OPINIÃO

Esquerda brasileira olha para trás, diz intelectual ligado à Rede

01/11/2015 18:34 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
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Sociólogo, cientista político, mestre em Políticas Públicas pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social (PPGSS-UERJ) e um autodeclarado "democrata pós-moderno", Marcio Sales Saraiva é um intelectual defensor dos ideais de justiça, igualdade e direitos humanos.

É também filiado à Rede Sustentabilidade e amplamente conhecido dentro do novo partido de Marina Silva.

Em entrevista ao blog, ele refletiu conosco sobre a situação em que se encontra a esquerda brasileira, o avanço do conservadorismo, o debate ideológico nacional e o possível futuro do pensamento progressista no País.

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O senhor escreveu recentemente sobre o "aniquilamento da esquerda brasileira". Nesse contexto, qual seria o diagnóstico para essa esquerda?

Marcio Sales Saraiva: Dentro do "critério Bobbio" do que é esquerda e direita, considero razoável dizer que hoje a esquerda brasileira está, num primeiro momento, esfacelada e desmoralizada. Mas poderá se recuperar na medida em que ela abrir mão de dogmas do passado e conseguir refletir de forma honesta sobre o presente. Fazer uma autocrítica profunda e apontar para uma agenda ética, política, socioeconômica e cultural antenada com o século 21. Trata-se de apresentar à sociedade um programa de esquerda que seja crível, razoável e possível. Não adianta falar, por exemplo, em dar um calote na dívida. Isso é loucura. Ninguém acreditaria nisso. Poderia levar o País a uma insolvência econômica. Hoje, com o mundo globalizado e as economias interconectadas, se você faz algo desse tipo, você dá uma pancada violenta no mercado com fuga imediata de capitais. São questões muito pragmáticas das quais a esquerda precisa se dar conta com mais realismo e menos devaneio.

Podemos considerar essa esquerda brasileira que temos hoje como uma esquerda elegível?

Eu acredito que, se essa esquerda não se renovar, não se conectar com o século 21, não desenvolver um projeto que possa ganhar os corações e mentes dos indivíduos e ganhar a confiança de vários setores da sociedade, com certeza, será varrida por um bom tempo do mapa político e eleitoral do País. O resultado disso já estamos vendo: o crescimento exponencial da direita, da extrema-direita e das forças mais reacionárias no Brasil. Esse crescimento é espontâneo? Não. Esse crescimento é um fruto da Era PT. A direita volta a crescer à medida que o PT vai cometendo erros sobre erros. A decepção e a desilusão são imensas diante do partido que prometeu ética na política com um discurso de esquerda que procurava ser "diferente de tudo que aí está". Esses conservadores crescem nas costas dos erros do PT, que arrastou o então imaginário social positivo a respeito da esquerda para a lama da corrupção e das alianças imorais. E agora nós temos uma direita muito maior, mais organizada e com uma voz ativa no cenário político. O pior disso tudo é que nem sempre é uma direita liberal e comprometida com a democracia. Esses liberais eu respeito, mas o que tenho visto é o crescimento de uma direita mais estúpida, carrancuda, linha-dura, com simpatias por regimes autoritários, antifeminista, contra os direitos das pessoas LGBT. Isso é nefasto.

E quais seriam as perspectivas de futuro para a esquerda brasileira?

Eu considero que essa é "a pergunta do milhão". Penso que o futuro da esquerda brasileira passa por uma releitura radical do seu passado à luz da contemporaneidade e pela necessidade de se refundar, ética e politicamente, sobre novos valores, novos paradigmas, como por exemplo, o da sustentabilidade planetária. Ou seja, eu penso que o que a história pede hoje é uma nova esquerda. Nova esquerda não só porque ela vai trocar de camisa, trocar de símbolo ou trocar de nome. Isso é algo muito superficial. Mas nova esquerda no sentido de concepção, de visão de mundo. Que a esquerda possa realmente aprender com os erros do passado: desde o culto ao Estado até o "vale-tudo" em nome da mudança social. A Rede Sustentabilidade, por exemplo, está tentando isso. Mas não é só a Rede. Tem gente espalhada por vários partidos e gente fora dos partidos políticos que vem meditando e refletindo sobre essas questões, criando novas formas de atuação com mais horizontalidade e democracia, sem uma metanarrativa arrogante que dê conta de todas as coisas, dialogando com as questões da pós-modernidade. Mas ainda assim, no geral, o que chamamos de "esquerda brasileira" tem enorme dificuldade de se repensar.

Qual é a tendência diante dessa dificuldade de se repensar enquanto movimento ideológico?

