin não pode seguir adiante. A tática de "normalizar o escândalo" e tocar adiante o governo, ainda mais com suas medidas reacionárias, não pode ser aceita pela sociedade. Temer tem que cair, e novas eleições devem ser realizadas para o povo decidir os rumos do País.

Em segundo lugar, não podemos admitir que um Congresso de corruptos siga votando ataques históricos aos direitos do povo. A aprovação da Lei das Terceirizações, as possíveis reformas da Previdência e trabalhista, bem como a reforma política que institui as medidas antidemocráticas da cláusula de barreira e da lista fechada, são absurdos ilegítimos.

A indignação popular já é evidente, sobretudo contra o "fim da aposentadoria". E a revelação dos esquemas de corrupção que desmoralizam a casta política deve servir para ampliar a luta social e barrar esses ataques.

Junto a isso, é necessário assumir uma posição convicta de exigência de que as investigações da Lava Jato vão até o fim e que todos os corruptos sejam punidos.

É notória a existência, entre os ativistas de esquerda, de um ceticismo em relação à operação e ao Judiciário. Esse sentimento é legítimo, no sentido de não depositar confiança nas instituições do Estado, pois a única confiança que devemos possuir é na mobilização do povo.

Mas ele não pode significar a omissão frente a fatos objetivos que estão sendo revelados e, sobretudo, não pode apartar a esquerda da legítima indignação popular contra a corrupção.

Do ponto de vista da revelação dos esquemas, já não há suspeitas de "seletividade". Agora, é momento de exigir que também nas punições ela não exista. Todos os corruptos devem pagar pelo que fizeram.

Dizer isso convictamente é uma tarefa daqueles que têm, em sua história, a autoridade de não ter se integrado ao sistema político dominante que oprime a maioria do povo enquanto preserva os privilégios dos poderosos. O PSOL, partido de que faço parte, representa isso.

A fundação de nosso partido decorreu de uma ruptura com o PT justamente pelo fato deste partido, infelizmente, após chegar ao poder, ter se integrado aos esquemas que há muito tempo já faziam PSDB, PMDB, DEM e outros.

Também é uma tarefa dos que combatem e querem impedir o crescimento da extrema direita. Nas últimas semanas, na Câmara Municipal, tenho me embrenhado em duros combates contra Fernando Holiday, expoente do MBL e filiado ao DEM.

Além de denunciar o papel reacionário desse vereador em suas "visitas" às escolas para censurar professores e em suas ações orquestradas para me intimidar, tenho revelado, também, as contradições do movimento: dizem-se contra a corrupção, mas o próprio Holiday está implicado em suspeita de caixa dois. Falam contra a corrupção, mas apoiam o governo de Temer e a reforma de Previdência.

No cenário nacional, devemos fazer o mesmo. Ao saírem as maiores revelações de corrupção da História recente do País, não podemos deixar para uma extrema direita hipócrita a hegemonia de um discurso que, além de tudo, é mentiroso e inconsistente. Apenas a esquerda autêntica, que nunca se vendeu nem se rendeu, tem autoridade para falar sobre o tema.

Por fim, uma data adquire hierarquia máxima para nossa mobilização: a Greve Geral no dia 28 de abril. As forças devem ser canalizadas para esse evento que, esperamos, pode balançar o governo Temer e a casta política do País.

Devemos exigir das centrais sindicais compromisso com essa luta, pois o papel delas deve ser o de mobilizar para a defesa dos trabalhadores, e não para a defesa de qualquer um dos "grandes" políticos envolvidos na corrupção, sejam eles de que partido forem. E devemos dar o exemplo.

Em São Paulo, nosso mandato estará a serviço de mobilizar nas bases a classe trabalhadora e a juventude para, juntos, pararmos o Brasil e demonstrarmos a força dos de baixo contra os que nos oprimem. Vamos à luta!

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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