OPINIÃO

A São Paulo que queremos não está à venda

Como pode o prefeito vender o patrimônio do povo de São Paulo no exterior sem consultar a Câmara Municipal e a sociedade?

21/02/2017 19:20 -03 | Atualizado 21/02/2017 19:31 -03
Reprodução/YouTube
Imagem retirada do vídeo institucional divulgado pela Prefeitura de São Paulo

Em visita a investidores internacionais em Dubai, o prefeito de São Paulo, João Doria, colocou importantes equipamentos e serviços públicos da cidade à venda. Dizendo tratar-se do "maior programa de privatização da história", João Dória elenca o parque do Ibirapuera, o autódromo de Interlagos, o complexo do Anhembi e o estádio do Pacaembu como produtos a serem adquiridos por empresários em busca de bons investimentos.

Além disso, coloca no cardápio os terminais de ônibus, o serviço de iluminação pública, a gestão dos cemitérios e do Bilhete Único. Como pode o prefeito vender o patrimônio do povo de São Paulo no exterior sem consultar a Câmara Municipal e a sociedade? Como pode anunciar a cidade em vídeo com narração em inglês, sem que parte expressiva do povo paulistano compreenda a língua, como um parque de diversões para os sheiks árabes?

A experiência recente mostra que a privatização de grandes equipamentos públicos para a iniciativa privada não é garantia de modernização, como anuncia o prefeito. O caso do estádio do Maracanã é emblemático. Vendido para empresários amigos da elite política carioca, o templo do futebol brasileiro hoje está abandonado e destruído. O que garante que o mesmo não irá acontecer com o Pacaembu ou com Interlagos?

A população paulistana já conhece de longa data o significado das gestões terceirizadas através das organizações sociais.

Em se tratando das múltiplas modalidades de desmonte do papel da prefeitura na condução dos serviços da cidade, é impossível não falar das OSs. A população paulistana já conhece de longa data o significado das gestões terceirizadas através das organizações sociais. As unidades de saúde geridas por elas não levam a cabo a formulação fundante do Sistema Único de Saúde de universalidade e tratamento humanizado. Também pudera, a rotatividade de seus funcionários impede o estabelecimento de vínculo real com a realidade das comunidades atendidas. Isso sem falar nas condições de trabalho desses profissionais. A tentativa de estender o papel das OSs para a educação tende a agravar esse problema.

Recentemente, a cidade pôde constatar o que significa a privatização da cultura. O escândalo de desvio de recursos do Teatro Municipal levanta contundentes dúvidas sobre a ideia de que as organizações sociais não têm fins lucrativos. Mais preocupante ainda é sabermos que uma das pessoas envolvidas no esquema agora faz parte da comissão montada pela prefeitura para conduzir o processo de ampliação da participação das OSs na gestão dos equipamentos culturais de São Paulo.

Quem melhor do que os usuários dos serviços públicos de São Paulo para formular as respostas de como torná-los mais eficientes e acessíveis?

A grandeza continental de São Paulo faz com que as medidas adotadas aqui sirvam de exemplo para cidades de todo o Brasil. Ao invés de servirmos como parâmetro de esfarelamento do poder público, deveríamos inspirar os quatro cantos do país através do fortalecimento da participação cidadã. A potência de São Paulo não está nos investidores estrangeiros que buscam nossa cidade apenas para engordar seus dividendos. A potência de São Paulo está na capacidade criativa de nossa gente. Nos bairros, nas periferias, nas escolas e nas praças da cidade pulsa energia participativa que deve ser canalizada em prol de um projeto popular de cidade. Quem melhor do que os usuários dos serviços públicos de São Paulo para formular as respostas de como torná-los mais eficientes e acessíveis?

Infelizmente, nessas poucas semanas de governo, o prefeito parece ter como prioridade a conversa com a elite empresarial, descolando-se das vozes do povo. Só isso explica sua postura autoritária no caso da pintura de cinza do painel da Av. 23 de Maio e o endurecimento da criminalização aos artistas de rua. São Paulo não é uma empresa e o prefeito não é um CEO. A finalidade de um governo democrático não é o lucro e sim a garantia do bem estar e da dignidade de seu povo.

Justamente por acreditarmos na força da participação popular contra a ganância dos mega investidores é que realizamos no último dia 13 de fevereiro um debate no auditório externo da Câmara Municipal chamado "A Nossa Cidade Linda". Reunimos mais de 400 pessoas, parte significativa da multiplicidade de expressões das lutas de resistência da cidade. Dos grafiteiros aos catadores, dos cicloativistas aos defensores da população em situação de rua. Foi apenas o começo das nossas iniciativas em defesa de uma plataforma política que garanta a expansão da democracia em São Paulo. Ao longo dos próximos meses, faremos outros debates e atividades em todas as regiões da cidade.

Não aceitaremos que o privado se sobressaia sobre o público em nossa cidade. Não aceitaremos que o patrimônio de São Paulo seja vendido e iremos acompanhar de perto e com rigor todas as tentativas do prefeito de se desfazer dele. A cidade é nossa e está na hora de nos organizarmos para defender São Paulo do projeto antipopular e elitista que está sendo tocado pela prefeitura. Não causará surpresa se João Doria colocar à venda a própria cadeira de prefeito.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte do nosso time de blogueiros, entre em contato por meio de editor@huffpostbrasil.com.