OPINIÃO

Doria na Cidade das Maravilhas

16/01/2017 18:04 -02 | Atualizado 16/01/2017 18:04 -02

2017-01-16-1484571320-4800168-doriagari.jpg

Foto: Fabio Arantes/Secom

O novo prefeito de São Paulo insiste em se intitular "João Trabalhador". Na campanha eleitoral, reforçou a ideia de que ele não é um político, mas sim um gestor, que se propôs a "acelerar" a cidade - assim, diferenciando-se de qualquer outra experiência que os moradores de São Paulo já tiveram com a prefeitura. Uma peça de marketing que, logo nos primeiros dias do ano, não se sustenta: as propostas que João Doria tem apresentado soam mais como ataques às trabalhadoras e trabalhadores da cidade para garantir que se acelere o crescimento do lucro dos empresários.

Na tentativa de se aproximar daqueles que encaram a dura realidade que São Paulo impõe, Doria se veste de gari e empunha uma vassoura para inaugurar o programa "Cidade Linda". O uniforme não adequado para o calor, as dores musculares causadas pelo trabalho, o preconceito, a falta de segurança, além da baixa remuneração. Em nenhum momento, Doria se pronunciou em relação a essas graves condições de trabalho da categoria.

Ainda, é preciso questionar a quem serve esse programa que visa a "resgatar a autoestima" de São Paulo: enquanto o prefeito e sua equipe posam para fotos todos os fins de semana e a Ponte Estaiada ganha nova iluminação, moradores em situação de rua, artesãos e artistas têm todos os seus pertences apreendidos pela Guarda Civil Metropolitana (GCM) e são impossibilitados de ocupar a cidade. Para Doria, embelezar a cidade significa esconder a miséria. As políticas higienistas seguem sendo o carro-chefe da prefeitura.

Durante o período eleitoral, Doria assegurou que, se eleito, não haveria reajuste do preço das tarifas do transporte público em 2017. Em menos de duas semanas de gestão, tal promessa não se sustenta mais, haja vista que para manter o preço da tarifa unitária, a prefeitura e o governo do Estado argumentam que se deve aumenta o preço das outras modalidades, como a integração entre ônibus e trilhos (metrô e CPTM). Tal medida prejudica principalmente a população das regiões periféricas, que precisam pagar mais de duas tarifas para circular pela cidade.

Se em 2016 ele prometeu aumentar as vagas nas creches, hoje se utiliza dessa pauta para validar a redução de gastos no que diz respeito à compra de materiais e transporte escolar e ao programa Leve-Leite. Mais uma vez, o prefeito mascara a ineficiência de seu projeto de cidade, pois ceifa o direito de uma primeira infância digna e o acesso à educação, além de negligenciar a dupla jornada de trabalho - por vezes, tripla - que as mulheres enfrentam para garantir uma vida melhor para suas famílias.

Também na campanha, Doria garantiu que logo no início da gestão já trabalharia para reduzir as filas de exame no município por meio do programa Corujão, em que hospitais conveniados à prefeitura atendem a população durante a madrugada, contudo, tanto não se marca a reavaliação médica, como não oferece transporte público nesse horário.

E, mesmo com tantos casos de violência contra a mulher vindo à tona no último período, a prefeitura deveria tratar do assunto como uma de suas prioridades. No entanto, ainda não se tem uma declaração de Doria que vise a tornar São Paulo uma cidade também das mulheres.

João Doria parece que não saiu do clima da campanha e prefere assistir ao impacto da crise econômica do alto de seu palanque: ou entrega as decisões para as subprefeituras ou os serviços para as Organizações Sociais (OSs), como no caso do Centro Cultural São Paulo e de outras 52 bibliotecas municipais.

No que tange à iniciativa privada, não podemos ignorar o que é a experiência das Fábricas de Cultura e do Theatro Municipal, posto que, nas mãos das OSs, resultou em precarização do patrimônio, falta de democracia na gestão dos espaços, demissões arbitrárias, precarização do trabalho e pouca transparência nas contas. O Doria Gestor, no fim das contas, não existe. Afinal, o que o prefeito pretende gerir?

O povo tem anseios e necessidades urgentes, que não serão resolvidas enquanto a prioridade da prefeitura for posar para fotos. No malabarismo para aparentar ser trabalhador, Doria distancia de sua agenda qualquer compromisso real com o interesse social. Nesse sentido, diante de tamanha ofensiva da nova administração, precisamos exigir mais participação e transparência nas tomadas de decisão da prefeitura e da Câmara de Vereadores.

Além disso, convido todas e todos a se mobilizar em defesa dos nossos direitos e disputar nas ruas a cidade que queremos, cada vez mais plural e democrática. Nada sobre nós sem nós!

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representam as ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@brasilpost.com.br.

LEIA MAIS:

- Doria dedica plantio de pau-brasil a Lula: 'Maior cara de pau do Brasil'

- João Doria vai apagar grafites dos 'Arcos do Jânio'

Também no HuffPost Brasil:

João Doria 'vira' gari em São Paulo