OPINIÃO

O 'toma lá, dá cá' da gestão Doria

Várias empresas filiadas à LIDE têm encontrado espaço privilegiado na agenda do prefeito.

03/10/2017 19:28 -03 | Atualizado 04/10/2017 12:09 -03
Nacho Doce / Reuters
Bem ao estilo da velha política, Doria garante a coesão de sua base de apoio, sempre, por meio da liberação de emendas e de cargos comissionados.

Quando eleito, João Doria prometia comportar-se como um "gestor" e não como um "político". Com a afirmação, o atual prefeito de São Paulo queria dizer que não incorreria nas práticas do tipo de política hoje rechaçada pelo povo: fisiologismo, troca de favores e corrupção. Em síntese, a política que coloca os interesses privados e os planos de poder à frente do interesse público.

Com a enorme crise de representatividade que atravessava e ainda atravessa o País, Doria conseguiu eleger-se.

Entretanto, não foi preciso um ano de "gestão" para notar, no prefeito, o comportamento oposto do que prometia. À frente do Executivo, Doria vem protagonizando episódios, no mínimo, suspeitos no tocante à relação da prefeitura com empresas privadas geridas por seus amigos.

Além disso, ao invés de se preocupar com os problemas da cidade, Doria cumpre, desde agora, agenda de pré-campanha à Presidência da República, a sua nova ambição. O que o diferencia, então, da velha política?

É de amplo conhecimento que Doria é fundador da LIDE (Grupo de Líderes Empresariais). Para assumir a Prefeitura de São Paulo, repassou aos filhos o controle da organização.

Impressionantemente, a partir da campanha eleitoral e da chegada de Doria à prefeitura, a LIDE reverteu uma crise que havia se iniciado em 2015, quando perdeu mais de dez associados. Segundo informações da Folha de São Paulo, em 2016, houve 32 novas filiações ao grupo, e os "bons ventos" para os negócios da família devem se manter em 2017.

Vários dos cargos atuais da prefeitura estão ocupados por ex-executivos das empresas ligadas a Doria. Por exemplo, o atual secretário de Gestão, Paulo Uebel, conhecido por obstruir a convocação de novos funcionários públicos, inclusive já aprovados em concursos, foi executivo da LIDE e do Instituto Millenium entre 2013 e 2015, segundo indicou o Valor Econômico.

Outro ex-executivo da LIDE nomeado na gestão foi Luis Fernando Furlan. Esse caso é ainda mais grave, pois Furlan assumiu, nada mais, nada menos, que o comando da SP Negócios, empresa de capital misto reativada em 2017, por proposta do Executivo, e cuja função é precisamente gerir parcerias público-privadas na cidade.

Faz sentido um ex-executivo da empresa de Doria ser agora, justamente, chefe do órgão da prefeitura responsável por administrar a relação entre negócios públicos e negócios privados? Não está aí um conflito de interesses?

Os problemas não param por aí. Várias empresas filiadas à LIDE têm encontrado espaço privilegiado na agenda do prefeito: Caixa Econômica Federal, Estre Ambiental, Bradesco, Ambev, Uber, entre várias outras.

Outra prática que Doria adora é firmar "parcerias" para "doações" de empresas privadas à prefeitura. Geralmente são poucos produtos, com qualidade duvidosa ou próximos do prazo de validade, como no caso dos remédios, oferecidos por empresas que, em troca, recebem farta publicidade gratuita. O próprio prefeito, sempre que possível, faz as vezes de garoto-propaganda.

E o toma lá, dá cá da gestão tucana em São Paulo chega até a Câmara de Vereadores. Bem ao estilo da velha política, Doria garante a coesão de sua base de apoio, sempre, por meio da liberação de emendas e de cargos comissionados, em prefeituras regionais, secretarias e empresas públicas.

Até o MBL foi recentemente agraciado: Cauê Del Valle, conhecido por ter pintado o muro pichado da casa do prefeito, acaba de ganhar um cargo comissionado na Prefeitura Regional de Pinheiros — prefeitura regional esta comandada por um membro do mesmo movimento, Paulo Mathias.

No dia mesmo da aprovação do PL 364/17, que previa a concessão do Pacaembu para a iniciativa privada, mais de cem nomeações foram publicadas no Diário Oficial! A prática não é muito distinta da adotada, por exemplo, pelo presidente Michel Temer, em sua relação costumeira com o Congresso Nacional.

Com toda essa farra promovida na política de São Paulo e ainda viajando sem parar Brasil e mundo afora com o objetivo de construir sua candidatura à presidência, não é de espantar que a popularidade de Doria esteja caindo. Temos um prefeito preocupado apenas com suas ambições e negócios, enquanto a cidade padece com péssimos serviços de educação, saúde, transporte, assistência social e zeladoria urbana.

Ao invés de "gestão eficiente", Doria é somente mais um dos políticos que governam para a elite, e que adoram um "toma lá, dá cá" com o objetivo de se autopromover e enganar o povo.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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