OPINIÃO

Mulheres são as maiores vítimas do vazamento de fotos íntimas na internet

Em 2016, 300 pessoas tiveram suas fotos íntimas vazadas. Destas, 202 eram mulheres.

10/12/2017 08:00 -02 | Atualizado 10/12/2017 08:00 -02
fizkes via Getty Images
As mulheres também são maioria nos pedidos de ajuda por ciberbullying: 67%.

"Toda vez que eu saio na rua, acho que qualquer pessoa que me olha está pensando: 'eu sei o que você fez'. Eu mal consigo sair da minha cama de manhã, me sinto angustiada, triste, deprimida. Me sinto horrível e não vejo mais esperança para nada. Porque eu sou culpada de tudo isso, e não posso escapar das consequências."

O "crime" de Luisa* (nome fictício), na verdade, não é um crime. Ela mandou nudes para o namorado. Ele espalhou suas fotos pela internet até que se perdesse o controle sobre elas. O crime foi cometido por ele. Mas quem sofre com as maiores consequências é ela.

Luisa procurou o Canal de Ajuda da Safernet para desabafar e pedir orientação sobre como agir depois de ter imagens íntimas vazadas. Seu caso não é isolado. 300 pessoas tiveram o mesmo problema em 2016. Destas, 202 eram mulheres. Elas são as maiores vítimas desse tipo de crime, especialmente na adolescência: entre as vítimas com menos de 18 anos, 80% são mulheres.

"Há um mês e meio, mais ou menos, eu estava namorando um garoto (mais velho). Como estávamos namorando há algum tempo, ele me pediu uma foto seminua. Como ele me mandou também, resolvi mandar. Ele pediu pra apagar logo depois de ver, e foi o que eu fiz. Já ele não fez o mesmo."

Esse foi o depoimento anônimo de uma adolescente de 13 anos, que teve suas fotos vazadas pelo então namorado, de 15. Meninas são extremamente vulneráveis a esse tipo de violação, que pode chegar a consequências graves, colocando em risco suas vidas e seu futuro. O vazamento de imagens sem consentimento é crime e é possível identificar e punir os responsáveis. E quem curte e compartilha esse tipo de conteúdo também é responsável pela violência.

"A violência contra as mulheres, especialmente na internet, não é levada muito a sério", diz Juliana Cunha, psicóloga e coordenadora do Canal de Ajuda da Safernet Brasil. "Além das pessoas diretamente envolvidas no episódio, devemos chamar a atenção para uma audiência que compartilha, curte, comenta e torna a violência um viral."

As mulheres também são maioria nos pedidos de ajuda por ciberbullying: 67%. Eram vítimas de intimidações repetitivas, quase sempre disfarçadas de "brincadeiras" - só que, para elas, sem graça nenhuma. Em muitos casos, o gênero era o motivo da ofensa. Eram agredidas virtualmente pelo simples fato de serem mulheres.

reprodução/safernet

Nuvem de palavras feita com os relatos das mulheres que buscaram ajuda por intimidação

O que você pode fazer na prática

A maioria dos relatos de vazamento não consensual de imagens íntimas mostra que os nudes foram tirados e enviados em um contexto privado, dentro de uma relação com um parceiro afetivo. No entanto, os depoimentos mostram que as mulheres afetadas se sentem constrangidas e culpadas.

É preciso lembrar que mandar nudes não é o problema, mas, sim, compartilhar essas imagens sem autorização. A mulher nunca é culpada pelo vazamento. Mas quem compartilha - mesmo que seja com uma intenção boa, de denunciar ou expor o agressor, por exemplo - está contribuindo para a violência.

Romper o ciclo do compartilhamento é fundamental para limitar a circulação do conteúdo. É simples: é só não compartilhar. E, se você receber uma imagem do tipo em um grupo, reclame. Denuncie. Converse com quem mandou. Explique qual é o problema.

O mesmo vale para ~piadas~ misóginas ou exposição e intimidação de alguém. O bullying é feito em grupo, de forma repetida, e a vítima se sente atacada e isolada. Romper esse ciclo desde o começo, se posicionando e impedindo que a intolerância cresça, pode fazer toda a diferença na vida de uma mulher atacada. E não custa lembrar: nenhuma mulher "pede" para ser estuprada, atacada, zoada, perseguida ou ter sua intimidade divulgada sem sua autorização. A culpa é sempre do agressor.

Este domingo, 10 de dezembro, é o Dia Internacional dos Direitos Humanos, e marca também o fim da campanha #16dias contra a Violência Contra a Mulher, promovida pela ONU Mulheres. Na Safernet, conhecemos de perto as histórias e os impactos de agressões na internet têm sobre a vida das mulheres - sabemos bem que violência online também é violência.

Se você presenciar qualquer tipo de ofensa, denuncie. E, se você for vítima e precisar de qualquer ajuda, pode procurar a gente.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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