A tendência é fazer o que ocorreu na fundação do PSOL. Diante da fragmentação social e política, culpa-se a direita, as forças reacionárias, os "golpistas" ou o próprio PT de "desvio doutrinário/ideológico". Qual seria a solução "inovadora" pra essa esquerda tradicional? Voltar novamente ao passado. A esquerda permanece numa espécie de eterno retorno ao passado. Como se a solução para o mundo pós-moderno - com seus dilemas e potencialidades - estivesse, em síntese, no passado. No retorno literal a Marx, Gramsci ou Althusser, ao invés de olhar para frente e pensar: "Bem, dadas as novas condições socioeconômicas, culturais, ambientais e políticas, o que podemos pensar como progressista daqui pra frente? O que é ser progressista hoje?". Claro, isso não quer dizer que a esquerda deva negar sua trajetória, seu passado. De forma alguma. Já disse que o equilíbrio é necessário e há lições que ainda hoje são preciosas. Marx, Gramsci e Togliatti ainda nos dizem algo, mas não podemos encará-los como uma espécie de cânon sagrado, vozes inquestionáveis de uma "verdade divina do proletariado". Eles, os clássicos, nos apontam problemas que precisam ser repensados a partir do hoje.

Não ocorre, vamos colocar assim, um certo bullying ideológico quando alguém tenta fazer essas novas reflexões dentro da esquerda?

Sem dúvida. No Brasil, há intelectuais que têm na tradição de esquerda sua referência, mas que estão pensando no hoje com os olhos no futuro. Veja, por exemplo, Luiz Eduardo Soares, Marco Aurélio Nogueira, Boaventura Souza Santos ou Bruno Cava Rodrigues. Mas isso é algo que irrita profundamente a maioria da esquerda tradicional, agarrada aos velhos paradigmas. Nesse movimento de repensar, hoje, somos poucos. A maioria corre pro velho. Corre pro antigo. Até porque isso oferece uma solidez psicológica e emocional. É algo típico do fundamentalismo religioso. Eu diria que a esquerda brasileira tende a um certo fundamentalismo ideológico. Ela se volta aos fundamentos e se agarra neles, diante de um presente que é muito arriscado, que é muito complexo, cheio de desafios e paradoxos, fluido e não rígido. Nesse campo, nossa esquerda tem traços semelhantes ao fundamentalismo religioso. Quem na esquerda ousa pensar diferente é prontamente tachado de "coxinha", de "reacionário" ou de "liberal".

Num cenário em que há um movimento mundial de se repensar a esquerda, por que a esquerda brasileira seria então tão fundamentalista?

Eu tenho impressão de que teorias e ideias renovadoras do pensamento ideológico chegaram muito atrasadas ao Brasil e, por muito tempo, a esquerda brasileira ficou isolada da esquerda mundial. Mas com o processo de globalização da informação, essa situação de "atraso" vem sofrendo profundas modificações. A esquerda brasileira está sendo forçada a pensar em conjunto com o mundo. Ainda assim, ela resiste. Quem na esquerda aceita dialogar com as contribuições de um John Rawls, Adam Przeworski, Amartya Sen ou mesmo Hannah Arendt não é visto com bons olhos.

E quais seriam questões importantes para a esquerda de hoje?

Como conduzir um programa de responsabilidade fiscal sob uma perspectiva de esquerda, por exemplo? Ou governos de esquerda devem ser necessariamente deficitários? O Syriza, na Grécia, tem enfrentado essas questões pragmáticas. E muita gente já se retirou do Syriza por causa disso. Porque é muito fácil você fundar um partido novo, de esquerda, que fica na oposição parlamentar "contra tudo e todos" com um purismo ingênuo. O desafio é quando esse partido de esquerda senta na cadeira do governo e assume responsabilidades públicas. Aí ele tem que dar conta da realidade. Sair do discurso fácil do "contra tudo isso aí". Deixar a promessa e transformá-la em política pública concreta. Sair das perspectivas utópicas da campanha para administrar o real. E esse real cotidiano é massacrante. O Tsipras tem passado por muita dificuldade, porque uma coisa era o que ele dizia na campanha, outra é executar. Não é fácil.

Onde poderíamos enxergar algumas dessas reflexões que você cita ocorrendo na esquerda global?

Você tem, por exemplo, uma tradição de esquerda que vem inovando muito desde o eurocomunismo na Itália, na França e na Espanha. Incluindo setores de esquerda liberal do Canadá. Anthony Giddens, com toda sua teorização da Terceira Via, trouxe contribuições muito importantes, principalmente com o livro Para além da Esquerda e da Direita. A Utopia Desarmada, do Jorge Castanheda, Christopher Lasch, Pierre Rosanvallon, Manuel Castels, Zygmunt Bauman, Alain Touraine, Castoriadis, Daniel Cohn-Bendit, Michel Lowy e os ecossocialistas... Todos trazem aportes importantes para a esquerda renovada do século 21. Precisamos aprender com a experiência do Syriza. A experiência dos movimentos da Espanha, como o Podemos. Acompanhar os movimentos de reforma do Partido Democrata nos Estados Unidos, do Partido Socialista Espanhol (PSOE). Olhar o modelo sueco, com o Partido Operário Social-Democrata da Suécia. A própria experiência da Frente Ampla no Uruguai. Mas nada disso parece fazer muito sucesso no Brasil. Pelo contrário, a tendência da esquerda brasileira sempre foi de condenar esses autores e movimentos que, nem sempre acertando, ainda assim faziam um esforço intelectual no sentido de mudança e compreensão do vivido. A tendência é de sempre olhar isso tudo como uma traição à ortodoxia do marxismo, essa mesma ortodoxia que matou Marx.

