OPINIÃO

Modo petista de fazer política nos levou ao abismo da intolerância máxima

20/01/2016 10:19 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
ASSOCIATED PRESS
Brazil's President Dilma Rousseff gestures during a meeting with state governors regarding the impeachment process opened against her at Planalto presidential palace, in Brasilia, Brazil, Tuesday, Dec. 8, 2015. On Tuesday, parties are expected to nominate representatives for a special commission in the lower house to determine whether impeachment proceedings will go to a full vote in the house. The proceedings were introduced last week, citing a court's finding that Rousseff's administration violated fiscal responsibility laws by using money from state-run banks to fill budget gaps and pay for social programs. (AP Photo/Eraldo Peres)

Reflexões pela esperança, parte I

Reza a tradição judaico-cristã que o rei Salomão teria sido homem de sabedoria singular. Teria sido também o seu reinado conhecido como um dos mais prósperos dentre todos que Israel já tivera. E é de um provérbio atribuído ao rei Salomão que vem a introdução deste breve ensaio:

"Quem planta vento, colhe tempestade"

Uma espécie de lei do karma traduzida em verso num mundo antigo e distante.

Mas que ainda assim pode ser compreendida facilmente nos dias de hoje por estar verbalizada, de alguma forma, em quase todas as culturas e crenças em frases simples, porém incisivas, como o ditado popular: "aqui se faz, aqui se paga".

O conceito de que toda escolha traz consigo um resultado foi traduzido até mesmo por Newton em sua famosa Terceira Lei, também conhecida como Lei da Ação e Reação.

E na política, não parece ser diferente.

Hoje, quando observa-se no Brasil um ódio famigerado distribuído aleatoriamente pelos seus mais diversos rincões. Quando as sessões parlamentares se tornam um verdadeiro ringue com direito às mais diversas agressões. Quando discussões de bar se tornam corriqueiras. Quando os ânimos estão à flor da pele. Hoje, quando o discurso político é levado às últimas consequências, não se pode esquecer que alguém, lá atrás, plantou os ventos da contenda, da discórdia e dos ataques rasteiros quando decidiu que se poderia fazer "o diabo quando é hora de eleição":

1 - Nas alianças fisiológicas e sem qualquer base programática;

2 - Na desconstrução pública da imagem de Marina Silva;

3 - E, até mesmo, na forma e no discurso que escolheu para derrotar o candidato Aécio Neves.

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Na foto: Representação emblemática de que alianças fisiológicas podem cobrar um alto preço.

É triste observar o nível a que o debate político chegou. Mais triste, todavia, é perceber que foi a própria presidenta Dilma Roussef e seu partido que, auxiliados por João Santana, marqueteiro fiel, escolheram dar o primeiro passo em direção ao precipício da intolerância máxima.

Por isso, não espantam os adjetivos que ambos tem recebido nas redes sociais. Não espanta que parte do PSDB tenha entrado numa aventura inconsequente de "retirar Dilma" a qualquer custo. Mesmo que este custo signifique ceder a chantagens e negociações de figuras lamentáveis - para se dizer o mínimo - como Eduardo Cunha. Não espantam os bonecos infláveis de Lula e Dilma vestidos de presidiários que passeiam pelo Brasil. Não espantam as discussões acaloradas de rua, ou de bar, ou de restaurante, sejam elas na presença de Guido Mantega ou Chico Buarque. (Embora o tom em que são conduzidas seja absolutamente condenável.)

Mas é importante relembrar que, antes de Chico ou Mantega serem hostilizados publicamente, foi Joaquim Barbosa o primeiro a sofrer agressões verbais por parte de militantes petistas num bar em 2014.

É importante relembrar que, antes que um livro sobre Chico fosse rasgado num episódio lastimável, foi a UJS, entidade com tendências ao governismo, que rasgou as páginas da revista Veja às portas da organização. (E é necessário ressaltar que não se está aqui fazendo qualquer defesa à revista ou ao seu conteúdo.)

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Na foto: Os ataques abaixo da cintura foram marca da campanha petista em 2014. O principal alvo foi a candidata Marina Silva.

Todavia, nada pode impedir o fato de que a lei do karma sempre cobra o seu preço. E, neste caso, para pagá-lo, parecem ainda faltar muitas prestações.

Nas boas palavras do antropólogo e escritor do livro "Elite da Tropa", Luiz Eduardo Soares:

"Dilma e o PT têm encontro marcado com o tribunal da história."

Mas esse encontro não se dará apenas por conta dos ataques a adversários políticos ou pela forma rasteira como escolheram fazer política. É um encontro marcado também com suas próprias contradições e incoerências enquanto supostos representantes de pautas populares:

Um encontro marcado com os povos indígenas, vítimas de um aniquilamento inimaginável no contexto de um governo de "esquerda";

Um encontro marcado com as populações da bacia do Xingu, impactadas pelas obras de Belo Monte e até hoje à espera de que condicionantes socioambientais sejam atendidas;

Um encontro marcado com a lama de Mariana e o aparente descaso na fiscalização das barragens, que sugere certa complacência do Estado ante à socialização dos prejuízos em grandes empreendimentos nacionais;

Um encontro marcado com a flexibilização dos licenciamentos ambientais, conforme implicado recentemente em fala da presidenta do IBAMA;

Um encontro marcado com as populações LGBT e o retrocesso na divulgação do kit anti-homofobia;

Um encontro marcado com o Novo Código Florestal;

Um encontro marcado com aqueles que esperaram por algum serviço público dignamente prestado enquanto, aparentemente, dinheiro da Petrobras era desviado aos milhões para grandes grupos econômicos nacionais no que parece ser a versão surpreendentemente às avessas do conto de "Robin Hood", revelado nos episódios cada dia mais cinematográficos da operação Lava-Jato.

Nestes encontros, a história haverá de revelar a verdade.

Há de abrir os olhos daqueles que, enquanto insistentes na ingênua defesa do voto crítico, compram ainda mais ingenuamente a tese de que um dispositivo com previsão constitucional possa ser considerado golpe. Há de revelar que o primeiro passo em direção à instabilidade política e a um possível rompimento democrático se deu, não quando Eduardo Cunha resolveu acatar o pedido de impeachment feito por juristas conhecidos e respeitáveis, mas quando ficou decidido que era justo e digno se sacrificar um país em nome de uma eleição.

Nestes encontros, a história haverá de fazer justiça.

Há de julgar um mandato conquistado com base em estelionato eleitoral. Há de julgar as deturpações da verdade que ficaram apenas nas propagandas partidárias. Há de julgar quem acreditou piamente que se pode fazer o diabo para ganhar as eleições.

Pois não se deve aqui esquecer qual é o resultado de se "vender a alma ao diabo": depois de algum tempo, pode-se acabar terminando no "inferno". E neste caso específico, "inferno" pode adquirir diversos significados: impeachment, impugnação de mandato, renúncia ou o fardo de ter seu legado marcado pelo retrocesso nos anais da história.

"Inferno" que tem na sua síntese o fim de uma carreira política que teve por escolha ser inconsequente.

*"Reflexões pela esperança" é uma série de ensaios sobre a política brasileira a ser publicados durante os primeiros meses de 2016.

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