OPINIÃO

Não participe do teatro da falsa polarização: é hora de unir o Brasil!

07/03/2016 12:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02
ASSOCIATED PRESS
Brazilian President-elect Luiz Inacio Lula da Silva laughs with outgoing President Fernando Henrique Cardoso at the start of their meeting at the presidential palace in Brasilia, Brazil on Tuesday Oct. 29, 2002. (AP Photo/Dario Lopez-Mills)

Primeiro ato: "O Lula foi preso!"

A frase passeou caudalosamente pelas redes sociais na manhã da última sexta-feira (4).

Em aglomerados urbanos por todo o país, cidadãos de todas as classes sociais fizeram festa. Alguns saíram às ruas para comemorar. Há relatos de que as militâncias pró-Lula chegaram a entrar em conflito com manifestantes antipetistas.

Ouviu-se num comentário eufórico: "A corrupção acabou, o Lula foi preso!"

No meio desse turbilhão de um acontecimento só, até mesmo o mercado reagiu. O dólar caiu e a Bolsa de Valores subiu. Ambos os casos em ritmo surpreendente.

Leu-se na linha do tempo de alguém cuja alma foi vampirizada pela crise da polarização PT-PSDB: "agora vai ter guerra civil!".

Mas Lula não foi preso.

O ex-presidente foi intimado coercitivamente a depor à Polícia Federal.

Segundo ato: "Golpe à vista."

Os grupos politizados de parte da esquerda saíram à defesa apressada do ex-presidente Lula.

Insinuações perigosas de ataque à democracia foram feitas. Convocações pelo Facebook foram inflamadas.

"Às ruas!", eles disseram na pressa daqueles que revelam a quem está dada sua verdadeira fidelidade.

Outros, numa demonstração de grande ingenuidade, bradaram ao som do discurso:

"Lula 2018! Lula 2022! Lula 2026!".

Sinais de uma terrível herança patrimonialista que prefere o empoderamento de personalidades à institucionalização das conquistas.

Acusações de parcialidade da Justiça foram distribuídas.

Apelidos desagradáveis foram atribuídos ao juiz Sérgio Moro.

Dedos sujos foram apontados aos erros alheios num ato que traz à memória o bom conselho da frase crística: "tira primeiro a trave do teu olho, antes de tentar retirar o cisco do olho do teu irmão".

"Nosso exército vai às ruas!", gritou outra alma vampirizada pela crise da polarização.

É preciso se negar a participar deste teatro.

A política não é teatro. E as vidas das pessoas não são brinquedos com que se possa fazer jogo ou encenação.

São pessoas de verdade que vão para as ruas, se enfrentam e se machucam; como já fartamente observado em vídeos publicados em redes sociais nos últimos dias.

Muitas delas bem intencionadas, mas de quem a alma, a autocrítica e a própria humanidade foram vampirizadas pelos efeitos monocromáticos da visão binária e do marketing político.

Infelizmente, os diretores do teatro da polarização escolheram fazer o pior dos jogos: instrumentalizar a crise econômica, o escândalo da Petrobras e a Operação Lava-Jato para ganhar ou manter o pouco do capital político que lhes restou.

É preciso acabar com essa encenação que só tende a desservir, dividir e enganar o país.

É preciso entender que opor-se ao PSDB não faz de alguém imediatamente um petista, ou "linha auxiliar do PT".

Ao mesmo tempo, é necessário compreender que opor-se ao PT de forma enfática (e não da forma extremamente amigável com que parte da esquerda tende a "fazer oposição") não converte alguém em representante da direita política ou em emissário da grande mídia.

Os sentimentos antipetistas são mais do que compreensíveis.

Eles são legítimos.

O espaço deste blog já foi utilizado mais de uma vez para alertar sobre o engano que é confundir-se o projeto nacional-desenvolvimentista do PT pós-presidência com um projeto de esquerda cidadão e cidadanista, mobilizado e mobilizador.

Se houve acertos durante os governos petistas, é inegável que os erros foram incontáveis.

Como defender de forma tão passional um grupo político e um governo que se portaram de maneira tão decepcionante ante o aniquilamento dos povos indígenas brasileiros?

E entenda-se aqui o termo aniquilamento com todo o peso que a palavra carrega.

Não vale partilhar a dor dos povos guarani-kaiowá?

"De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs e avós, bisavôs e bisavós, ali estão o cemitérios de todos nossos antepassados. Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser morto e enterrado junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação/extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos." - Carta dos bravos guerreiros guarani-kaiowá, de 2012

Como defender alguém que, ao tocar as obras de Belo Monte sem que condicionantes socioambientais fossem cumpridas, permitiu que vidas fossem virtualmente arruinadas?

Há mais. Muito mais!

Poderia-se falar sobre o descaso para com a fiscalização de barragens que influenciou profundamente a lógica de privatização dos lucros e socialização dos prejuízos que tem sido observada no caso de Mariana.

Sobre as inúmeras tentativas de flexibilização dos licenciamentos ambientais. Sobre o retrocesso na divulgação do kit anti-homofobia.

Sobre as alianças e amizades com os mais assustadores conservadores brasileiros, como a ministra da Agricultura do governo petista de Dilma Rousseff: Kátia Abreu. Considerada pelo jornal The Guardian a "parlamentar mais perigosa do Brasil".

Para se encontrar as contradições nos governos dos últimos treze anos não é necessário recorrer aos numerosos casos de corrupção que parecem se completar numa versão surpreendentemente às avessas do conto de "Robin Hood". Basta olhar para muitas das políticas públicas praticadas.

