OPINIÃO

5 maneiras como mulheres de baixa renda estão desafiando os paradigmas do microcrédito na América Latina

23/01/2015 18:28 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02

Nos últimos 20 anos, mais de 70 milhões de mulheres da América Latina entraram para a força de trabalho, reduzindo a pobreza extrema na região em 30% somente na última década. Mulheres de baixa renda, especialmente aquelas que têm negócios muito pequenos no setor informal, vêm entrando para a força de trabalho em porcentagens muito mais altas nos últimos dez anos, em comparação com mulheres de alta renda. Apesar desses avanços, ainda restam muitos desafios, e a região continua a ter um dos índices de desigualdade mais altos do mundo.

Essas realidades ressaltam o importante papel que as mulheres, especialmente as de baixa renda, têm de desempenhar no crescimento econômico de suas comunidades. Para serem sustentáveis, as ações para garantir a inclusão social e financeira dessas mulheres têm de ser multidimensionais e orientadas ao mercado. Elas também devem contar com o apoio de parceiros comprometidos. Acima de tudo, acreditamos que as mulheres tenham a chave de seu próprio desenvolvimento e que elas precisam ter voz ativa nesse processo.

Muitas das mulheres que servimos são indígenas, não completaram a educação primária e sofreram violência doméstica. Elas vivem em comunidades pobres em áreas urbanas e semi-rurais e são as responsáveis (ou co-responsáveis) por suas famílias. Elas trabalham incansavelmente para criar seus filhos e manter suas famílias, atuando primariamente como vendedoras no setor informal, sem benefícios ou acesso à rede de proteção social. Elas têm alto risco de contrair doenças crônicas, mas não buscam aconselhamento médico preventivo porque cada minuto longe do trabalho significa menos dinheiro necessário para sua sobrevivência.

Em 2014, num esforço para entender melhor essas necessidades à luz de um contexto de rápidas mudanças sociais, políticas, econômicas e tecnológicas, conduzimos uma pesquisa independente, entrevistando 1 000 clientes e não-clientes no Peru e no México. Os resultados oferecem cinco insights chave e desafiam muitas ideias preconcebidas sobre as circunstâncias, comportamentos e valores de nossas clientes. Organizações como a nossa costumam evitar esse tipo de pesquisa por limitações de orçamento ou de capacidade. Mas o resultado foi inestimável para termos uma nova abordagem em nosso trabalho.

1. As clientes não são todas iguais

Pode parecer óbvio, mas no discurso do dia-a-dia é fácil esquecer que as clientes buscam microfinanciamento e desenvolvimento por diferentes razões e em diferentes estágios de suas vidas. A pesquisa nos permitiu identificar três tipos distintos de clientes: usuárias ocasionais de crédito, clientes experientes e clientes regulares do Pro Mujer. As clientes ocasionais usam o crédito para lidar com pequenas crises e trabalham para pagar suas dívidas o mais rápido possível. Clientes experientes sabem comparar suas opções e usam os empréstimos estrategicamente para enfrentar emergências de casa ou do negócio e para pagar outros empréstimos. O terceiro e maior grupo consiste das clientes regulares do Pro Mujer. Elas costumam ficar conosco não só pelos empréstimos em si, mas por causa do senso de solidariedade em relação às outras clientes e também pelo apoio emocional oferecido pela equipe do Pro Mujer. Pobreza é um assunto complexo - uma abordagem única não funciona. Como uma organização sem fins lucrativos e guiada por uma missão, acreditamos que temos de continuar a desenvolver produtos e serviços mais diversos para atender as necessidades de nossas clientes.

2. Elas têm opções...

Está ultrapassada a ideia de que mulheres de baixa renda são beneficiárias passivas de intervenções de desenvolvimento. Apesar de no passado não haver acesso ao crédito para esses três tipos de clientes, instituições de microfinanciamento que visam ao lucro agora estão ocupando esse vácuo deixado pelos bancos. Até mesmo instituições financeiras tradicionais começaram a adaptar seus modelos de negócios para atender a essas populações - e para ficar com parte de sua potencial receita. Nos dois países em que fizemos a pesquisa, o crédito é abundante, especialmente nas áreas urbanas. Segundo um estudo de 2012 do MixMarket, 53 instituições de microcrédito operavam no Peru, atendendo mais de 3,6 milhões de pessoas, com um portfólio de empréstimos brutos acima de 10,7 bilhões de dólares. No México, 3,8 milhões de clientes trabalham com 40 instituições que têm um portfólio de empréstimos brutos de mais de 3 bilhões de dólares. A onipresença dessas instituições se traduz em mais acesso e mais opções para as clientes.

