OPINIÃO

A suspeita farinata proposta por João Doria

Empresas se beneficiam com abatimento de impostos e eliminação de custos que teriam com descarte de alimentos vencidos ou impróprios para consumo.

27/10/2017 20:28 -02 | Atualizado 27/10/2017 20:28 -02
Divulgação/Agência Pública
O prefeito João Doria (PSDB), em evento de lançamento do programa Alimento para Todos.

Um dia após a aprovação da Lei 16.704/17, que institui a Política Municipal de Erradicação da Fome e de Promoção da Função Social dos Alimentos, o prefeito de São Paulo lançou, em megaevento no Auditório do Ibirapuera, um subproduto alimentício batizado de "Allimento", que afirmava ser a solução para o problema da fome na cidade.

Dentro de um pote de vidro, o que a população de São Paulo visualizou, estarrecida, foi um conjunto de grãos que se assemelhava mais a uma "ração" do que, de fato, a alimento.

Com a pressa que o caracteriza e sem ouvir especialistas, Doria anunciou que a prefeitura iniciaria a distribuição do produto para a população em situação de rua ainda em outubro e, mais adiante, piorou a notícia, afirmando que pretendia incorporar o que chamou de "farinata" à merenda escolar da rede municipal de ensino.

Imediatamente se percebeu que, para Doria, a população pobre, ou mesmo os alunos da rede municipal, não possuem "hábitos alimentares". Em um vídeo da época em que era apresentador de TV, ele chega a afirmar isso explicitamente.

Entretanto, ao contrário do que pensa o prefeito, envolto em sua ideologia elitista, todo e qualquer ser humano possuí hábitos alimentares. Mais do que isso, possui o direito de se alimentar com dignidade, de forma saudável e prazerosa. Por isso, o Estado deve promover esse direito e não distribuir uma "ração humana" para aqueles que estão em situação vulnerável.

Por trás da proposta de Doria, em princípio espetaculosa, muitas dúvidas e fatos suspeitos foram se acumulando.

Primeiramente, chamam a atenção os benefícios que empresas privados podem auferir em mais uma "parceria" com a prefeitura. Isso porque a farinata pode ser produzida a partir de alimentos próximos do prazo de validade ou inaptos para comercialização "doados" por empresas que, em troca, receberão benefícios fiscais da prefeitura.

Assim, as empresas podem lucrar duas vezes: com o abatimento de impostos e com a eliminação dos custos que teriam com o descarte de alimentos vencidos ou impróprios para o consumo.

O problema não se resume a isso. A empresa apresentada pela prefeitura como "parceira" na iniciativa é a pouco conhecida Plataforma Sinergia, associação privada gerida por uma antiga diretora Monsanto e atual executiva da Johnson Nutrition. Essa empresa, curiosamente, tem como uma de suas especialidades a liofilização, processo envolvido na produção da "farinata" celebrada por Doria.

Uma rápida pesquisa sobre a empresa indica que sua sede se encontra numa área residencial, na qual imóveis não ultrapassam 70 metros quadrados. Parece improvável que toneladas de farinata, conforme anunciado pelo prefeito, já tenham sido produzidas em tal local. Mesmo assim, o logo da Prefeitura de São Paulo já consta como "parceiro" no site da plataforma, seguindo a tradicional falta de transparência de Doria em suas medidas.

O prefeito insiste em não responder às perguntas que a população, legitimamente desconfiada, apresenta:

O que é a Plataforma Sinergia?

Por que a prefeitura está fazendo uma "parceria" com ela?

Quanto a prefeitura deixará de arrecadar com a isenção de impostos prevista nessa "parceria"?

Se já existem 50 toneladas de farinata produzidas, onde esta se encontra? Em que fábrica foi processada?

Qual o componente nutricional desses produtos?

Por que insistir na iniciativa mesmo diante dos questionamentos do Conselho Regional de Nutricionistas e do Ministério Público, que abriu inquérito sobre o caso?

No âmbito das escolas, por que incluir a distribuição da farinata na merenda se o próprio prefeito diz que esta possui qualidade?

Ou, antes, por que Doria age nesse sentido depois de ter restringido o programa Leve Leite, a compra de alimentos orgânicos nas escolas e até mesmo a repetição das crianças na merenda?

No caso da população em situação de rua, por que razão se considera adequado o fornecimento de algo que mais se assemelha a uma ração, mas se restringem iniciativas filantrópicas de distribuição de sopas ou marmitas para os mais necessitados?

Doria realmente acredita que "pobres e miseráveis" não têm hábitos alimentares?

Em busca de investigar estas e outras questões, estou propondo, na Câmara Municipal de São Paulo a instalação de uma CPI que já conta com mais 50 mil assinaturas, para investigar o Programa Alimento para Todos, da Prefeitura de São Paulo. Concomitantemente, quero apresentar iniciativas para fortalecer a agricultura urbana, a segurança alimentar e o combate ao desperdício com medidas que sejam coerentes e respeitem a dignidade humana.

Ao que parece, estes não são os verdadeiros intuitos de Doria. De olho em 2018 e no poder que ambiciona, o prefeito tem fome de outras coisas.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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