Existe muita reação na internet quando se faz uma defesa da Rede, com acusações de que a Rede seria um partido conservador. Diante desse quadro, você diria que há espaço para o pensamento de esquerda dentro do Rede?

Se não houvesse espaço para um pensamento de esquerda dentro da Rede, uma liderança como Heloísa Helena não estaria na Rede, nem o vereador carioca Jefferson Moura, o comunista Martiniano Cavalcanti, o senador Randolfe Rodrigues ou o deputado federal Alessandro Molon. Se não houvesse espaço para um pensamento renovado de esquerda dentro do partido, muita gente da Executiva Nacional, do Elo Nacional e dos Elos Regionais abandonariam a Rede Sustentabilidade. O fato de que essas pessoas estão na Rede é uma prova de que a Rede tem espaço pra um pensamento à esquerda. Essa conversa de que a Rede seria conservadora-liberal é ignorância ou má-fé. Lembramos que Marina Silva, Pedro Ivo e muitos outros companheiros da direção nacional foram militantes do clandestino Partido Revolucionário Comunista (PRC) na década de 1980, no interior do Partido dos Trabalhadores. Chamar esse povo de "direita" é brincadeira.

Mas a Rede é de esquerda ou de direita?

A Marina já expressou, em algumas ocasiões, que a Rede Sustentabilidade não é "nem de esquerda, nem de direita". Que ela é "para frente". Qual o sentido disso? A primeira questão é que essa expressão envolve, na minha leitura, um ideal progressista. Esse seria o sentido de "para frente". Muito mais do que preocupar-se com as etiquetas de esquerda ou de direita, a Rede Sustentabilidade tem como preocupação o progresso social, e que esse progresso se dê dentro do paradigma de sustentabilidade planetária. Portanto, isso nos diz algo sobre economia solidária, nova política, ética global e desenvolvimento não predatório com redução de assimetrias sociais graves. São diversos eixos que se encontram dentro desse paradigma de sustentabilidade progressista que age no aqui-agora com olhos no futuro. Basta conferir o Estatuto da Rede, o seu Manifesto, acompanhar a atuação da Rede Sustentabilidade, os posicionamentos da Executiva Nacional da Rede e agora os posicionamentos da bancada da Rede no Congresso e você irá testemunhar que, de fato, trata-se de uma nova organização progressista. Ainda que não esteja capturada pela lógica tradicional da esquerda e da direita. Portanto, não opera dentro dos critérios de Norberto Bobbio que eu estou usando aqui apenas como orientação. A segunda questão é que a Rede tem claros compromissos ideológicos e programáticos. Não ser de esquerda ou de direita deve ser interpretado apenas como a afirmação de um espaço imagético, teórico e prático que está além da díade na pós-modernidade, sem, contudo, negá-la por completo.

E se tentássemos fazer uma análise externa, pela visão tradicional de um cientista político?

Se nós tentarmos forçar a dicotomia ou a "díade", como chamava Bobbio, talvez possamos dizer que a Rede seja um partido de centro-esquerda ou "esquerda moderada". Ela tenta conjugar mercado e Estado com justiça social e respeito a todas as formas de vida e ao meio ambiente. Um partido que se afasta de uma visão laissez-faire de mercado, mas que também não abraça uma visão tradicional de socialismo onde o "Estado é bom" e deve intervir em todos os aspectos da vida dos indivíduos "para o bem dos indivíduos". Por isso mesmo, a Rede, da forma como vejo, dialoga com uma tradição positiva do liberalismo: defesa das liberdades individuais e civis, das instituições e procedimentos da democracia e do dinamismo do mercado. Mas também dialoga com aquilo que a esquerda e os movimentos socialistas trouxeram de melhor para a humanidade, como a radicalização da democracia e a centralidade do bem-estar social: a defesa da igualdade social, da distribuição equitativa da renda e do direito das minorias contra todas as formas de totalitarismo de maioria. Todas essas são bandeiras da Rede Sustentabilidade. Mas poderíamos dizer também que isso está para além da direita e da esquerda. Poderíamos chamar de razoabilidade democrática.

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Para conhecer mais o trabalho do professor Marcio Sales Saraiva, acompanhe o seu site e sua página do Facebook.

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