Além disso, acredita-se que mulheres de baixa renda não tenham acesso à tecnologia por falta de educação formal. O que vemos, entretanto, é que os filhos, que costumam trabalhar com elas, estão ajudando a superar essa barreira tecnológica. Eles aprendem a navegar na internet na escola e ajudam suas mães a estar mais conectadas com o mundo exterior. Isso significa que instituições de microcrédito precisam se diferenciar e fazer um marketing melhor, em vários canais, para atender mercados cada vez mais concorridos.

3. ... mas as clientes estão ficando mais dependentes das instituições financeiras

Apesar de mais informadas na hora de escolher entre as opções, as clientes estão ficando mais dependentes das instituições financeiras. Contrair vários empréstimos de diferentes instituições é um grande risco. O crédito predatório tem crescido, e mulheres de baixa renda correm o risco de tomar empréstimos arriscados. Isso significa que o Pro Mujer tem de oferecer cada vez mais treinamento e apoio para que as mulheres possam entender não só nossos empréstimos, mas também os de outras instituições - que podem colocá-las em situação de inadimplência e agravar a situação de pobreza. Isso também afeta as instituições financeiras e o setor de microcrédito em geral, em nível nacional, e podem ter impacto negativo no crescimento econômico dos países. Práticas de crédito responsáveis e adesão aos princípios de proteção do cliente são fundamentais para minimizar esses riscos.

4. Marginalização e escassez influenciam a tomada de decisões

Preço, velocidade do desembolso e serviço ao cliente são fatores chave no processo de tomada de decisão de nossas clientes. Isso ocorre porque muitas vezes elas se veem vivendo quatro condições, três das quais as colocam sob tremendo risco: 1) pobreza, o que significa que elas raramente têm o dinheiro de que precisam para se sentir seguras e que, portanto, o preço é de importância vital; 2) um estado de emergência recorrente, no qual elas estão sempre vulneráveis às próximas emergências - que podem ser causadas por um dia longe do trabalho, um filho doente, um vazamento, situações que exigem desembolso imediato; 3) marginalização, isolamento, negligência ou, pior ainda, abuso, o que significa que elas querem ser tratadas com respeito. A quarta condição é positiva: as mulheres de baixa renda pesquisadas são motivadas, orgulhosas e diligentes. Elas não querem caridade e sabem que têm um papel a desempenhar na melhoria da situação de suas famílias.

Essas respostas desafiam as ideias preconcebidas segundo as quais basta oferecer acesso às mulheres de baixa renda para mantê-las como clientes. Em vez disso, a pesquisa mostra que elas querem serviços de alta qualidade, que as ajudem a resolver seus problemas financeiros de maneira rápida, barata e competitiva. Além disso, elas estão dispostas a pagar pelo privilégio de um bom serviço. As clientes dão valor a serviços de valor agregado, como planos de saúde acessíveis e treinamento de negócios - e estão dispostas a pagar por isso. Mas esses serviços fazem sentido apenas se forem apresentados e explicados como uma maneira de melhorar suas condições de vida (em vez de simplesmente algo "bom" para elas). Finalmente, os serviços devem ser providos de maneira simples e conveniente, sem rupturas nas vidas e responsabilidades itinerantes das clientes, de modo que elas possam chegar a tempo no trabalho, cuidar de suas famílias e pagar suas dívidas.

5. Mulheres querem mais que uma mera transação

Isso ficou claro com todas as mulheres entrevistadas nos dois países. Elas querem um relacionamento baseado em respeito e confiança mútua, que reconheça suas capacidades e as apoie em suas jornadas. Os centros são ambientes seguros, onde elas podem interagir com outras mulheres em circunstâncias semelhantes, lidando com outra dimensão da escassez de suas experiências e oferecendo a elas uma pausa nos estresses diários de suas vidas.

Os resultados do estudo apontam várias mudanças fundamentais em várias ideias preconcebidas. Nossa pesquisa vai se estender a clientes em outros países para ajudar a expandir as abordagens e ofertas, de modo que as mulheres possam ser donas não só de seus negócios, mas também de suas vidas.

Esse post é parte de uma série produzida pelo The Huffington Post e pelo Fórum Econômico Mundial para marcar a reunião anual do Fórum (em Davos-Kloster, Suíça, de 21 a 24 de janeiro) Membros da Fundação Schwab para Empreendorismo Social representam uma comunidade seleta de empreendedores que querem moldar as agendas globais e regionais para melhorar o estado do mundo.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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