***

Os eixos da polarização se diferenciam em cores, núcleos de influência, forma de atuação e figuras de liderança. Mas nesta lógica do lucro sobre a vida o PT não poderá se dissociar do PSDB.

Os dois grandes partidos de oposição e situação estão igualmente implicados no crime moral de trair os ideais sobre os quais foram fundados em favor de grandes grupos econômicos.

Por isso mesmo, não há como tergiversar na defesa sonhadora do construtor-mor do projeto de poder do PT: o ex-presidente Lula. Cujo legado está se desmanchando como resultado de suas próprias escolhas, das escolhas de sua sucessora e das escolhas de seu partido.

Por isso mesmo, é urgente que a Justiça alcance a todos.

Que nessa busca por justiça, cumpra-se a lei para ambos os polos da política brasileira. Sabendo-se que acima da Constituição, nenhum cidadão pode estar posto, como se sobre um pedestal estivesse colocado.

Quando a lei é válida para todos, isso implica imediatamente que qualquer brasileiro pode estar sujeito a ser conduzido para depoimento à Polícia Federal.

E mesmo que o episódio recentemente ocorrido com o ex-presidente Lula possa parecer desproporcional aos fatos para alguns juristas respeitáveis, é inadmissível que se tente jogar uma névoa de dúvidas e desconfianças sobre o Poder Judiciário, especialmente num contexto de tamanha crise econômica e política.

Isto não é apenas torcer pelo "quanto pior, melhor": é ceder aos caprichos do lado mais sombrio da alma humana na tentativa de levar a crise para a esfera institucional, de onde talvez a saída seja virtualmente inacessível por um bom tempo. É preciso ter responsabilidade para com as instituições democráticas e republicanas.

Nenhuma acusação de possíveis excessos na característica coercitiva da ação da PF e da Justiça torna louvável ou mesmo aceitável a postura do ex-presidente Lula.

Colocar-se na posição de vítima, definitivamente, não proporciona resposta às indagações da sociedade.

Comparar-se, neste momento crítico, a uma serpente venenosa, apenas gera mais perguntas que respostas.

O momento é para prestar esclarecimentos e não para tergiversar.

O PT e o presidente Lula têm explicações a fornecer à sociedade brasileira. Assim como as tem o PSDB, do qual muito pouco se tem ouvido falar, mesmo diante de indícios de corrupção lamentabilíssimos como o suposto esquema de fraudes nas merendas escolares em São Paulo. Fato que deveria ser tão recorrente nos telejornais quanto o depoimento do ex-presidente Lula à Polícia Federal.

Todavia, muito mais do que reivindicar a justiça, é preciso ter prudência para não se render ao jogo político sujo sobre o qual a agora mais que comprovadamente falsa polarização PT-PSDB se sustenta no poder.

Prudência!

Vale repetir incansavelmente. Atreve-se aqui até mesmo a aconselhar e implorar: é necessário ter prudência.

Prudência diante de discursos inflamados.

Prudência diante de "salvadores da pátria".

Prudência diante da visão ingênua de que o PT e o ex-presidente Lula nada fizeram, nada sabem e por nada são responsáveis.

Prudência diante da visão igualmente ingênua de que o PT é o único ator nos casos de corrupção que assolam o país.

Prudência diante da pressa de se pronunciar acaloradamente num contexto tão complexo sem que todas as informações estejam devidamente esclarecidas; sem que todos os fatos que permeiam a Operação Lava-Jato estejam devidamente evidenciados. Sem que todos os "porquês" e "pingos nos i's" estejam devidamente postos. Sem que sejam sabidas todas as razões e motivos que levaram às ações recentes da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça.

Prudência diante da convocação passional da população às ruas por grupos políticos que querem unicamente se aproveitar da crise e do conflito para com eles faturarem.

Prudência diante do ufanismo político-ideológico que radicalizou, cindiu e dividiu o país.

Sem prudência, a população estará fadada a repetir erros antigos; criar erros novos e nunca sair do ciclo de ódio e guerra que marcou as eleições de 2014 com sua política de terra arrasada ao melhor "estilo João Santana".

Se Lula e Dilma, Cunha e Renan, FHC e Alckmin, ou qualquer político estiverem implicados em atos de corrupção, e se as acusações contra qualquer um deles forem comprovadas, que cumpra-se a lei de forma plena.

É da Justiça e do funcionamento das instituições que virá qualquer saída para este impasse político.

É hora de unir o Brasil.

Nesse meio tempo, resta torcer para que a parcela da população que não foi tomada pelo clima de ódio que domina o país siga firme no propósito de fazer uma nova política: honrada, integradora e orientada ao debate respeitoso de ideias. Cujo objetivo é a construção de uma nação justa e digna. Igualitária e livre. Alicerçada sobre os fundamentos de solidariedade e justiça social. De preservação ambiental e geração de riqueza para todos. De proteção das diferenças de credo, cor, raça, gênero e orientação sexual. Onde direitos são garantidos e deveres são cumpridos. Onde ninguém está acima da lei e onde a justiça é igualmente válida para todos: sejam petistas ou tucanos.

Que estas pessoas não desistam de dias melhores. Não abandonem os sonhos e a crença num futuro digno e num país no qual se possa viver profundamente feliz.

Fora do ringue do ódio e do rancor, estas pessoas estão caminhando e chorando, plantando com lágrimas suas sementes de esperança. Aludindo às palavras da ex-senadora Heloísa Helena, essas pessoas estão espalhadas pelos partidos ou fora dos partidos, a maioria delas com os corações partidos. Mas precisam se unir. E já estão se unindo.

Não vamos desistir do Brasil.

*As opiniões aqui expressadas são de caráter estritamente pessoal e individual.

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