OPINIÃO

'Não existe tempo livre, existe apenas o tempo. Hoje meu tempo é meu'

A empresária Maria Fernanda La Regina largou o emprego no banco para buscar a felicidade.

11/05/2017 16:51 -03 | Atualizado 11/05/2017 17:11 -03

Divulgação|Rafael Paixão

Quando cai a noite, na Praia do Espelho, a lua acende os coqueiros e o mar espelha uma bola prateada. "Ver o nascer da lua do coqueiral é um dos espetáculos mais bonitos da natureza", diz a empresária Maria Fernanda La Regina, proprietária da pousada Brisas do Espelho, no sul da Bahia.

De dia, o cenário ganha cores de paraíso com efeitos especiais: mar azul-turquesa, areia branca, sol amarelo-ouro e brisa com aroma de maresia. Basta pisar a areia macia dessa praia para compreender perfeitamente o que fez Maria Fernanda deixar uma carreira brilhante no mundo corporativo pelos brilhos do mar do Espelho. "Foi amor à primeira vista", conta ela. "O Espelho é um um lugar mágico, descontraído, onde ninguém fala de trabalho ou pergunta o que você faz", diz.

Entre Trancoso e a pacata Caraíva, a Praia do Espelho se desdobra em paisagens tão exuberantes que é impossível não querer voltar. Quando a maré baixa, formam-se pequenas piscinas, espelhos d'água. Daí o nome do lugar e a razão de tantos viajarem até ali para "se olhar no espelho". Como Maria Fernanda quando decidiu encerrar uma trajetória ascendente de 20 anos como executiva de marketing de grandes bancos para buscar uma vida com mais liberdade e propósito.

Trabalhando 12 horas por dia do alto de um prédio em São Paulo, ela se surpreendia quando alguém comentava: "você viu a chuva hoje?". "Eu nem via a cor do dia", lembra. Na época, comandava o marketing para o Brasil e a América Latina. Viajava sete países e respondia ao diretor global da área do banco, em Londres. Chegava em casa quando os dois filhos pequenos já estavam dormindo."Vivia estressada, ansiosa, achava que o banco ia fechar se eu não me dedicasse inteiramente", diz ela.

Divulgação|Rafael Paixão

Ao completar 40 anos, Maria Fernanda parou para pensar. "Senti que havia encerrado um ciclo." Em seis meses pediu demissão, deixando os colegas perplexos. O banco chegou a propor uma licença. Em vão. "Eu precisava sentir o que era não ter um emprego e o que faria dos meus dias sem um salário no fim do mês." Habitué do Espelho, onde mantinha uma casa, voou para seu refúgio, o único lugar no planeta onde conseguia "desligar".

Com o pé na areia, escreveu uma carta de próprio punho, a pedido do banco, selando o fim do contrato. "Enviei um fax que guardo até hoje, vou emoldurar", brinca. Isso foi em maio de 2012. Dois segundos depois, confessa que se arrependeu. De volta à rotina de São Paulo, veio o vazio. "Dar tchauzinho para os filhos na natação nunca foi o meu perfil", diz. Passou um mês de pijama, deprimida, assistindo séries de TV. "Acordava no meio da noite, suando, e pensava: sou mimada, estraguei minha vida."

O mais difícil, conta ela, foi encarar o medo de dar tudo errado. "Sou conservadora, gosto de segurança. Sabia que era uma decisão de risco e que tinha de mergulhar totalmente em um novo estilo de vida. Acredito que só enfrentamos o medo quando ele sai da fantasia. Mas não sabia que ia ser tão duro!", conta.

Os conselhos para dar "tempo ao tempo" não surtiam efeito. Foram dois meses de silêncio e ansiedade. Até que, em uma nova temporada baiana, descobriu, no topo de uma falésia, uma pousada abandonada que resolveu arrendar. "Pintei paredes, varri chão. Ter uma tarefa me salvou", diz. A experiência corporativa fez a diferença. "Planejei tudo como se fosse um produto do banco, com design de logomarca e business plan. Era uma pousada de sete quartos, que tratei como se fosse o Hyatt [rede de hotéis de luxo]".

Divulgação|Rafael Paixão

A Pousada Brisas do Espelho foi bem-sucedida, mas ainda sobrava tempo em São Paulo. Na segunda etapa, comprou o restaurante Figo, de culinária contemporânea, a poucas quadras de sua casa na capital paulista. Nos tempos de faculdade, havia sido sócia em um restaurante japonês.

Este ano, abriu ainda o Silo Bar e Forneria, com comidinhas de forno a lenha, somando três empreendimentos de sucesso. "Gosto de lidar com o público, de pensar o que faz as pessoas felizes e servi-las", diz a empresária, dona de um sorriso cativante e uma calma que parece inabalável.

A pousada também foi ampliada, em 2015, a partir da compra de uma casa vizinha. Ganhou mais 12 suítes, restaurante com menu à la carte, sushibar e piscina com lounge bar num jardim tropical. "Já disse ao meu marido que se eu inventar mais um negócio, ele pode me internar!", brinca.

Quatro anos depois da virada, o dia a dia se estruturou: ela passa três semanas em São Paulo e uma na Bahia. De casa, vai para os restaurantes a pé e pode acompanhar ao vivo a rotina do marido e do casal de filhos de 12 e sete anos. "Consigo ver, pela feição do rosto deles, ao chegar da escola, se tiveram um dia bom ou ruim", diz.

Nem por isso trabalha menos do que antes. Ao acordar, a primeira tarefa é verificar o faturamento da noite anterior. Na sequência vem o movimento do almoço e a checagem das reservas da pousada, para ajustar as metas. "Em quatro anos, tirei 30 dias de férias", revela. E aprendeu a lidar com a instabilidade. "Todos os dias me preocupo como se fosse quebrar no dia seguinte."

O refúgio segue sendo o a Praia do Espelho, onde vê tudo azul e pode escapar para pequenos passeios, como caminhar até a divisa do mar com o Rio dos Frades. "Ali, mergulho, agradeço por estar viva e volto descalça."

Com um pouco mais de energia, encara a trilha de três horas até Caraíva. Anote a dica: "Você chega exausta, atravessa de canoa, vai direto para o Bar do Pará, pede um pastel de arraia e uma cerveja trincando de gelada. Já comeu pastel sem culpa? Depois dessa caminhada, não tem como engordar. Eu como quatro... (risos)."

Dispor do tempo a seu favor, seja para trabalhar, estar com família, amigos, ou ver o luar, é o grande ganho e prova de liberdade. "Não existe tempo livre, existe apenas o tempo. Hoje, meu tempo é meu", conclui.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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