OPINIÃO

Dois ou um

25/09/2014 15:28 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:56 -02
Getty Images
Workers prepare the electronic polling stuff for October 5th general elections at the regional electoral tribunal in Rio de Janeiro, Brazil on september 24, 2014. AFP PHOTO/VANDERLEI ALMEIDA (Photo credit should read VANDERLEI ALMEIDA/AFP/Getty Images)

Se números são meros símbolos e significantes representam investimentos bem aplicados, será que o fato de Pauderney Avelino, que concorre ao congresso no Estado do Amazonas neste ano, receber o número 2525 significa que ele é 2.525 vezes o tipo de pessoa que o resto de nós somos?

Ou, se você tivesse de atribuir P ao poder político como uma função de c para a qualidade do cartaz e t para o tempo de exposição do cartaz político de alguém, você chegaria a um numeral impressionante, talvez algo como 2525.

Portanto P=f(c,t)=2525.

Só pode haver uma explicação matemática divina para a massa de sabichões que tomam conta das de transmissões de rádio, fachadas de prédios e automóveis do Brasil, brandindo suas solicitações de voto como prisioneiros carregam seus números ("Ô, 832205, é melhor ficar de bico calado porque o 2504830 está dizendo que você é dedo duro"). Esquecendo por um momento a comparação entre políticos e bandidos irreformáveis e, ao contrário, pelo menos reconheça que fazer uma campanha com números é um sinal de maior fé no eleitorado do que a papinha mental entregue pelo candidato norte-americano mediano.

Recuando por um momento, pois, de fato, se o leitor ainda não está perdido, logo estará, os números que os candidatos políticos brasileiros usam são identificadores exclusivos da mesma forma que @surfgirl56 no Twitter. Esses "números correspondentes" fazem parte do método de lista aberta das eleições que o Brasil adotou. Os eleitores digitam os números dos candidatos que esperam que sejam eleitos usando uma máquina de telex sofisticada, evitando assim ter de escolher entre uma lista de candidatos disponíveis cuja ordem poderia ser influenciada pelos partidos políticos. A maioria dos especialistas em eleições considera esse sistema proporcional mais avançado que o sistema de um único vencedor, não representativo, usado pelos Estados Unidos, por exemplo. Números, determinados e ordenados ao acaso, são tão cegos como a justiça e muitas vezes tão bem torneados quanto ela (a Srta. Justiça não tem qualquer semelhança com o algarismo 8; basta olhar suas curvas).

Muitas vezes, esses números soam e grudam na mente assim como uma música popular: se repetidos uma vez após outra, ficam indelevelmente gravados em seu cérebro. Assim, com um chamado "número correspondente", um candidato pode espalhar sua mensagem de forma viral. Os números são, afinal, muito mais fáceis de repetir e disseminar do que as palavras, muitas vezes porque os políticos não são bons com palavras. A propaganda stalinista não tinha nenhuma ferramenta, que eu saiba, que pudesse controlar o comportamento político com tanta precisão.

50387 para o Deputado Estadual Marcio Nogueira, porque ele tem 50 anos... seguido de mais alguns números.

3245 para a Secretária do Tesouro Lídia Gomes; lembre-se que o 3 vem depois do 2.

4300 para o Prefeito Adalberto, e mais R$ 4.300,00 para seu comitê eleitoral.

Luciano Pires, cujos comentários sociais muitas vezes brilhantes podem ser ouvidos no podcast Café Brasil, observa que frequentemente os slogans dos candidatos nada mais são do que uma linguagem de duplo sentido para o clientelismo que permeia a cultura política brasileira. De acordo com ele, as frases de efeito no sistema político conotam relações patrão-cliente ou linhagens, obviamente mais do que significam uma proposta política, mesmo superficial (por exemplo, "Vamos em frente, Brasil!" se torna "Vote em Manoel Jr. porque ele é filho de Manoel, e Manoel tem sido muito bom para nós!"). Imagine como os números, que destilam identidade de forma mais concisa do que as palavras, podem funcionar: 8998 se torna "Reeleja José, porque ele pelo menos asfaltou a estrada, enquanto os outros vão mesmo é encher os bolsos."

O sistema no Brasil é em sua essência mais justo do que muitos usados por nações mais industrializadas, mas é impossível de se lidar com a dinâmica por trás do sistema eleitoral apenas utilizando números aleatórios. Cartazes políticos de qualquer qualidade geralmente são distribuídos por pessoas e partidos com certo recurso financeiro. E, se você acha que a qualidade faz a diferença, assista às propagandas políticas deste ano e você ficará surpreso com a variedade, que vai do crasso ao vanguardista. Um candidato sem muitos recursos poderia recorrer a pichar 666 (ou, mais provavelmente 66 ou 6669 para ser justo) em cada superfície limpa de sua região eleitoral, na esperança de se tornar um número chamativo, seria pouco provável que grudasse na mente dos eleitores da mesma forma que um retrato bem projetado, repleto de dentes brilhantes.

As eleições são jogos de números do início ao fim, começando com a fatia estatística dos eleitores que um candidato precisa ter como alvo e terminando com o percentual do eleitorado que votou em tal candidato. O fato de o Brasil identificar seus candidatos com números é sublime. Isso, porém, não significa que os brasileiros tenham maior inclinação matemática (embora se as condições de desigualdade e pobreza fossem ajustadas, os estudantes do ensino médio do Brasil com certeza se sairiam melhor em ciências exatas comparado a meus compatriotas norte-americanos). Também não significa que os brasileiros tenham uma memória melhor para dígitos. O que isso significa, porém, é que longas sequências de números são produtos de um esforço para alcançar um sistema eleitoral mais transparente. No mínimo, são uma proteção contra o discurso político inane, presente não só nos Estados Unidos, mas em todas as culturas políticas. E realmente, "Sim, nós podemos!" é muito inferior a seu equivalente telefônico, 93793226.

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